O Globo, Economia, p. 19
17 de Jun de 2009
Polícia Federal investiga frigoríficos e prende 22 pessoas em Rondônia
ONG quer BNDES como réu no caso da carne oriunda de área desmatada
Liana Melo
Fechou-se ainda mais o cerco em torno dos frigoríficos no país, sobretudo na Região Norte. Ontem, numa ação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) de Rondônia, 22 pessoas foram presas por crimes formação de quadrilha, corrupção passiva e ativa, concussão (quando o servidor exige propina), prevaricação e falsidade ideológica. Na operação, batizada de Abate, foram cumpridos ainda 43 mandados de busca e apreensão.
Considerados grandes processadores de carne bovina do mundo, os frigoríficos JBS Friboi e o Margen (que chegou a entrar com pedido de recuperação judicial em meio à crise financeira) estão entre as empresas denunciadas. Segundo o MPF, os frigoríficos estariam envolvidos num "esquema de corrupção", com a atuação de servidores públicos da Superintendência Federal de Agricultura.
Frigorífico é suspeito de adicionar água na carne
A investigação em Rondônia foi deflagrada a partir de denúncia contra o JBS Friboi, acusado de adicionar água na carne para aumentar artificialmente seu peso. As investigações acabaram chegando aos servidores públicos, que, segundo o procurador Reginaldo Trindade, estavam envolvidos no "esquema de corrupção e formação de quadrilha".
Em nota, o Friboi informou "não ter qualquer tipo de envolvimento em crimes associados a este inquérito". Procurado, o frigorífico Margen não comentou o assunto. A Operação Abate também atingiu laticínios e curtumes.
Os dois grupos entram na mira da Justiça uma semana depois de outro grande frigorífico, o Bertin, ser notificado pelo MPF do Pará por envolvimento com produção de carne oriunda de área ilegalmente desmatada na Amazônia. Esta notificação do MPF incluiu também grades redes supermercadistas do país, que suspenderam a compra de carne dos frigoríficos do Pará.
Se depender da organização não-governamental (ONG) Amigos da Terra, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá virar réu na ação civil que o MPF do Pará deflagrou contra frigoríficos e redes de varejo envolvidos na venda de carne oriunda de área desmatada. Hoje, a ONG encaminha ofício ao MPF solicitando atuação em conjunto com o órgão na denúncia contra o setor e o BNDES. Será, portanto, uma atuação em litisconsorte.
- O BNDES deverá responder solidariamente com os frigoríficos pelos danos apontados em diversas ações do MPF - diz o presidente da ONG, Roberto Smeraldi, ressaltando que o objetivo é incluir o BNDES no banco dos réus.
BNDES tem 27,5% do capital do frigorífico Bertin
Em nota, o banco informou estar "em tratativas com o setor de frigoríficos para, entre outras medidas, exigir providências no sentido de aumentar o controle da cadeia de fornecedores".
Como o BNDES detém 27,5% do capital do frigorífico Bertin, o banco, segundo Smeraldi, deve aparecer no "pólo passivo das ações que tramitam na Justiça Federal". Com base nos dados do próprio banco, a ONG concluiu que, em 2008, a instituição liberou, através de operações diretas (na forma de participação de capital) R$ 5,8 bilhões em 2008 a frigoríficos, dos quais R$ 4,7 bilhões injetados nos principais grupos do setor: Bertin, JBS, Marfrig e Independência.
- A saída para o BNDES é a de buscar negociar Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) para superar os passivos e, ao mesmo tempo, alterar radicalmente o padrão de financiamento, que precisa ser reorientado para uma revolução de produtividade - analisa Smeraldi, explicando que uma alternativa para a pecuária na Amazônia seria se concentrar em um terço da área hoje ocupada.
O Globo, 17/06/2009, Economia, p. 19
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