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PF ganha carta branca para invadir aldeia em RR

OESP, Nacional, p. A9
29 de Abr de 2005

PF ganha carta branca para invadir aldeia em RR
250 homens estão sendo mobilizados para resgatar agentes mantidos reféns

Vannildo Mendes
Colaborou: Vasconcelo Quadros

No melhor estilo do velho oeste americano, a Polícia Federal recebeu carta branca do governo federal para invadir a aldeia Flexal, em Roraima, e resgatar os quatro policiais federais mantidos reféns há uma semana pelos índios da etnia macuxi, que se opõem à homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol em área contínua. A operação "José do Egito" mobiliza 250 homens de elite das Polícias Federal e Rodoviária Federal.
O Exército pôs mil homens de prontidão para prestar apoio logístico aos policiais, se for necessário. O ultimato será dado hoje e a operação resgate pode ocorrer a qualquer momento no final de semana, caso fracassem as tentativas de solução pacífica.
Em Boa Vista, o superintendente da Polícia Federal em Roraima, José Francisco Mallmann garantiu ontem, depois de três horas de reunião com caciques macuxis, que a libertação dos quatro agentes pode acontecer neste final de semana. Mallmann redigiu um texto para o delegado Alex Sandro Biegas e os três policiais reféns pedindo que tenham calma. "A libertação está próxima", escreveu o delegado para tentar tranqüilizar os policiais, que já dão sinais de esgotamento.
"Se for necessário, entramos. Mas as negociações avançaram e tudo caminha para uma solução pacífica", disse o superintendente. A inteligência da PF descobriu que os reféns foram separados e mantidos em condições totalmente submissas, estão mal alimentados e submetidos a desconforto e tensão. A PF aposta que eles não serão executados, porque os índios nada ganhariam com isso.
O encontro com Mallmann foi na sede Sociedade de Defesa dos Índios de Roraima (Sodiur), entidade que representa os índios contrários à homologação da Raposa Serra do Sol em área contínua. "A decisão de libertar ou não será tomada pelos índios do Flexal", explicou o presidente da Sodiur, José Novaes. A principal preocupação da Sodiur agora é evitar que a substituição da estrutura estadual - especialmente de saúde, educação e transporte - por órgãos do governo federal prejudique os macuxis.
Levantamento feito pela inteligência da PF comprovou que a aldeia abriga 800 indígenas rebelados, dos quais pelo menos 300 são guerreiros prontos para o combate. Muitos são jovens e afoitos, o que agrava o risco de a situação sair do controle. Os índios têm armamento precário arcos, flechas e espingardas de caça. A PF suspeita que as flechas tenham pontas envenenadas.
Informações não confirmadas oficialmente dão conta de que aliados brancos estão fornecendo armas mais eficazes aos índios. Eles dispõem também de telefones Globalsat, cedidos por uma ONG amazônica, e equipamentos de rastreamento de comunicação para acompanhar movimentos do governo e o noticiário.
A ordem do governo é reduzir ao máximo o número de baixas, mas será difícil evitá-las se houver mesmo enfrentamento. Os líderes indígenas envolvidos no seqüestro serão processados pelo menos por cárcere privado e formação de quadrilha.
Também podem ser responsabilizados o prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero, ONGs e agricultores que estão insuflando os indígenas e até mesmo o governador de Roraima, Ottomar Pinto (PTB), que assumiu clara posição contra a demarcação da reserva e negou ajuda policial para resgatar os reféns.

Negociar sobre a reserva tem limite, avisa Bastos

Vannildo Mendes
Colaborou: Leonencio Nossa

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse ontem que o governo aceita negociar à exaustão o conflito em torno da homologação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, mas a negociação tem limite. "É preciso fazer valer o Estado, a ordem e a lei. Se não conseguirmos uma solução negociada, vamos usar os meios de que dispomos (para impor a lei)." Segundo ele, a homologação "é uma grande conquista". "Não será dado nenhum passo para trás."
O ministro acredita em uma solução pacífica. Bastos falou após a inauguração da nova sede da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, a maior e mais bem equipada do País, na qual foram gastos US$ 6 milhões. Estiveram presentes, entre outros, o governador do Paraná, Roberto Requião, o diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, e diplomatas de vários países. O prefeito de Foz, Paulo Mac Donald, provocou o ministro afirmando que de nada adianta tanto investimento se o governo não endurecer as leis nem mandar mais policiais para a região e guarnecer a Ponte da Amizade, que ele chamou de "ponte da vergonha".
Em encontro com lideranças indígenas, Thomaz Bastos assegurou que vai garantir a ordem e deslocar mais funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) para dar apoio a comunidades ameaçadas por grupos contrários à demarcação. Os índios anunciaram que, em setembro, vão matar e assar 200 bois para comemorar a saída dos invasores brancos. Thomaz Bastos é convidado de honra.

OESP, 29/04/2005, Nacional, p. A9

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