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Pesquisa genética nacional pode garantir Amazônia para brasileiros

O Rio Branco-Rio Branco-AC
Autor: Ana Sales
07 de Set de 2003

Com o Dia da Amazônia, comemorado na sexta-feira, o tema desenvolvimento, preservação, é suscitado. Debate sobre as riquezas da biodiversidade amazônica remete a discussão para visões microscópicas, pelas quais pesquisadores de todo o Planeta tentam decifrar o código genético de plantas, animais e microorganismos desta região à procura de um tesouro escondido. As pesquisas se concentram nos genes, as pequenas partículas existentes nas células dos indivíduos deste grande ecossistema, com capacidade de cura para enfermidades graves e que podem ser exploradas comercialmente de diversas maneiras.

A Amazônia tem hoje como uma dos principais problemas a ser enfrentado a biopirataria, que movimenta, em alguns casos, quantidades gigantescas de recursos financeiros. Razão que mexe com a vida de todos os moradores da região.

No Acre, o assunto está diretamente relacionado com as formas de exploração dos recursos naturais e com a implementação do desenvolvimento sustentável. O professor Gilson Mesquita, doutor em Genética e Melhoramento Vegetal da Universidade Federal do Acre (Ufac), faz diversas observações técnico-científicas que devem ser consideradas na exploração racional dos recursos naturais.

No que se refere à exploração madeireira, Mesquita diz que o estudo dos genes das árvores comercializadas vem contribuir para o incremento tecnológico. "Os marcadores moleculares é uma forma de se estudar as populações destas espécies nativas. Vai possibilitar a determinação do manejo para exploração sustentável".

Gilson assegura que tal estudo facilita as madeireiras identificarem qual a árvore deve ser cortada, garantindo a preservação das árvores consideradas matrizes genéticas. "A exploração atual é predatória, pois não considera a idade da planta". O professor comenta que, quanto maior o diâmetro da árvore, quanto mais exuberante for o seu caule, mais valiosa ela é para os madeireiros.
"As plantas mais grossas são as mais velhas, que já passaram, ao longo da sua vida por diversas perturbações genéticas e estão mais preparadas para enfrentarem situações adversas. Estas são as matrizes".

Mesquita defende que a implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável requer, no rigor científico, a reposição do que foi tirado da natureza, para não se caracterizar uma exploração predatória. "Quando eu derrubo uma árvore, tenho que plantar aproximadamente 1.000 da mesma espécie para garantir que algumas cheguem até a fase adulta. Isto porque, durante sua vida jovem, muitas não resistem ao que chamamos seleção natural que vai eliminando várias, antes delas atingirem a fase adulta e começarem a produzirem sementes que garantam a reprodução da espécie".

Abate predatório provoca extinção de espécies

O pesquisador lembra que uma árvore adulta, ao ser abatida, vem destruindo tudo que encontra pela frente, provocando uma pequena clareira. Mesquita citou uma pesquisa realizada no Estado do Pará, nos últimos cinco anos, que aponta a abertura de cerca de sete mil quilômetros de ramais, só para garantir a retida do mogno abatido. "É destruição da floresta que contribui para o processo de extinção de algumas espécies. A médio prazo, 10/15 anos, se continuar a exploração atual, se não houver controle nem reposição, determinadas espécies vão ser dizimadas deste meio ambiente. Vai reduzir o número de animais e a produção de madeira vai cair porque não haverá mais árvores adultas para serem abatidas".

Gilson Mesquita alerta que os critérios técnicos científicos não estão sendo obedecidos, principalmente no que se refere ao ciclo de manejo das espécies. Ele afirmou que os procedimentos atuais de determinação da idade de uma planta são feitos, "de forma grosseira", pelos diversos anéis existentes no caule, cada um correspondendo a um ano. "Eles só ficam visíveis quando a árvore é abatida. Não há confirmação científica e sim uma aceitação. Somente através do teste de carbono 14 é possível se determinar, com precisão, a idade da árvore". (AS)

Mapeamento genético do guaraná

O pesquisador informou que apenas 1% da capacidade total da biodiversidade amazônica é conhecida pela comunidade científica. "E a maioria das patentes não está registrada no Brasil". Há apenas cinco anos é que, segundo Gilson Mesquita, uma equipe técnica de Manaus (AM) começou a pesquisar o assunto. Trata-se do Centro Amazônico de Biotecnologia (CAB) que trabalha na área de fármacos, com recursos do governo federal.

Está previsto para final deste ano o início dos trabalhos de mapeamento genético e o guaraná é o produto escolhido para iniciar os estudos. O professor faz parte da equipe de cientistas do CAB e afirma que, durante o seqüenciamento genético do guaraná, seja possível identificar genes similares a outros que hoje são utilizados pela indústria de medicamentos. "A genética permite inocular um gene em determinada planta para produzirmos determinadas substâncias genéticas".

Ele chama a atenção que se trata de um assunto extremamente delicado, cujas pesquisas têm que ser pautadas pela ética. "A engenharia genética permite a produção de armas químicas. Tem o caso concreto que uma empresa, nas suas experiências com o tabaco, desenvolveu um gene que estimulava o tabagismo, o vício nas pessoas humanas". (A.S.)

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