VOLTAR

Políticas ambientais do governo Bolsonaro minam imagem do País

O Globo, Sociedade, p. 29
14 de ago de 2019

Políticas ambientais do governo Bolsonaro minam imagem do País
Políticas ambientais do governo Bolsonaro minam imagem do Brasil, dizem especialistas
Negação do desmatamento, disputa com patrocinadores do Fundo Amazônia e ataques a cientistas podem ter efeitos econômicos e diplomáticos para o país

Renato Grandelle e Rafaela D'Elia*

RIO - As medidas do governo Bolsonaro em relação ao meio ambiente - como a negação dos dados oficiais de desmatamento e as críticas ao Fundo Amazônia, que é bancado pela Noruega e pela Alemanha e financia ações de preservação - vêm repercutindo negativamente tanto na mídia quanto em governos estrangeiros.

Na terça-feira (13), poucos dias depois de o governo da Alemanha suspender R$ 155 milhões que seriam destinados a projetos de preservação da Amazônia, a política ambiental do Brasil foi alvo de mais um protesto internacional.

Manifestantes do grupo Extinction Rebellion jogaram tinta vermelha na embaixada brasileira em Londres em ato contra os danos à floresta amazônica e o que descreveram como violência contra os povos indígenas da região.

Especialistas em relações internacionais alertam para possíveis danos que a postura do governo brasileiro pode causar à economia e à diplomacia do país.

- Outros governos do país tiveram problemas com a devastação da floresta, mas sempre buscaram mostrar que existe uma preocupação para preservá-la e, por isso, estariam abertos à cooperação internacional. Agora não se percebe mais isso - explica Stuenkel, que é professor adjunto de Relações Internacionais da FGV-SP. - A credibilidade brasileira caiu bastante na área climática.

Stuenkel destaca que os partidos verdes foram os que mais cresceram no Parlamento Europeu, e este grupo é fortemente resistente a um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em retaliação à política ambiental brasileira, que seria conivente ao desmatamento.

- Há duas possibilidades: o bloco europeu pode suspender temporariamente a ratificação do acordo, até que o Brasil se ajuste aos padrões desejados. A segunda hipótese é ratificar o acordo, mas usar as regras previstas no documento para bloquear os produtos plantados em regiões do país consideradas problemáticas.

O professor admite a possibilidade de um boicote a produtos agrícolas brasileiros e estranha a suposta falta de reação do país para evitar os danos à sua economia.

- O país deveria enviar alguém para percorrer o mundo e assegurar a seus parceiros comerciais para que não se preocupem com questões comerciais. Mas isso não é feito.

David Kaimowitz, doutor em Economia Agrícola pela Universidade de Wisconsin (EUA), concorda que o discurso do governo federal na área ambiental pode impedir o acordo entre o bloco europeu e o Mercosul.

- O acordo foi assinado, mas não ratificado -, pondera. - O Brasil tem o direito de administrar suas florestas como quiser, mas o resto do mundo pode não querer comprar seus produtos, se estiverem associados à destruição ambiental e ao desrespeito aos direitos humanos. É um efeito muito ruim à economia nacional.

Kaimowitz, que também dirigiu o setor de Recursos Naturais e Mudanças Climáticas da Fundação Ford, ressalta que o futuro do Fundo Amazônia pode ser determinante na relação entre o governo brasileiro e a comunidade internacional.

- A Noruega e a Alemanha estão mostrando sinceramente como querem ajudar a Amazônia. Se o Brasil quebrar este acordo, enviará uma mensagem de que não é tem governo confiável.

Autor do artigo "Who will save the Amazon (and how?)" - "Quem salvará a Amazônia (e como?)" -, que causou polêmica com o governo brasileiro (gerando uma resposta da Embaixada em Washington) após ser publicado na revista "Foreign Policy", na semana passada, o professor de Relações Internacionais Stephen Walt, da Universidade de Harvard, afirma que "ninguém questiona a soberania brasileira" sobre a Amazônia, mas diz que o país pode sofrer represálias diante do avanço do desmatamento.

- O Brasil está sujeito a pressões diplomáticas e a ameaças de sanções econômicas - explica Walt, que, em seu artigo, simula um futuro onde o governo americano ameaça promover uma intervenção militar no Brasil, para conter o desmate. - Se as mudanças climáticas continuarem cada vez mais nítidas e um país estiver agindo de forma irresponsável, pode virar alvo de boicotes.

Impressões de mãos em tinta vermelha foram feitas em toda a fachada, e frases como "No more indigenous blood" ("chega de sangue indígena", em tradução livre) foram escritas no prédio. Alguns manifestantes chegaram a bloquear a entrada do local, e quatro deles foram detidos pela Polícia Metropolitana de Londres.

- A imagem do Brasil está muito prejudicada aqui fora, mas não é muito diferente de como as pessoas veem o próprio Reino Unido e as políticas de (Donald) Trump (nos EUA) - disse Claire Norman, 30 anos, uma das ativistas do grupo. - Estes líderes deveriam abraçar os valores de seus países.

Em nota, a embaixada afirmou que o "direito de protestar é assegurado em democracias como o Brasil e o Reino Unido", mas que o "direito de vandalizar, esse não existe em país algum".

O Globo, 14/08/2019, Sociedade, p. 29

https://oglobo.globo.com/sociedade/politicas-ambientais-do-governo-bols…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.