O Globo, O País, p. 4
Autor: GOMES, Mércio Pereira
27 de Abr de 2008
Política está sendo conduzida de maneira caótica
Corpo a Corpo
Mércio Pereira Gomes
Civil que mais durou na presidência da Funai - foram três anos e sete meses no governo Lula - o antropólogo Mércio Pereira Gomes concorda com a crítica do general Augusto Heleno de que a política indigenista é caótica. Disse que tentou tirar as ONGs do atendimento a índios, mas não conseguiu. Hoje, tem um blog - o "Blog do Mércio" - no qual faz duras críticas à atual gestão.
O Globo: Como o senhor avalia a atuação das ONGs na Funai?
Mércio Pereira Gomes: As ONGs indigenistas fazem um péssimo papel. Estão fazendo a Funai perder espaço e força, além de perder orçamento e capacidade de diálogo com os índios.
As ONGs, desde o governo Collor, tomaram conta do Estado. E não têm qualquer compromisso com a causa. Deveriam sair fora.
Na gestão do senhor não havia ONGs dentro da Funai?
Mércio: Não havia pessoas de ONG ocupando cargos importantes, como tem hoje.
Privilegiei quadros tradicionais da Funai, só indigenistas de fato.
O que o senhor achou das críticas do general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, que chamou de caótica a política indigenista. Concorda?
Mércio: Concordo. Acho a política indigenista brasileira uma das melhores do mundo, mas está sendo conduzida de maneira caótica. O general prestou um grande serviço à nação ao alertar para o perigo da ameaça à soberania, mas apontou o rifle para o lado errado. A culpa não é dos índios, mas do Estado, que não fortalece o lbama, a Funai e o próprio Exército, órgãos que devem proteger a Amazônia.
Por que a política indigenista é caótica?
Mércio: Porque R$ 700 milhões para a política indigenista estão nas mãos de outras áreas, como os ministérios da Saúde, da Educação e do Meio Ambiente. Só R$ 140 milhões vão para a própria Funai.
O senhor é contra outros setores do governo cuidarem de índio?
Mércio: Completamente contra. Tentei mudar isso no governo, mas não consegui. São pessoas sem espírito indigenista, sem amor à causa. Essa Funasa é a desgraça nacional. Cuida muito mal da saúde dos índios. Essa divisão no governo e a presença das ONGs diminuíram o tamanho da Funai. Em 86, eram cinco mil servidores para cuidar de 200 mil índios. Hoje, são dois mil funcionários para meio milhão de indígenas. Não pode dar certo mesmo.
O Globo, 27/04/2008, O País, p. 4
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