Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Romerito Aquino
29 de Nov de 2005
Estudos demonstram que o Estado bate recorde em números de anfíbios na América do Sul, com 113 espécies
O estabelecimento de programa de pesquisa sobre secreções de sapos e a criação de um laboratório e de uma coleção biológica de secreções desses anfíbios, todos ligados ao Instituto de Pesquisa sobre Biodiversidade, que está sendo instalado em Cruzeiro do Sul como parte do complexo da futura Universidade da Floresta, extensão da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Essa deve ser uma das ações concretas, no Acre, do desdobramento do Projeto Kampô, que o Ministério do Meio Ambiente e instituições públicas e privadas de pesquisas começarão a executar no próximo ano no Acre para estudar a viabilidade científica da vacina do sapo Kampô e a produção de fármacos a partir dela, com repartição justa e eqüitativa de benefícios em favor dos índios acreanos que a usam desde os tempos imemoriais.
Propostos pelos antropólogos chamados para realizar os estudos sobre o conhecimento indígena relacionado ao uso do sapo e seus aspectos etnoecológicos, o programa de pesquisa e o laboratório visam produzir experiências positivas de valorização da sócio-diversidade amazônica, com agregação de valor na própria região.
Povo Kaxinawá busca a energia para o trabalho
e as manifestações culturais da vacina do Kampô
Segundo a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, que vai coordenar as pesquisas antropológicas do Projeto Kampô, os dois instrumentos técnicos propostos garantem a transferência de tecnologia e de ciência para a região do Vale do Juruá. Nessa região acreana, uma legião de herpetólogos, biólogos, bioquímicos, médicos e outros cientistas brasileiros irão executar o maior projeto que se tem notícia no país de bioprospecção de fármacos com repartição justa de benefícios em favor das populações tradicionais.
Para a antropóloga, a transferência de tecnologia e de ciência para o Acre se dará com a capacitação técnica da população local tanto para a coleta e identificação de espécies de sapos da região, quanto para o isolamento, a identificação de estrutura e a síntese de peptídeos presentes nas secreções desses anfíbios em laboratório de espectrometria de massa a ser instalado em Cruzeiro do Sul.
Segundo Manuela Carneiro, a Amazônia brasileira, no geral e o Acre, em particular, apresentam vantagens comparativas com outras regiões do mundo na produção de peptídeos, que são as moléculas revolucionárias na cura de novas doenças no mundo. "O Vale do Alto Juruá, no Estado do Acre, revelou ter um número recorde de espécies de anfíbios", diz a antropóloga, ao informar que, enquanto foram constatadas 79 espécies nas regiões de Pakitza e Tambopata, no Peru, nesta região acreana a sua equipe de pesquisa já havia descoberto até o ano de 2000 nada menos que 113 espécies de anfíbios.
Nesta terceira e última parte da série de reportagens que o Página 20 publica desde sábado sobre a riqueza que vem da floresta a partir da vacina do sapo Kampô, será possível conhecer, a seguir, a opinião de antropólogo, índio, curandeiro e doutor em desenvolvimento sustentável sobre a realização das pesquisas científicas previstas para a selva acreana. Veja, também, depoimentos de pessoas que já tomaram a vacina do sapo Kampô.
Índios já não suportam tanto roubo
Além de contrários ao comércio da vacina do sapo, os índios acreanos não suportam mais serem "roubados" em seus conhecimentos sobre os produtos que fazem uso desde os tempos imemoriais para melhorar a qualidade de vida na floresta.
O líder indígena Sabá Haji Manchineri do grupo indígena Manchineri, considera que os índios não são contra o desenvolvimento e a busca de cura para as enfermidades da humanidade a partir dos produtos florestais que usam. "Só não podemos permitir que em nome desta se utilizem de maneira injusta e inadequada tanto nossos saberes como nossos recursos. Esta (vacina do sapo) e outras medicinas podem ser estudadas, porém, os detentores dos saberes e conhecimentos devem ser compensados justamente e não só como meros informantes", destaca Manchineri.
Para Sabá, o fato da vacina já ter adquirido valor comercial fora das aldeias vai contra o "sistema" utilizado pelos índios, que usam a secreção do sapo "como um elemento de aperfeiçoamento e equilíbrio humano através de orientações espirituais e do poder de cura do organismo, do corpo e da mente de quem a usa." Manchineri considera que isso também é válido para outras medicinas usadas como fruto da sapiência e do conhecimento ancestral dos índios.
"Queremos ser valorizados"
"Seria muita pretensão de minha parte pretender falar por todos os índios, mas conforme meu conhecimento e convicção, nós esperamos ser reconhecidos e valorizados por nossa contribuição à humanidade e que sejamos beneficiados em especial economicamente", afirma o líder indígena.
Sabá Manchineri faz questão de ressaltar, também, que os índios não temem o roubo de seu patrimônio pelos "parasitas" que vivem da miséria humana. "Não temos medo pelo roubo de nosso patrimônio, pois sempre o fizeram os parasitos que vivem da miséria humana. No entanto, nos indignamos ao saber, ver e não poder evitar tantas usurpações, saqueios e desonestidade da dita civilização".
Sabá Manchineri em ato cultural do povo Sachila, em Santo Domingo, no Equador
Em relação ao controle e a liberação do uso dos conhecimentos ancestrais dos índios, Manchineri destaca que para estudiosos, empresas e instituições, a questão da biopirataria tornou-se um negócio e justificativas para discursos inflamados e vazios de muitos atores que vivem de reunião em reunião para marcar outras. Segundo ele, enquanto a Convenção da Diversidade Biológica estiver se "arrastando" entre a disputa de quem se beneficia mais e a burocracia com a produção de papéis e mais papéis, instâncias e mais instâncias, os povos indígenas vão continuar vulneráveis em seus direitos de uso e conhecimento da riqueza existente na selva. Manchineri conclui dizendo que essa situação não vai mudar enquanto os governos dos países onde existem as práticas das medicinas tropicais não conseguirem ser livres e soberanos
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.