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Polícia vai pedir quebra de sigilo de suspeitos de matar espanhol

O Globo, Rio, p. 12
20 de Ago de 2013

Polícia vai pedir quebra de sigilo de suspeitos de matar espanhol
Disque-Denúncia oferece R$ 5 mil por pistas que levem aos assassinos

DICLER DE MELLO E SOUZA
granderio@oglobo.com.br
EMANUEL ALENCAR
emanuel.alencar@oglobo.com.br

A Polícia Civil informou nesta segunda-feira que pode ter pistas dos assassinos do ambientalista espanhol Gonzalo Alonso Hernández, de 49 anos, morto há 15 dias no distrito de Lídice, em Rio Claro, no Médio Paraíba. O delegado titular da 168ª DP (Rio Claro), Marco Antônio Alves, disse que vai solicitar à Justiça a quebra do sigilo de dados de possíveis suspeitos de envolvimento na morte de Gonzalo.
O delegado afirmou estar cada vez mais convencido de que o crime foi motivado pelos confrontos que Gonzalo teve com caçadores, palmiteiros e todos aqueles que agiam de forma ilícita, degradando o meio ambiente em Rio Claro. Alves acrescentou que ainda não recebeu qualquer comunicado oficial de que a Polícia Federal participará também das investigações, em conjunto com a Polícia Civil.
Ele disse ainda que aguarda os resultados dos exames de necropsia feitos no Instituto Médico Legal de Angra dos Reis e no Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).
Ato reúne 50 ambientalistas
Nesta segunda à tarde, o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, anunciou que o Disque-Denúncia vai dar recompensa de R$ 5 mil a quem oferecer pistas concretas que levem ao(s) autor(es) do crime. Cartazes serão colocados em Rio Claro. Minc voltou a afirmar que haverá ações de combate aos crimes ambientais na região:
- O sítio onde vivia o ambientalista será o quartel-general para ações de repressão aos crimes ambientais.
Em ato de repúdio ao crime, que reuniu cerca de 50 pessoas em frente à Secretaria de Segurança Pública, na Central do Brasil, a viúva de Gonzalo, Maria de Lourdes Pena Campos, disse que a luta dele deve continuar.
- Espero, sinceramente, que a polícia conclua as investigações o quanto antes. Estamos esperando. Temos que continuar cobrando para evitar que a morte de Gonzalo caia no esquecimento. Sua história não pode parar. Vou fazer o que for possível para que o seu sonho, de ver uma natureza protegida, seja realizado - discursou, bastante emocionada.
Com um grande cartaz onde se lia "Somos todos Gonzalo", a manifestação foi organizada nas redes sociais e reuniu, principalmente, funcionários da ONG Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA), na qual o espanhol trabalhava como voluntário. O secretário executivo do ITPA, Maurício Ruiz, entregou um abaixo-assinado pedindo um rápido esclarecimento do crime ao gabinete do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
- Não vamos parar enquanto os assassinos não estiverem atrás das grades.
Irmão de Gonzalo, Santiago Alonso Hernández, de 47 anos, disse que o assassinato chocou parentes e amigos:
- Na Espanha é absolutamente impensável alguém possa matar por questão ambiental. Meu irmão sempre defendeu o meio ambiente. Estamos estarrecidos.
Coordenadora do programa Produtores de Água e Floresta, do qual o biólogo participava, a engenheira florestal Mariana Vilar anunciou, com lágrimas nos olhos, que vai deixar o projeto nos próximos dias:
- Estou com medo e não vou continuar. Mas conto com nossos colaboradores, que darão prosseguimento ao trabalho. Podem ter certeza que ajudarei a dar continuidade à luta de Gonzalo.

Uma paixão fervorosa pela natureza do Rio
Espanhol Gonzalo Alonso Hernández não admitia desmatamentos e enfrentava caçadores nos arredores de sua chácara

Emanuel Alencar

RIO - "Se eu puder aliviar o sofrimento de uma vida, ou diminuir a dor, ou ajudar um frágil rouxinol a voltar novamente para o seu ninho, não terei vivido em vão". Publicados no mural do Facebook que homenageia Gonzalo Alonso Hernández, o texto, atribuído à poeta americana Emily Dickinson, traduz a personalidade do espanhol, encontrado morto no último dia 6, em Rio Claro, no Médio Paraíba.
Nascido há 49 anos em Santander, o mais velho de cinco irmãos, Gonzalo assumiu cedo seu lado ambientalista. Vivendo no litoral, foi atraído pelo mar e se especializou em biologia marinha. Mais tarde, mudou de área e fez pós-graduação na área de telecomunicações. Não tardou a assumir altos postos na empresa Telefónica. Foi transferido para o Brasil em 1997, com o desafio de expandir a operadora de celular Vivo.
Gonzalo, no entanto, decidiu que não poderia ficar de terno e gravata pelo resto da vida. Deixou a sala com ar-condicionado e, em 2003, apaixonou-se duplamente. Por Maria de Lourdes Pena Campos, nascida em Cambuci, no Noroeste Fluminense. E por um pedacinho de terra a nove quilômetros do centro de Lídice, distrito de Rio Claro.
Gonzalo e Lourdes se conheceram numa concessionária em Botafogo, quando ela lhe vendeu um jipe. Ela resistiu um pouco, mas acabou aceitando o convite para jantar. Um ano depois, os dois decidiram levar o flerte a sério. Gonzalo comprou a chácara em Lídice e ergueu o chalé que sempre sonhou, no sopé de uma cadeia de belas montanhas. Lourdes era a companhia de todos os fins de semana. O espanhol abandonou o luxo da Barra da Tijuca para viver uma vida simples, acompanhado de três cães.
Máquina fotográfica nas mãos, passou a constranger caçadores de passarinhos, desmatadores e uma turma que extraía areia ilegalmente do Rio das Pedras, ao lado. Intransigente com agressões à fauna e à flora, chegava a andar com um rifle para amedrontar os criminosos. Compartilhava as denúncias no conselho de meio ambiente de Rio Claro.
A história de Gonzalo terminou no dia 4, um domingo, por volta das 21h. Ao chegar à porteira de seu sítio, sozinho, recebeu um tiro na cabeça. Estava escuro. Os assassinos haviam cortado os fios de um sensor que indica a presença humana. Abatido, foi arrastado para o Rio das Pedras. Seu laptop, que armazenava fotos de crimes ambientais, foi roubado. O corpo só foi encontrado dois dias depois.

O Globo, 20/08/2013, Rio, p. 12

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