VOLTAR

Plantas podem medir a poluicao

OESP, Vida, p.A24
23 de Out de 2004

Plantas podem medir a poluição
Cientistas usam algumas espécies para verificar a quantidade de metais pesados presentes na atmosfera
Evanildo da Silveira
Nem só com estações de monitoramento e equipamentos sofisticados se mede a poluição do ar. Um método mais simples e barato é o uso de plantas, que podem indicar a presença de poluentes na atmosfera, principalmente metais pesados. É o que estão usando pesquisadoras de São Paulo e do Rio Grande do Sul, em projetos distintos de análise da qualidade do ar.
A engenheira química Mitiko Saiki e a química Ana Maria Graciano Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), realizam um trabalho conjunto de análise da poluição do ar por metais pesados. Elas monitoram sete pontos de São Paulo - Ibirapuera, São Miguel Paulista, Santana, Cerqueira César, Pinheiros, Parque D. Pedro e Congonhas - e um em Mauá, um em Santo André e um em São Caetano do Sul, todos juntos às estações de monitoramento da Cetesb.
Embora o projeto seja o mesmo, as duas usam métodos e plantas diferentes. Mitiko faz o que se chama biomonitoramento passivo. Ela utiliza espécies que já vivem no local que se quer medir a poluição, no caso líquens, organismos simbióticos compostos por um fungo e uma ou mais algas. "Eu emprego a espécie Canoparmelia texana", explica. "Ela é tolerante à poluição e, por isso, muito comum nas cidades brasileiras, menos nas litorâneas."
Ana Maria, por sua vez, faz o biomonitoramento ativo. Ela retira plantas de matas e as coloca em locais poluídos. "Eu uso como bioindicador vegetal uma espécie de bromélia, a Tillandsia usneoides, conhecida popularmente como barba-de-bode", diz. "Eu as colho em Mogi das Cruzes e as coloco nos locais que quero monitorar. De dois em dois meses eu as recolho e levo para o laboratório, deixando outras em seu lugar."
No Ipen, as plantas, tanto os líquens como as bromélias, são analisadas pelo mesmo processo, chamado análise por ativação por nêutrons. "As amostras são secas numa estufa a 40 oC e moídas", explica Mitiko. "Depois elas são levadas ao reator nuclear e bombardeadas com nêutrons. Isso torna radiativos os metais da amostra. Medindo as radiações gama que esses metais emitem depois de bombardeados, conseguimos identificá-los e quantificá-los."
Até agora, os resultados mostraram que em algumas regiões, como Ibirapuera, Pinheiros, Cerqueira César e Parque D. Pedro, por exemplo, os metais encontrados são provenientes dos veículos. É o caso do zinco, bário e cobre. Em outras zonas, como as do ABC, São Miguel e Santana, predominam os metais oriundos de processos industriais, como o cobalto.
Agora, a intenção das duas pesquisadoras do Ipen é estender o monitoramento para todas as 23 estações da Cetesb. O fato de elas optarem por estudar os mesmos locais cobertos pela companhia de saneamento do Estado se deve a uma questão de segurança. "Os vândalos roubavam as bromélias", explica Ana Maria. A meta final das duas é fazer um mapa da poluição do ar por metais pesados na região metropolitana.
No caso da engenharia química Maria Teresa Raya Rodrigues, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o objetivo é monitorar a qualidade do ar ao redor da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, e da termelétrica de Candiota, perto da fronteira com o Uruguai, da Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), uma estatal federal.
Assim como suas colegas de São Paulo, Maria Teresa faz os biomonitoramento ativo e passivo. "No primeiro caso, usamos duas gramíneas (a Lollium multiflorum ou azevem e a Clorys goyana, sem nome popular) e uma variedade de feijão (Phaseolus vulgaris)", explica. "No segundo caso, emprego três tipos de arbustos, Senecius brasiliensis (maria-mole), Eupatorium sp. e Elephantopus sp."
A análise no laboratório é diferente, no entanto, dá realizada no Ipen. A de Ana Maria é química e não por bombardeamento de nêutrons. Mas os resultados obtidos também permitem a pesquisadora tirar suas conclusões e recomendar o método. "É mais barato e permite o monitoramento de uma área maior, sem a necessidade de equipamentos caros e sofisticados", diz.

OESP, 23/10/2004, p. A24

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.