OESP, Vida, p.A7
27 de Dez de 2004
Pesquisadores desenvolvem um substituto para o amianto
Fibra mineral, que causa riscos à saúde, será proibida no Estado de São Paulo a partir do dia 1.o
Alessandro Greco
A partir de 1.o de janeiro de 2005, a importação, fabricação e comercialização de amianto estará proibida em todo o Estado de São Paulo. Usado em produtos como caixas-d'água e telhas, o produto, sua extração e processamento causam sérios danos à saúde (veja quadro ao lado).
Para substituí-lo, pesquisadores do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) desenvolveram uma fibra cerâmica.
Não se trata de uma fibra qualquer, mas um material que não faz mal à saúde. "É biocompatível. Não tem problema absorvê-lo pela respiração, diferentemente do que acontece com o amianto", afirma Elson Longo, coordenador do CMDMC. O projeto contou com a colaboração também do professor José Arana Varela da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
O melhor deste novo produto, no entanto, é o custo de fabricação do material, escória de alto-forno, um subproduto da produção de aço na CSN. "A grande sacada é a economia de energia, pois não é preciso fundir o material. Ele já sai assim do alto-forno", explica Longo, que teve a idéia de produzir essas fibras há um ano e meio. "A escória era um grande problema para a CSN. Ela era retirada e amontoada. Tinha pouquíssimo uso", completa ele.
Segundo Longo, a fibra cerâmica, além de substituir o amianto, pode também ser aplicada para aumentar a resistência mecânica do cimento e para fazer isolamento térmico, entre outras aplicações.
O pedido de patente da descoberta - dividida meio a meio com a CSN - já foi depositada. Na semana passada, uma empresa estrangeira mostrou interesse em construir uma fábrica para produção dessas fibras em conjunto com a CSN. "Após a decisão, é uma questão de meses para a fibra chegar ao mercado", diz Longo. E completa: "Vai faltar escória."
França quer CPI para apurar danos causados por exposição ao produto
Reali Júnior
Parlamentares franceses, de situação e oposição, deverão constituir já nos próximos dias uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar "as conseqüências sanitárias, sociais e econômicas da exposição profissional ao amianto", um produto cuja comercialização está proibida na França desde 1997 e será banido de todo território da União Européia já em 2005. Segundo projeção do professor Marcel Goldemberg, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas da França (Inserm), deverão ocorrer no país em 2005 cerca de 100 mil mortes por conta da aspiração de poeira de amianto. Hoje ocorrem 3 mil mortes por ano.
A estratégia dos lobistas do amianto na Europa consiste em minimizar os riscos do produto e de seus efeitos fatais para a saúde, fato que constitui um dos grandes escândalos de saúde pública desses últimos anos na França. Brasil, Canadá e vários países emergentes e do Terceiro Mundo permitem a exploração e comercialização desse produto, agindo de forma idêntica, geralmente orientados por associações de defesa do produto. No Brasil, que tem uma das maiores minas de amianto do mundo, a de Goiás, um dos argumentos utilizado, mas rejeitado pela comunidade científica internacional, refere-se ao tamanho da fibra, que é inferior a de outros países, o que reduziria seus efeitos.
O forte lobby goiano tem conseguido evitar uma legislação restritiva e manter a produção de artigos contendo amianto, mesmo com a multiplicação de casos de doenças fatais. O governo brasileiro promete adotar uma decisão definitiva até abril, mas outras promessas já foram feitas anteriormente e as decisões têm sido adiadas.
Um movimento de protesto foi iniciado neste mês na França pelas viúvas e outros familiares das vítimas do amianto, diante do Palácio de Justiça de Dunkerque, contra a inércia da Justiça francesa face ao "ar contaminado" pelo chamada "poeira maldita", exigindo que as relações entre o lobby do amianto e os poderes públicos sejam mais claras e transparentes.
À imagem das Mães da Praça de Maio em Buenos Aires, essas mulheres têm saído regularmente às ruas. Nesses últimos dez anos, indenizações no valor de 270 milhões foram pagas a 6.240 vítimas ou familiares de vítimas fatais de amianto na França.
O próprio Conselho de Estado reconheceu, ainda recentemente, a carência do Estado francês na prevenção dos riscos do amianto. Diante disso, familiares das vítimas decidiram iniciar uma ofensiva penal.
Inicialmente utilizada para o isolamento dos imóveis e proteção de incêndios, a fibra do amianto se espalhou por numerosos setores da indústria, tais como placas de fibrocimento, telhas, freios de automóveis, refrigeradores, caixas-d'água e pinturas.
Hoje, na França, grandes e custosos trabalhos de descontaminação estão sendo efetuados, sendo que um dos principais canteiros de obras é o da Universidade de Jussieu, em Paris. Pela legislação atual francesa, nenhuma escritura de imóvel, público ou privado, pode ser passada sem a apresentação de um certificado atestando que o imóvel não contém amianto.
O que é o Amianto
O Amianto: É uma fibra mineral, natural, sedosa, muito empregada pela indústria na fabricação de telhas, caixas-d' água, pastilhas de freio, roupas especiais, termoplásticos e tintas.
Características: Não queima, é resistente, tem boa capacidade isolante, durabilidade, flexibilidade e facilidade de ser tecido.
Riscos: É reconhecidamente cancerígeno e pode causar também doenças respiratórias. Pode causar a asbestose, uma fibrose pulmonar que diminui a elasticidade dos pulmões, dificultando a respiração
OESP, 27/12/2004, p. A7
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