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Pobres, mas custam milhoes: Assentamento-modelo do PT e caro e ameaca areas de preservacao

Veja, p.78
17 de Dez de 2003

Pobres, mas custam milhões
Assentamento-modelo do PT é caro e ameaça áreas de preservação Guilherme Voitch
É no extremo oeste do Paraná, na área rural da pequena cidade de Quedas do Iguaçu, que o Movimento dos Sem-Terra e o governo do PT preparam o assentamento que desejam transformar em vitrine da reforma agrária. Pelo preço – 80.000 reais por família assentada, só para pagar o terreno –, daria para montar uma vitrine digna de shopping center, mas nem as experiências anteriores nem a análise de quem entende do assunto indicam que haja alguma chance de o projeto dar certo. "Trata-se de uma insanidade", diz o agrônomo Xico Graziano, ex-presidente do Incra. "Seria muito mais adequado separar entre os acampados quem realmente quer trabalho e ocupar essa gente em frentes articuladas com empresas locais do que gastar um dinheirão para construir mais um fracasso." Graziano é autor de oito livros que tratam de problemas no campo. O mais recente será lançado em fevereiro do ano que vem e reporta diversas experiências malsucedidas na reforma agrária, entre elas a de Quedas do Iguaçu.

Essa área começou a ser invadida em 1999 e a determinação para sua aquisição foi anunciada há um mês pelo ministro Miguel Rosseto, da Reforma Agrária. O lote que está sendo comprado, de 25 000 hectares, contém 5 000 hectares reflorestados e uma área de preservação ambiental equivalente a 35% do total – espaços que entram no pagamento de 132 milhões de reais a ser feito à empresa de madeira, celulose e papel Araupel, mas não deveriam ser aproveitados pelos futuros ocupantes. Ou seja, cada uma das 1 580 famílias vai receber perto de 9 hectares, mas a área total negociada permitiria dar o dobro de terra a cada uma ou instalar duas vezes mais famílias, se não incluísse a mata. Em dois assentamentos vizinhos, anteriores e fracassados, árvores foram derrubadas logo no primeiro atraso na liberação dos recursos de assistência técnica às famílias contempladas.

"Não cabe ao MST saber se era área de preservação ou não", diz Izaque Santos, de 31 anos, um dos líderes do acampamento mais recente na Araupel. "Desapropriaram, não deram assistência e depois vieram cobrar porque o pessoal foi para cima da mata." De acordo com o superintendente nacional do Incra, Carlos Guedes, o governo não vai errar de novo na região. "Não vamos centrar tudo na questão agrária", promete. Exemplos? Ele diz que a área de reflorestamento pode ser explorada, sem destruição. Cita ainda turismo na mata, mas não explica onde os turistas ficariam acomodados nem quanto se gastaria com essa parte do projeto. Na outra parte, a de fornecer assessoria técnica, ferramentas, máquinas e sementes para os assentados, Guedes também ainda não consegue estimar os custos. Mas sabe que quer iniciar tudo ainda neste ano e propõe que o governo se comprometa a comprar a produção dos assentados, mesmo que ela venha a custar mais caro do que a de outros possíveis fornecedores.

Veja, 17/12/2003, p. 78

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