Carta Capital, Seu País, p. 28-29
Autor: SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de
20 de Set de 2006
Plantar para quem?
O presidente do BRDE, Carlos Marés, defende políticas regionais e critica o foco da agricultura na exportação
Por Márcia Pinheiro
O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) foi criado em 1961 pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com o objetivo de viabilizar o financiamento de projetos de interesse da região. O BRDE é um repassador de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Noventa por cento de seu funding origina-se de verbas federais.
O atual diretor-presidente do banco, Carlos Frederico Marés de Souza Filho, é um crítico sem meias palavras da política econômica. Diz-se contrário ao foco federal na agroindústria e queixa-se de que o BNDES trata os bancos de desenvolvimento como instituições privadas, sem levar em conta as especificidades da clientela que atende - em sua maioria, pequenos e microempresários.
De janeiro a julho deste ano, sob a coordenação do BRDE, foram contratados financiamentos no valor total de 408 milhões de reais. O setor agropecuário foi destino de 146 milhões; a indústria, de 111 milhões; a infra-estrutura, de 88 milhões; e o segmento de serviços, de 63 milhões. A seguir, os principais trechos da entrevista que Marés concedeu a CartaCapital.
Carta Capital: Qual é a sua avaliação sobre a economia brasileira nos últimos quatro anos? O Brasil poderia ter aproveitado melhor os bons ventos internacionais?
Carlos Marés: A primeira dificuldade do País surgiu exatamente do que se canta como a sua maior benesse: a agroindústria. Diz-se que esse setor foi o que mais contribuiu para a economia, que foi o carro-chefe do crescimento brasileiro. Minha avaliação é exatamente oposta. O Brasil não cresceu tanto porque apostou na agricultura totalmente atrelada à produção de commodities. Se houvesse uma política para a agricultura com foco no mercado interno, teríamos conseguido reduzir mais o preço da cesta básica e remunerar melhor os produtores agrícolas. Isso ajudaria a economia doméstica e a própria indústria.
CC: O senhor refere-se à cadeia do agronegócio ou à agricultura familiar?
CM: A agricultura familiar cresceu muito no governo Lula. Mas cresceu centrada na lógica da agroindústria. Eu me refiro a como as duas formas de produção poderiam operar. Principalmente em regiões onde a agricultura familiar tem muito peso, como no Sul do Brasil, a produção foi incentivada para se juntar à agroindústria. O contrário teria sido melhor.
CC: Mas a visão do governo é outra: graças à agroindústria, o Brasil se fortaleceu. Houve uma importante redução da vulnerabilidade externa.
CM: Exatamente por isso estamos mais vulneráveis. Não crescemos tanto. Quando chega a crise da agricultura, qual é o discurso? Diz-se que aconteceu por três fatores: a longa estiagem do Sul, os problemas fitossanitários do mercado de proteínas (frango e gado) e o dólar. Acontece que o preço da soja em dólar também caiu. A agricultura está em crise porque nós atrelamos o agronegócio à exportação. A política agrícola do Brasil foi uma abertura para a dependência e não para a independência. Nas regiões onde foi promovida uma reforma agrária de qualidade, principalmente no Paraná e no Rio Grande do Sul, temos ainda um setor agrícola que não está em crise. Passa apenas por dificuldades de estiagem. Essa agricultura está produzindo comida. Já a exportação é de polpa de fruta, não de suco, de soja, de produtos in natura. A perspectiva é sempre exportar o mais fácil. O menos trabalhado.
CC: O BRDE consegue atender a todas as demandas por financiamento?
CM: Não existe uma demanda maior reprimida porque as regras são muito rígidas. Hoje, é difícil formular políticas de desenvolvimento regionais integradas, porque o Brasil tem a política federal nas mãos do BNDES. Que detém todas as linhas de financiamento mais baratas (TJLP, de 7,5% ao ano, mais um spread para cobrir os custos de repasse).
CC: Ainda assim são caras.
CM: Ainda assim são caras. Mas, relativamente, são baratas no Brasil. São baratas em relação ao que os bancos cobram pelo capital de giro. Podemos fazer, no entanto, políticas específicas de desenvolvimento com o dinheiro do BNDES. As linhas continuam nacionais, mas as políticas podem ser locais. Por exemplo, colocar a maçã (Rio Grande do Sul) e o leite (Paraná) na merenda escolar. Para financiar esses projetos, pegamos dinheiro federal. O fato de usarmos as linhas de crédito federais não quer dizer que não estejamos adotando políticas regionais. Para isso, é preciso ter bancos de crédito capazes de montar projetos que a agricultura familiar não consegue. O BNDES muitas vezes cria dificuldades adicionais, porque sempre pensa sob a lógica do grande capital.
CC: Como é a interlocução de um banco de desenvolvimento regional com o BNDES?
CM: Depende da política do BNDES em determinado momento. Nós, como dependemos quase 100% do BNDES, somos tratados como qualquer banco privado. O BNDES tem uma política de fiscalização que não é compatível com os bancos públicos. Trata da mesma forma tanto as instituições privadas, que cobram juros escorchantes, como um BRDE, que visa o desenvolvimento. Claro que o BNDES tem de fiscalizar o dinheiro que emprega. Mas há um nivelamento injusto: tanto faz se pegar 9 milhões de reais quanto 90 mil, o BNDES exige as mesmas garantias. Portanto, o BNDES não tem uma política para a pequena empresa. Joga a microempresa na mesma vala da grande corporação.
CC: Não existe a autonomia do BRDE para a escolha dos projetos que receberão os recursos do BNDES?
CM: A autonomia existe no começo. Vem aqui o microempresário e pede 90 mil reais. O BNDES dá o dinheiro. Mas nós não temos espaço para autorizar mudanças no projeto. Por exemplo, o microempresário economizou na loja e queria usar parte dos recursos para comprar uma máquina usada. Não podemos fazer isso. O projeto tem de voltar para o BNDES e cria-se muita burocracia.
CC: Qual é a característica do tomador de empréstimos por meio do BRDE?
CM: O BRDE é muito procurado por quem está em dificuldades, porque quem está bem é disputado pelo sistema financeiro. São setores estrangulados, que já não têm muita capacidade de endividamento. Mas eles não se enquadram nos limites de garantia fixados pelo BNDES. Os que mais nos consultam são os fabricantes de equipamentos para a agricultura. E eu falo dos pequenos produtores de implementos agrícolas. O setor hoteleiro é outro que também tem suas especificidades. O investimento inicial é muito alto e o retorno é a longo prazo. Não se retorna o investimento em um hotel em cinco anos.
CC: Dentre os candidatos à Presidência da República, há algum que tenha um olhar especial para o desenvolvimento?
CM: Não. O governo Lula foi instável do ponto de vista do desenvolvimento, com algumas políticas favorecedoras ao grande capital. Mas foi mais coerente, apesar da instabilidade, do que os governos anteriores. Poderia ter sido mais propositivo. O medo segurou o desenvolvimento no Brasil. Foi uma opção política: Roberto Rodrigues (ex-ministro da Agricultura) e Luiz Fernando Furlan (titular do Desenvolvimento, Comércio e Indústria) são ligados ao grande capital, ao agronegócio. Ainda assim, houve avanços. As cooperativas, especialmente no Paraná, tiveram um desenvolvimento extraordinário. Agora, elas precisam também concorrer com as multinacionais. Estão se tornando quase sociedades anônimas, por causa da lógica do agronegócio. Onde isso vai dar? É necessário pensar políticas de equalização da vida camponesa, coibindo a concentração da terra.
Carta Capital, 20/09/2006, Seu País, p. 28-29
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