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Pesquisa sobre conservação na Amazônia 10: produtos não-madeireiros e ecoturismo

Amazônia Real - http://amazoniareal.com.br/
Autor: FEARNSIDE, Philip M.
01 de Jun de 2015

As perspectivas de uso sustentável não são particularmente boas, devido a uma série de fatores limitantes que hoje restringem os usos de terra dominantes em áreas desmatadas na região [1, 2]. O foco da pesquisa sobre opções de uso sustentável é, portanto, também, sobre os usos que mantêm a cobertura florestal. Um dos grandes esforços é a promoção da coleta dos produtos florestais não-madeireiros, tais como, a borracha natural (Hevea brasiliensis), o óleo de copaíba (Copaifera spp.), a castanha do Pará (Bertholletia excelsa), as sementes de andiroba (Carapa guianensis) e fibras, tais como, as da piaçava (Leopoldinia coquilhos) [3, 4]. Estes produtos podem, de fato, ser colhidos numa base sustentável sem prejudicar os principais serviços ambientais da floresta. Os desafios estão nas esferas sociais e institucionais para manter estes sistemas funcionando sem que a atividade econômica se desloque em direções não-sustentáveis.

Produtos não-madeireiros da floresta, como base para sustentar a população local, é fundamental para a criação e manutenção de "reservas extrativistas" [5]. Estas reservas foram propostas pelo Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) em 1985 e a primeira reserva deste tipo foi criada no Estado do Acre em fevereiro de 1988. Chico Mendes, o líder seringueiro e defensor de causas ambientais e sociais, foi assassinado em dezembro do mesmo ano. Sua morte provocou indignação no Brasil e em outros lugares, criando a oportunidade para a rápida expansão das reservas extrativas na Amazônia brasileira. Nos anos seguintes, a viabilidade econômica da extração de látex tornou-se mais fraca. A produção de borracha natural é muito mais barata na Ásia, onde a ausência do fungo causador de mal das folhas (Microcyclus ulei) permite a produção eficiente em plantações. Embora a maior parte da borracha natural utilizada no Brasil seja importada da Ásia.

Desde 1997, o Brasil tem mantido suporte artificial dos preços da borracha obtida de fontes domésticas, sendo 20% do montante total da subvenção reservada para borracha extraída da floresta natural e o restante para plantações [6]. No entanto, o subsídio tem diminuído progressivamente. Isto, combinado com a tendência das populações residentes terem expectativas aumentadas para seu padrão de vida material, tem levado ao aumento da frequência de escolhas não-sustentáveis, especialmente o desmatamento para pastagens (e.g., [7]). A venda de madeira, oficialmente sob planos de manejo "sustentável" comunitário, também começou nas reservas extrativistas que inicialmente se destinavam a serem limitadas a produtos florestais não-madeireiros. Apesar desses desvios em relação à ocupação de baixo impacto, que foi proposta originalmente, as reservas extrativistas fornecem uma proteção melhor do que aquela que prevalece na paisagem circundante fora das reservas.

O ecoturismo tem sido mencionado muitas vezes como uma alternativa ao desmatamento e ainda tem sido usado para justificar projetos de grande desenvolvimento, com enormes impactos ambientais, tais como a rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho) [8]. Turismo pode, de fato, fornecer sustento econômico para alguns. No entanto, a escala dessa opção é mínima em comparação com o tamanho da Amazônia. Em um pequeno país que é facilmente acessível para turistas estrangeiros, como é o caso da Costa Rica, o turismo pode ser um fator significativo em escala regional ou nacional, mas a demanda por esta forma de turismo não é expansível para fornecer uma base econômica semelhante na Amazônia. A escala é diferente: apenas o Estado de Rondônia é cinco vezes o tamanho da Costa Rica [9].

NOTAS

[1] Fearnside, P.M. 1988. Prospects for sustainable agricultural development in tropical forests. ISI Atlas of Science: Animal and Plant Sciences 1(3/4): 251-256.
[2] Fearnside, P.M. 1997. Limiting factors for development of agriculture and ranching in Brazilian Amazonia. Revista Brasileira de Biologia 57(4): 531-549.
[3] Clay, J.W. & Clement, C.R. (Eds). 1993. Selected Species and Strategies To Enhance Income Generation from Amazonian Forests. FO: Misc/93/6. Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), Roma, Italia. 260 p. Disponível em: http://www.fao.org/docrep/019/v0784e/v0784e.pdf
[4] Murrieta, J.R. & Rueda, R.P. (Eds.). 1995. Reservas Extrativistas. World Union for Nature (IUCN), Gland, Suiça. 133 p.
[5] Fearnside, P.M. 1989. Extractive reserves in Brazilian Amazonia: An opportunity to maintain tropical rain forest under sustainable use. BioScience 39(6): 387393. doi: 10.2307/1311068
[6] Brasil, MMA (Ministério do Meio Ambiente). 2014. Programa de agroextrativismo da Amazônia. http://www.mma.gov.br/port/sca/cex/carta.html
[7] Fernandes, B. 2008. Resex Chico Mendes tem 10 mil cabeças de gado. Terra Magazine 08 de outubro de 2008. http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2008/10/08/resex-…
[8] Fearnside, P.M. & Graça, P.M.L.A. 2009. BR-319: A rodovia Manaus-Porto Velho e o impacto potencial de conectar o arco de desmatamento à Amazônia central. Novos Cadernos NAEA 12(1): 19-50.
[9] Isto é uma tradução parcial atualizado de Fearnside, P.M. 2014. Conservation research in Brazilian Amazonia and its contribution to biodiversity maintenance and sustainable use of tropical forests. p. 12-27. In: 1st Conference on Biodiversity in the Congo Basin, 6-10 June 2014, Kisangani, Democratic Republic of Congo. Consortium Congo 2010, Université de Kisangani, Kisangani, República Democrática do Congo. 221 p. http://congobiodiversityconference2014.africamuseum.be/themes/bartik/fi…. As pesquisas do autor são financiadas pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (proc. 304020/2010-9; 573810/2008-7), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (proc. 708565) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ1).

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