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Planalto acelera confisco de terra por escravidao

OESP, Nacional, p.A9
11 de Fev de 2004

Planalto acelera confisco de terra por escravidãoEmenda constitucional sobre trabalho escravo foi incluída por Lula na pauta extraordinária do Congresso
JOÃO DOMINGOS
BRASÍLIA - A emenda constitucional do Senado que autoriza a União a expropriar sumariamente a terra onde for constatada a existência de trabalho escravo foi incluída ontem pelo presidente de Luiz Inácio Lula da Silva na pauta da convocação extraordinária do Congresso. A decisão de incluir o projeto na pauta da Câmara foi tomada pelo presidente Lula depois de um bate-boca entre o secretário nacional dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP). Este, ao saber que o ministro petista criticara a Câmara por causa da demora na votação da proposta, respondeu que a culpa não era da Casa que preside, mas do governo, que não incluíra a emenda na lista dos projetos a serem votados durante a convocação.
O texto da emenda constitucional será lido hoje na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Segundo o presidente da comissão, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), a votação de sua admissibilidade ocorrerá amanhã. Em seguida, será criada uma comissão especial, que terá o prazo de 40 dias para votar a proposta. Só então seguirá para o plenário, onde terá de obter pelo menos 308 votos, em dois turnos.
Como já foi aprovada pelo Senado, após cumprir o ritual na Câmara, a emenda será promulgada e entrará em vigor.
Raros - A Constituição já prevê a expropriação de terras onde for encontrada plantação de substâncias entorpecentes, como maconha. No entanto, raríssimas vezes a determinação foi obedecida pelo poder público.
De acordo com a emenda constitucional, as glebas de terra de qualquer região do País onde houver exploração de trabalho escravo serão imediatamente expropriadas e especificamente destinadas à reforma agrária. Terão prioridade no assentamento os colonos que já trabalhavam naquela terra, sem nenhuma indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do trabalho escravo será confiscado.
O presidente da Câmara recebeu ontem a visita de um grupo de artistas e representantes de entidades civis empenhados no combate ao trabalho escravo.
Eles foram pedir pressa na votação da emenda.
O grupo também visitou o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, A atriz Lucélia Santos, que na década de 70 fez o papel principal na novela Escrava Isaura, baseada na obra de Bernardo Guimarães, disse que, além de votar a emenda, o governo deve adotar medidas para garantir o emprego. "Com isso, não será necessário que pessoas subempregadas se submetam a trabalho em condições degradantes", disse.
Definição - Em São Paulo, o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), João de Almeida Sampaio Filho, disse que apóia a proposta de emenda, mas ressalvou que seria melhor definir antes o que é trabalho escravo. "Nós ruralistas não apoiamos sob hipótese alguma qualquer situação de escravidão, mas está se criando certa confusão em torno disso", afirmou. "Há gente confundido casos claros de desrespeito à legislação trabalhista, como a contratação de mão-de-obra sem registro em carteira para serviços temporários, com trabalho escravo."
Para ele, esses casos devem ser punidos de acordo com as leis trabalhistas já existentes no País. O líder ruralista também disse que teme a generalização das críticas aos proprietários rurais. "Elas começaram com a manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, logo após o crime ocorrido em Unaí", disse. "O fato de existirem proprietários que não cumprem as leis trabalhistas não significa que todos façam a mesma coisa."
Protesto - Em Belo Horizonte, auditores fiscais realizaram ontem um protesto, no centro da capital mineira, contra o assassinato de três fiscais do Trabalho e de um motorista em Unaí, no noroeste do Estado, no fim do mês passado. Os manifestantes criticaram a "lentidão" nas apurações da chacina. Uma faixa de 30 metros de comprimento por 5 metros de largura foi estendida na fachada do prédio da Receita Federal, na Avenida Afonso Pena, e cobriu 9 dos 11 andares do imóvel.
"Chacina de Unaí: exigimos rigorosa apuração dos fatos e punição exemplar dos pistoleiros e mandantes. Queremos segurança para trabalhar" eram os dizeres da faixa. O ato foi organizado por representantes do Fisco-Fórum MG, que reúne entidades representativas da fiscalização em Minas e congrega agentes fiscais das Receitas Estadual, Municipal e Federal, Trabalho e da Previdência.
Os auditores Nelson José da Silva, João Batista Soares Lages, Eratóstenes de Almeida Gonçalves e o motorista Ailton Pereira de Oliveira foram mortos a tiros quando faziam inspeções para identificar situações de trabalho irregular em fazendas da região do noroeste mineiro. (Colaboraram Eduardo Kattah e Roldão Arruda)

OESP, 11/02/2004, p.A9

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