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A poluição importada de São Paulo no Paraíba do Sul

O Globo, Rio, p. 22
11 de jul de 2004

A poluição importada de São Paulo no Paraíba do Sul
Estudo feito por comissão da Alerj mostra que águas já chegam ao Rio contaminadas com metais pesados

O Rio tem uma lista interminável de danos ambientais ao Rio Paraíba do Sul. Como se não bastassem as toneladas esgoto in natura das cidades da bacia e de resíduos industriais despejados pelos fluminenses, as águas que abastecem 70% do estado descem de São Paulo contaminadas por metais pesados. Estudo realizado no Reservatório do Funil por técnicos da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa (Alerj), presidida pelo deputado Carlos Minc (PT), identificou metais pesados como mercúrio, chumbo, cromo e zinco acima dos limites internacionais de referência nos sedimentos e em alguns peixes das espécies traíra e tucunaré.
Nos sedimentos do reservatório, onde a água do trecho paulista do rio é armazenada para descer pela Usina do Funil, de Furnas, rumo ao leito fluminense, as amostras identificaram mercúrio em até duas vezes o limite permitido pela Canadian Environmental Quality Guidelines - no Brasil, não há legislação específica sobre o assunto. Chumbo, cromo e zinco apresentaram amostras pouco acima dos limites, mas, na camada mais fina, de sedimentos mais recentes, os valores encontrados são até dez vezes maiores.
- Isso significa que a contaminação é recente. Estamos importando a poluição de São Paulo. Agora, com essa pesquisa, além da proliferação de algas tóxicas, temos comprovado o problema grave com metais pesados - diz Minc.
Minc pedirá providênciasa companhia paulista
O engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo, técnico da comissão e responsável pelo estudo, alerta para a quantidade de mercúrio encontrado nos sedimentos e para a contaminação de alguns peixes do reservatório:
- Os valores encontrados para mercúrio devem ser considerados como indicadores de uma situação de risco. Foram constatadas, também, concentrações significativas de zinco e cobre em amostras de fígado de traíra e tucunaré (peixes carnívoros), o que indica um processo de bioacumulação (contaminação por ingestão de peixes contaminados) de metais. O consumo dessas espécies ainda não está comprometido, mas a população de peixes pode estar ameaçada.
Minc vai pedir providências à Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), órgão do governo de São Paulo. Vander Eustáquio Salomão, gerente da Cetesb, diz que todas a cerca de 20 indústrias químicas do Paraíba no trecho paulista têm estação de tratamento e avisa que a companhia monitora a água bimestralmente, mas reconhece problemas ainda existentes.
- O trabalho está sendo feito, mas ainda há um remanescente que acaba sendo conduzido para o Rio. Não apenas o resíduo industrial como também o esgoto doméstico, que em algumas cidades ainda é despejado sem nenhum tratamento - diz Salomão.
Segundo o Comitê para a Integração da Bacia do Paraíba do Sul (Ceivap), logo abaixo do reservatório poucos municípios usam no tratamento da água captada o polímero, substância que retira a toxicidade dos metais pesados. O prefeito de Resende e presidente do Ceivap, Eduardo Meohas, diz que os sedimentos contaminados podem chegar ao Vale do Paraíba:
- Os sedimentos são carreados pela chuva e descem com mais facilidade quando Furnas limpa o fundo do reservatório. Isso já foi feito uma vez - diz Meohas, explicando que Resende dobra o seu custo com tratamento de água ao adicionar polímero para eliminar metais.
Biólogo diz que problema piora na estação chuvosa
Testes da prefeitura de Resende garantem que a água coletada está dentro dos padrões para metais pesados. O biólogo Rodrigo De Filippo, do Departamento de Engenharia Ambiental de Furnas, explica que a usina não limpa o fundo do reservatório sistematicamente.
- O problema maior é na estação chuvosa, quando os sedimentos são carreados rio abaixo para os municípios abaixo da usina.
Minc vai propor um termo de ajustamento de conduta (TAC) com Furnas para controlar as ações da companhia no reservatório. O deputado quer também que a Feema volte a monitorar sistematicamente a qualidade da água no local. A presidente da Feema, Elizabeth Lima, diz que o órgão faz monitoramento anual no reservatório e que pode até montar um fórum de discussão com a Cetesb, mas antes quer analisar o estudo.

A série sobre o Paraiba
A degradação do Paraíba do Sul virou tema de uma série de oito matérias publicadas pelo Globo entre 11 e 18 de Abril deste ano. O Laboratório de Hidrologia da COPPE/UFRJ mostrou o risco de colapso do Paraíba do Sul. O Museu Nacional da UFRJ apresentou um estudo sobre a deformação de peixes contaminados.
Foi denunciado o despejo de esgoto sem tratamento das sedes da prefeitura dos três principais municípios do Médio Paraíba. Um estudo da Feema mostrou que as águas do Funil estão contaminadas com algas que matam cobaias.
Uma reportagem alertou para a extinção do camarão de água doce de São Fidélis e outra, para o avanço do mar na foz, em Atafona. Discutiu-se a cobrança pelo uso da água e foram apresentados os obstáculos vencidos pela água do Paraíba à torneira dos cariocas.

O Globo, 11/07/2004, Rio, p. 22

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