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Planalto se curva a Bispo

CB, p.9
07 de Out de 2005

Planalto se curva a Bispo
Depois de 11 dias de jejum e de mobilizar o país, Dom Luiz consegue adiar transposição do S.Francisco
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Depois de cinco horas de conversa com o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Jaques Wagner, o bispo Luiz Flávio Cappio encerrou ontem a greve de fome. Após 11 dias sem comer, dom Luiz aceitou as propostas enviadas, em carta, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No documento levado por Wagner, o presidente se compromete com o prolongamento do diálogo sobre o São Francisco; assume o compromisso de prioridade para revitalização e saneamento; o empenho na liberação de R$ 350 milhões para a revitalização; e a discussão do assunto numa audiência com o próprio Lula em Brasília, em data a ser definida.
Na prática, o Palácio do Planalto adiou a transposição do São Francisco diante do protesto de dom Luiz. Este pelo menos foi o entendimento do bispo. Mas não o do ministro Wagner. Você ouviu alguém falar em suspensão ou adiamento?”, respondeu aos jornalistas. O religioso retrucou: Se ele falou isso, ele deu uma declaração mentirosa, porque foi isso que nós tratamos. Se ele disso isso, não está falando a verdade. Não quero tomar uma decisão precipitada, mas não foi isso que nós conversamos durante cinco horas”.
Durante a negociação, o ministro chegou a falar duas vezes ao telefone com o presidente Lula. Após conversar com Wagner, o religioso se reuniu com outros integrantes da Igreja para analisar a carta. E, em seguida, teve o encontro definitivo com o ministro. Wagner foi a Cabrobó (PE), onde o bispo se refugiou desde o último dia 26, acompanhado pelo núncio apostólico Lorenzo Baldisseri, representante do Vaticano no Brasil, que levou uma carta enviada pelo papa Bento XVI.
Acho que aqueles que acreditam no entendimento acabam chegando ao entendimento. Parabéns a todos que sofreram aqui esses dias de angústia, que nós sofremos também lá em Brasília. Acho que foi o melhor desfecho para a situação”, disse o ministro Jaques Wagner, após o anúncio da suspensão da greve de fome. O bispo, porém, já avisou: caso o governo não cumpra o prometido, voltará a Cabrobó e levará muito mais gente junto”, segundo o sociólogo Rubem Siqueira, coordenador do Projeto de Mobilização Popular pela Revitalização do São Francisco.
A reunião entre o representante do governo federal e o religioso foi acompanhada, do lado de fora, por cerca de 200 fiéis, que rezavam e cantavam hinos. Ao final, dom Luiz afirmou: Não estamos terminando, estamos começando. Se este debate não caminhar agora, voltaremos à estaca zero”.
Enquanto o bispo ainda decidia sobre o fim do protesto, na noite de quarta-feira, a juíza Cintya Lopes, da 14ª Vara Federal na Bahia, tinha concedido liminar suspendendo a licença prévia dada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) para o início das obras de transposição do São Francisco. A medida paralisa o processo de licenciamento ambiental do projeto. A ação foi movida pelos ministérios públicos federal e da Bahia, liderada pela promotora Luciana Khoury, coordenadora do projeto de Defesa do Rio São Francisco do Ministério Público. De acordo com o Ministério Público, o Ibama não poderia ter liberado a licença sem o atendimento de 31 condicionantes ambientais estabelecidos para a aprovação da obra.
As organizações não-governamentais que apóiam o diálogo entre o governo e a sociedade dividem opinião sobre o cumprimento das propostas feitas por Lula. O presidente ofereceu sua palavra de honra, mas não temos garantia nenhuma de que vai cumprir com o que disse”, acredita Ruben Siqueira. Já o presidente da Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco, Edson Ribeiro dos Santos, está otimista. Acredito que agora o governo deu o sinal real de que vai abrir o diálogo com a sociedade”, diz. Contrário à transposição, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB) se manifestou ontem sobre o protesto. Creio que o bispo expressa um sentimento que é de muitos. Não é possível pensar em transposição sem falar em revitalização”
Na última noite em greve de fome, dom Luiz sonhou com muita comida. Após o acordo, rezou uma missa e foi levado ao hospital municipal.

Após críticas, CNBB festeja fim da greve
Andrá Carravilla
Da equipe do Correio
Depois de assistir a uma guerra santa” entre religiosos a favor e contra a greve de fome do bispo dom Luiz Flávio Cappio, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) comemorou ontem o fim do protesto do religioso. Na avaliação do secretário-geral da CNBB, dom Odilo Scherer, o gesto representa a retomada do diálogo. Vemos com alegria e alívio. A gente espera agora que o debate leve ao consenso. A Igreja não apóia nem é contrária ao projeto, mas se solidariza com o bispo. Este gesto extremo de dom Cappio chamou a atenção. Foi importante”, afirmou.
O religioso aplaudiu a iniciativa do Palácio do Planalto de marcar um encontro com dom Luiz para debater o projeto de transposição do São Francisco. Para a CNBB, o fim do protesto foi resultado da intervenção do Vaticano combinada com a viagem do ministro Jaques Wager a Cabrobó (PE).
O religioso caracterizou de extremada” o jejum voluntário do bispo de Barra (BA), mas não quis polemizar. A greve de fome é só uma forma de protesto, de marcar posição. Mas ninguém é dono da própria vida”. Sobre o temor de que isto se repita, dom Odilo desabafou: espero que esta moda não pegue”.
Em relação às opiniões divergentes dentro da Igreja, ele ressalvou que há espaço na congregação para todas as posições. Isto não é uma questão política, tem a ver com aspectos humanitários e sociais”. O secretário-geral da CNBB fez questão de defender dom Luiz. Ele tem um grande amor à natureza e ao rio São Francisco, escreveu um livro sobre isso. Ele tinha motivações muito particulares para chamar a atenção”
Depois de ser criticado por bispos do Nordeste, dom Luiz recebeu manifestações de apoio horas antes de decidir encerrar o protesto. O bispo de Petrolina, dom Paulo Cardoso informou que a regional 2 da CNBB, integrada por 20 bispos dos estados de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco era favorável à greve de fome. Não há divisão na Igreja”, afirmou dom Paulo ao afirmar que a postura de alguns bispos favoráveis à transposição são posturas isoladas e pessoais.
Em um discurso mais crítico, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgou nota contestando as declarações do arcebispo da Paraíba, dom Alto Pagotto, que acusou dom Luiz de contrariar as recomendações da CNBB, que já teria se posicionado favorável ao projeto. Para a CPT, a manifestação de dom Pagotto trabalha com o nefasto objetivo de dividir o Episcopado brasileiro. Esta, infelizmente, é a forma mais eficaz de colaborar com as empreiteiras e com o grande capital que estão de olho nesta obra gigantesca”.

O que eles disseram
Você ouviu alguém falar em suspensão ou adiamento?”
Jaques Wagner, ministro de Relações Instituicionais, sobre a transposição

Se ele falou isso, ele deu uma declaração mentirosa, porque foi isso que nós tratamos”
Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), em resposta ao ministro

Espero que esta moda (greve de fome) não pegue”
Dom Odilo Sherer, secretário-geral da CNBB

Creio que o bispo expressa um sentimento que é de muitos. Não é possível pensar em transposição sem falar em revitalização”
Aécio Neves, governador de Minas Gerais

Acredito que agora o governo deu o sinal real de que vai abrir o diálogo com a sociedade”
Edson Ribeiro dos Santos, presidente da Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco

CB, 07/10/2005, p. 9

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