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Poluição de Manaus pode alterar chuvas na floresta amazônica

OESP, Metrópole, p. A27
02 de Ago de 2015

Poluição de Manaus pode alterar chuvas na floresta amazônica
Pesquisadores brasileiros e americanos usaram jato para estudar as nuvens e mapear impactos das emissões urbanas na Amazônia

Fábio de Castro - O Estado de S. Paulo

A poluição de Manaus pode causar mudanças no ciclo de chuvas da Amazônia, além de afetar a capacidade da floresta para absorver CO2 da atmosfera - um importante serviço ambiental fornecido pelo bioma. Essas são as principais conclusões de um amplo projeto internacional de pesquisa que mapeia os impactos das emissões urbanas na química da atmosfera da floresta amazônica.
Lançado no início de 2014, o projeto Green Ocean Amazon (GOAmazon) acaba de ter seus primeiros resultados divulgados. A análise dos dados obtidos foi feita em um workshop realizado recentemente na Universidade Harvard, envolvendo 50 cientistas brasileiros e 50 americanos.
De acordo com um dos gestores do GOAmazon, o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, o objetivo principal do esforço internacional de pesquisa é investigar os mecanismos físicos de formação de nuvens de chuva, que ainda não são totalmente compreendidos pela ciência. As nuvens da Amazônia, por suas características especiais, influenciam todo o clima do continente.
Jato. Utilizando pela primeira vez em florestas tropicais um avião a jato de pesquisa da Alemanha, com sensores de alta tecnologia, os cientistas puderam coletar dados a 18 quilômetros de altitude - nos limites da estratosfera - e, com isso, examinar a estrutura molecular das gotas de chuva dentro de nuvens que nunca haviam sido estudadas.
Segundo Artaxo, os resultados indicam que a poluição de Manaus levou a concentração de ozônio sobre a floresta a crescer em até 10 vezes - o que poderá reduzir a capacidade das plantas em absorver CO2.
As consequências disso podem ser desastrosas no futuro, caso as emissões urbanas aumentem. Segundo Artaxo, o ozônio dificulta a abertura dos estômatos das folhas das plantas, reduzindo sua capacidade de sequestrar o dióxido de carbono da atmosfera.
Interação química. A alta produção de ozônio, de acordo com Artaxo, é resultado da interação química entre dois tipos de gases: o óxido de nitrogênio emitido pelos carros e pelas diversas usinas termoelétricas instaladas na área urbana de Manaus e os gases orgânicos que são naturalmente lançados à atmosfera pela floresta.
"Em áreas remotas da Amazônia, a presença de óxidos de nitrogênio é muito pequena e, por isso, a concentração de ozônio também é baixa - da ordem de 8 a 10 partes por bilhão. Mas, com sua frota de 800 mil carros, Manaus emite grandes quantidades desses óxidos, que interagem com os compostos orgânicos voláteis da floresta, produzindo muito ozônio. Nas proximidades da cidade, as concentrações de ozônio observadas foram de 80 a 100 partes por bilhão", disse Artaxo ao Estado.
Além de resultar no aumento dos níveis de ozônio, a poluição de Manaus também faz crescer a emissão de partículas de aerossóis - micropartículas que permitem a condensação das gotas no interior das nuvens. Sem a presença de aerossóis, não há precipitação. Mas o excesso dessas partículas também altera as propriedades das nuvens, afetando o delicado equilíbrio em seu interior, que permite a produção efetiva de chuvas.
"A atmosfera da Amazônia tem concentração de 300 partículas por centímetro cúbico. Nas regiões afetadas pelas emissões de Manaus, observamos concentrações de 20 mil a 30 mil partículas por centímetro cúbico. Em estudos anteriores, verificamos que o aumento de partículas leva à formação de gotas de chuva menores e com menor eficiência de precipitação. Isso pode gerar nuvens que se formam, mas não produzem chuva."

Projeto analisa nuvens perto da estratosfera
Aeronave científica observou pela primeira vez composição de microscópicas gotas de chuva nos limites da camada de gás

Um fenômeno até agora desconhecido pela ciência foi observado nas nuvens amazônicas pelo avião da Agência Aeroespacial Alemã. Voando a 18 quilômetros de altura e a 600 km/h, a aeronave científica observou pela primeira vez a composição das microscópicas gotas de chuva no alto das imensas nuvens de chuva que vão até os limites da estratosfera.
Segundo Paulo Artaxo, os dados indicam uma grande produção de partículas jorrando pelo alto dessas nuvens. "Acreditamos que essas partículas são provenientes de gases orgânicos que a própria floresta emite. Esses gases são sugados pelas nuvens, sobem verticalmente e vão esfriando, até que se condensam, formando as partículas que são ejetadas quase na estratosfera", afirmou Artaxo.
Esse mecanismo, segundo ele, poderá ser fundamental para explicar as características especiais das chuvas na Amazônia. "Provavelmente, esse novo mecanismo é o que permite a formação de partículas em áreas tropicais. Essas partículas, provenientes de gases da floresta, podem influenciar a condensação no interior das nuvens da região, além de alterar o balanço de radiação solar. Essa é mais uma interação entre a floresta e o clima da região amazônica, que até agora era totalmente desconhecida", disse.
Os pesquisadores do GOAmazon estão agora analisando as novas partículas, para desvendar sua composição química, suas propriedades ópticas e sua capacidade de servir como base para a condensação de gotas de chuva nas nuvens.

OESP, 02/08/2015, Metrópole, p. A27

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