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A POLÍTICA ANTI-INDÍGENA NO BRASIL

NOTA DA CUNPIR Á IMPRENSA
Autor: Antenor de Assis Karitiana
14 de mar de 2001

Nós membros da coordenação executiva da CUNPIR – Coordenação da União das Nações e Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas, entidade indígena que congrega cerca de 50 povos desta vasta região, vimos a público externar nossa indignação com relação a demissão do senhor Altair José Algayer (em dezembro último), conhecido por Alemão, funcionário da FUNAI e ex-coordenador da Frente Etno-Ambiental do Guaporé, responsável pelo processo de contato com povo Akunsú e Kanoé, da terra indígena interditada na região de Corumbiara, denominada de Terra Indígena Omerê, bem como, do contato com o índio do buraco na mesma região.
Somos sabedores que estas terras são de povos indígenas a dezenas de anos, mesmo antes do processo de colonização. Somos sabedores também que, estas terras são disputadas por grandes latifundiários os quais não medem esforços em defender seus interesses e exterminar o direito dos outros.
Os Povos Indígenas Akunsú e Kanoé já foram vítimas de diversas tentativas de dizimação. Quando do contato desses dois grupos em 1995, dias depois do nefasto massacre dos Sem-Terras na mesma região (fazenda Santa Elina), ficamos sabendo através de tradutores do povo Kanoé, que esses indígenas recém-contactados eram remanescentes de grupos outrora dizimados e que viviam fugindo constantemente, inclusive da frente de contato da Funai, com medo, devido os ataques sofridos por pistoleiros.
Contudo o Altair, um indigenista corajoso e comprometido com a defesa da vida dos povos indígenas de Rondônia, em especial os recém-contactados, cumprindo seu papel, denunciou as diversas formas de manobras políticas e de dizimação executadas naquela região para limpar a área para os grandes fazendeiros, ao longo dos últimos vinte anos. Inclusive, envolvendo políticos de Rondônia com expressão nacional, como o Senador Amir Lando que possui terras em nome de outras pessoas na região.
No mês de novembro, quando das audiências públicas realizadas na Assembléia Legislativa de nosso Estado, promovida pela CPI das Terras Públicas, assim como, nas audiências convocada pelo deputado Daniel Pereira, Altair participou e denunciou o processo de emperramento desencadeado contra os trabalhos da frente de contato, assim, como o desmatamento desordenado dentro da terra indígena interditada, para descaracterizá-la, livrando-as da demarcação definitiva dessa terra indígena.
Como participantes dessas audiências, reafirmamos as denúncias do Sr. Altair e do Sr. Marcelo dos Santos e exigimos do Ministério Público Federal e Ibama que fossem tomadas as medidas urgentes necessárias para coibir tal desmatamento, atentado direto à vida dos povos indígenas da região, lamentavelmente até o momento nada foi feito.
As denúncias do Sr. Altair e de nossas lideranças fizeram efeitos contrários. Ao invés de abrir margens para um processo de investigação contra os possíveis responsáveis por tais atos, vemos acontecer ao contrário. As pressões políticas dos envolvidos derrubaram o Sr. Altair, o qual tem defendido junto conosco os direitos e interesses dos povos indígenas. Que política indígena é essa que FHC e seus aliados praticam !?
Fica-nos uma interrogação... não temos o direito de ver nossos direitos respeitados, nossos filhos e netos vivendo livres e felizes sem serem mortos pelos gananciosos que querem destruir a nossa Mãe Terra? Porque o Sr. Glênio Peres, presidente da Funai não nos consultou, pois somos a razão de ser da instituição que ele preside e não bonecos de panos. Temos o direito de dizer quem queremos que trabalhe com nossos povos ou não! O Sr. Glênio conhece o trabalho do Sr. Altair? Ao que parece não, pois se conhecesse não o demitiria, a não ser que seus interesses sejam outros e não o dos povos indígenas, ou até mesmo os do Senador Amir Lando, proprietário da fazenda Convento de 4.000 hectares, sendo que 800 hectares coincide com a Terra Indígena Omerê interditada. O presidente da Funai não respeitou nosso direito ao demitir um amigo nosso de verdade, por isso não é digno de ser presidente da Funai...
Até quando teremos que morrer lutando para assegurar um pouco de nossa cultura? Até quando os homens do poder: deputados e senadores, se utilizarão dos cargos públicos em benefício próprio e continuarão rasgando a Constituição Federal que eles mesmos aprovaram? Chega de hipocrisia, cumpram a Lei de vocês e deixem-nos viver em harmonia com nossos parentes, protegidos pelo espírito de nossos ancestrais...

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