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Plano tenta diminuir os estragos da BR-319

OESP, Vida, p. A42
16 de set de 2006

Plano tenta diminuir os estragos da BR-319
Desmatamento é inevitável, mas áreas especiais podem contê-lo

Cristina Amorim

A má notícia: a recuperação da BR-319, que liga Manaus (AM) e Porto Velho (RO), vai transformar o eixo da rodovia em uma das frentes mais ativas de desmatamento da Amazônia. A boa notícia é que, se o plano do governo federal de implantar unidades de conservação na área se adiantar às obras, o impacto será muito menor, pelo menos naquela área.

Uma projeção feita pela pesquisadora Ana Paula Dutra de Aguiar, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostra que o desmatamento crescerá ao longo de toda a rodovia nos próximos 15 anos. O movimento entra pela floresta, em ambas as direções, em terras federais.

Três questões têm peso maior na dinâmica da região: demanda por terra para atender ao setor agropecuário, a existência de estradas próximas para escoar a produção, e a criação ou não de áreas protegidas - sem elas, o cenário é de corte rápido.

Ana Paula descobriu que a implantação de um mosaico de 7 a 8 milhões de hectares de unidades de conservação, de proteção integral e de uso sustentável, permitiria a preservação da floresta. Ela se baseou em uma proposta do governo federal - que sofreu algumas alterações após consultas públicas, mas ainda assim cumpriria seu objetivo.

Em 2004, o então ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, anunciou a recuperação da BR-319, abandonada desde sua abertura, na década de 70. O ato provocou a explosão de grilagem de terras e derrubada de árvores em larga escala no seu entorno. O Amazonas registrou um crescimento do desmatamento entre 2005 e 2006. A causa provável é justamente a ação na área.

O secretário de Biodiversidades e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, diz que o governo federal tenta fazer o ordenamento territorial no entorno da rodovia com as unidades de conservação. 'Todo o problema da ocupação desordenada é a falta de destinação de terras públicas', afirma. 'Os critérios para o desenho são a importância biológica associada ao potencial uso sustentável.'

RIQUEZA BIOLÓGICA

O miolo entre os Rios Madeira e Purus, onde fica a rodovia, é uma das regiões da Amazônia com um conjunto maior de paisagens diferentes. Ali é possível encontrar amostras de cerrado, campinas, bambuzais e terras alagáveis, que salpicam largos trechos de árvores intocadas.

Por causa dos ecossistemas diferentes e da pouca presença humana até pouco tempo atrás, os biólogos imaginam que o interflúvio é rico também em biodiversidade. O pesquisador Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), diz ter visto três espécies de aves inéditas para a ciência em visitas à região. 'Imagina o que há de novo em plantas e insetos.'

Ele coordena um esforço para mapear a biodiversidade da região antes que a estrada seja refeita. O plano é ir a campo ainda neste ano e, com os dados, montar um mapa biológico da área próxima à BR-319.

Ele e Ana Paula integram o Projeto Geoma, rede multidisciplinar de estudo da Amazônia. Os mapas serão unidos para subsidiar análises de impacto da estrada. 'Será possível avaliar se as propostas são efetivas para a proteção das espécies', explica a pesquisadora.

'Esse tipo de pesquisa deveria ser incorporado à formação de políticas públicas', diz Adriana Ramos, coordenadora do Programa de Políticas do Instituto Socioambiental.

TRANSFERÊNCIA

O modelo também detectou que a solução proposta pelo governo é boa para o entorno da BR-319, mas que a frente de desmatamento migra para outras regiões - próximas e distantes. 'A demanda por terra tem uma escala maior: o mercado para atividades agropecuárias, para soja e gado. Ela vai ser atendida de alguma maneira, e outros tipos de medida além de áreas protegidas precisa ser tomada nestes pontos', afirma Ana Paula.

OESP, 16/09/2006, Vida, p. A42

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