VOLTAR

Polícia Federal prende 33 acusados de fraudar compra de terras

OESP, Nacional, p. A22
21 de Abr de 2007

Polícia Federal prende 33 acusados de fraudar compra de terras
Grupo, sediado em Mato Grosso, agia em três Estados e é suspeito de usar golpe para obter empréstimos

Nelson Francisco

A Polícia Federal desarticulou ontem o que considera ser uma quadrilha com atuação concentrada em três Estados e núcleo central sediado em Barra do Garças, em Mato Grosso. O grupo é acusado de fraudar a compra e venda de terras, em operações ilegais por todo o País nos últimos dez anos. O senador Jaime Campos (DEM-MT) foi citado em telefonemas de acusados de participação no esquema, mas negou envolvimento.

Segundo as investigações, a quadrilha era chefiado pela dona do Cartório do 1o Ofício de Registro de Imóveis, Notas e Protestos da cidade, Helena da Costa Jaracandá, e pela servidora do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) Ailda de Deus Silva. Elas e outras 31 pessoas foram presas durante a Operação Lacraia, da Polícia Federal, que também cumpriu 38 mandados de busca e apreensão nos Estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

Todos os presos estão com os bens indisponíveis e foram levados para a cadeia pública de Barra do Garças, a 500 quilômetros de Cuiabá. Nas fraudes praticadas pelo grupo, centenas de pessoas estariam envolvidas, com participações em grilagem de terras, crimes contra o sistema financeiro e corrupção, informou o delegado que chefiou a operação, Eder Magalhães.

O grupo é acusado por Magalhães de falsificar e forjar registros e títulos de propriedades rurais, que posteriormente eram usados na obtenção de empréstimos e financiamentos bancários. "Eles criavam documentos de terras inexistentes", acusou o delegado. As investigações sobre o caso começaram há nove meses. "Só prendemos o núcleo da quadrilha."

Os indícios levantados pelos policiais indicam que Ailda de Deus era procurada para expedir o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR). Trata-se de documento fornecido gratuitamente pelo Incra aos proprietários de imóveis cadastrados no Sistema Nacional de Cadastro Rural. Sem o certificado, os proprietários ficam impedidos de desmembrar, arrendar, hipotecar, vender ou prometer em venda os imóveis rurais.

"Ela falsificava esse documento convertendo área improdutiva em produtiva para obter financiamentos", explicou o delegado Magalhães, ao se referir a uma das modalidades de fraude praticadas pela quadrilha.

Com a alegada participação da dona do cartório de Barra do Garças, a quadrilha alterava documentos originais, montava registros falsos e duplicava lavraturas. Os fraudadores também utilizavam scanners para copiar assinaturas de terceiros nos documentos manipulados. Depois de prontos, os papéis eram envelhecidos em fornos microondas - que acabaram substituindo a velha técnica que utilizava caixas com grilos, que deu origem ao termo grilagem de terras. "Esse cartório de Barra do Garças era conhecido e procurado por gente de todo o País interessado nesse tipo de fraude", disse o delegado.

Uma escritura falsa - na maioria dos casos, relativa a propriedade da União ou área que não existia fisicamente - era negociada por R$ 5.000, podendo em alguns casos valer R$ 40 mil. Os pagamentos eram feitos através de depósitos em contas de laranjas, com a finalidade de dificultar o rastreamento.

Telefonemas

Conversas telefônicas gravadas com autorização da Justiça são apontadas pela polícia como indício de envolvimento do senador Jaime Campos. Duas das envolvidas presas, Lucélia Barros Parreira e Maria de Lourdes Dias Guimarães, citaram o senador em diálogos interceptados pela PF.

As gravações sugerem, segundo a polícia, que Campos faria tráfico de influência para atender a interesses da quadrilha. Ele é citado como "o político forte que teria conseguido 'restabelecer'" Helena Jacarandá à frente do cartório. O juiz Julier Sebastião da Silva, da 1ª Vara Federal, que decretou 33 prisões, encaminhou transcrição das ligações ao Supremo Tribunal Federal, pois Campos tem foro privilegiado.

O senador negou envolvimento ontem. "Desconheço essas pessoas. Isso é um absurdo, querem jogar meu nome na lama", afirmou. Segundo Campos, sua família não tem negócios na região e desconhece a dona do cartório presa, Helena Jacarandá. "Não fui informado oficialmente pela Justiça. Só na segunda-feira vou me defender dessas acusações", disse ele.

Procuradas pelo Estado, a família proprietária do cartório em Barra do Garças não quis se manifestar sobre o caso.

OESP, 21/04/2007, Nacional, p. A22

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.