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Pipoca com pequi

CB, Caderno C, p.5
03 de Jun de 2004

FICA
Pipoca com pequi
Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental vai até domingo na cidade de Goiás, com 222 obras inscritas de vários países
Daniela Paiva
Da equipe do Correio
O grito ecoa de um lugar onde as horas não têm pressa, distante do corre-corre e da degradação do mundo urbano. E que ainda preserva, em suas ruas de pedras e árvores centenárias, beleza isenta das punições do homem. A cidade de Goiás não poderia ser melhor cenário para o propósito conscientizador quanto à preservação da natureza embutido do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), cuja sexta edição vai até domingo.
  O evento, que mexe profundamente com o cotidiano dos vilaboenses (nativos de Goiás), reúne trabalhos do Brasil e de Alemanha, Índia, Bielorússia, França, Inglaterra, Suécia, Palestina, Nova Guiné e Senegal. Este ano, das 222 obras inscritas, disputam diversas categorias da mostra competitiva (que distribui R$ 250 mil em prêmios) quatro longas, sete médias, 16 curtas e duas séries televisivas.
  Segundo Washington Novaes, consultor da pré-seleção e integrante do júri oficial, assim como na edição do ano passado, a principal preocupação era que os filmes atendessem tanto a requisitos estéticos de cinema quanto ao olhar focado no tema ambiental. Nos festivais anteriores não havia esse critério específico, o que provocou uma certa confusão, atesta. Havia concorrentes muito bons em termos de cinema, documentário, mas que não tinham nada a ver com o meio ambiente.
  Em relação às obras que passaram pelo crivo da etapa seletiva, o número caiu de 299, em 2003, para 222 em 2004. Mas o nível, avalia João Novaes, que compôs a comissão de pré-seleção, superou o do ano anterior. O festival teve uma diminuição de quantidade, mas a qualidade foi maior. Veio muita coisa boa de fora, observa. Além disso, um único tema dominante — a exemplo do ano passado, em que predominou a problemática — não acabou destacado na competição desta vez. Tentamos pulverizar para várias questões.
  O Fica muda a cara da cidade popularmente conhecida como Goiás Velho. Até lá, o marasmo costumeiro das tardes de sorvete e picolé de sabores exóticos, como milho verde, cajá e creme de ovos, na pracinha do Coreto, será substituído pelo agito do entra-e-sai das salas de cinema, pelas exposições, apresentações musicais, manifestações artísticas, festas, atividades paralelas e workshops que, este ano, levam Walter Lima Jr., Arthur Omar e Dibb Lufti a Goiás.
  A expectativa da organização é que o número de freqüentadores (60 mil pessoas) repita os anos anteriores. Ou seja, mais que o dobro dos 27 mil habitantes enchem as ruas de alegria no local onde nasceu Cora Coralina, uma das mais sensíveis poetisas da cultura do Centro-Oeste.
  No lugar do pequi, da empada goiana, do doce de alfinim e do delicioso pastelinho, pipoca, refrigerante e comida junk food de cidade grande para os visitantes? Nem tanto. Um dos objetivos do Fica é fomentar a cultura local e impulsionar o potencial turístico da cidade a partir de suas próprias riquezas.
  Desde que o festival foi concebido houve um crescente movimento no sentido de ampliação do envolvimento da comunidade a partir de uma demanda da população, observa o coordenador local, Rodrigo Santana. A cidade não queria ser só palco, queria estar integrada. Hoje, as pessoas se sentem verdadeiramente construtoras do festival.
  Para isso, os vilaboenses deixaram o ritmo mais tranqüilo de cidade interiorana e se movimentaram nos meses que antecederam o Fica com o projeto Se Liga no Fica. A iniciativa prepara a população para receber o evento em junho. Várias ações são implementadas, desde a educação ambiental nas escolas até a ida de cinema e arte às comunidades carentes.
  A mão-de-obra é toda daqui. Cento e sessenta pessoas da cidade vão ser contratadas para trabalhar no festival, que movimenta a economia e influencia positivamente pelos próximos quatro meses, afirma Rodrigo. Sem contar com o levantamento da bola ambiental: vários projetos são desenvolvidos ao longo do ano, inspirados e estimulados pelas discussões abordadas, como o de combate à poluição dos córregos. Caso de filme que entra, literalmente, na sala de casa. A cidade grande bem que poderia imitar o interior.
Os números do Fica

CB, 03/06/2004, p. 5

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