VOLTAR

Pesquisa descobre espécies em cavernas

JB, Saude & Ciência, p. A9
13 de Set de 2004

Pesquisa descobre espécies em cavernas
Biólogo da UFMG faz inventários de faunas em grutas

Catharina Epprecht

Descobrir uma espécie nova é a glória de todo biólogo. Qual não deve ter sido a alegria do pesquisador Rodrigo Lopes, que ao longo de seus estudos para o doutorado encontrou pelo menos 50 animais até então desconhecidos. O cientista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) procura agora confirmar a descoberta.
- O problema é que nem sempre há sistematas para determinados grupos de animais - explica, referindo-se aos especialistas na classificação de seres vivos, a chamada taxonomia. - Quando um organismo é mais simples, eu mesmo posso descrevê-lo. Um exemplo é um besouro que encontrei, de um grupo que só tem três espécies. Eu e um colega o estamos descrevendo. Mas há grupos que precisam de pessoas mais especializadas.
Lopes conta que não há muitas pesquisas zoológicas em cavernas brasileiras e que um determinado tipo de animais, os troglóbios (ver quadro ao lado), quando encontrados, são muito provavelmente novas espécies.
- Os troglóbios em geral são endêmicos de uma região. E costumam ter algumas especializações morfológicas, como a redução de pigmentação, ou até o albinismo; a redução, às vezes ausência, da estrutura ocular; e o alongamento de apêndices, o que é uma compensação sensorial pela falta de luz - esclarece. - Além dessas observações, temos de casá-las com informações como o ambiente de fora da caverna.
A pesquisa de doutorado do biólogo fez um inventário das espécies de 113 cavidades - 106 cavernas e 6 minas - não apenas no Brasil. Em viagens às Ilhas Canárias, na Espanha, Lopes aproveitou para estudar algumas cavernas.
O pesquisador buscava a elaboração do conceito de complexidade biológica, que define a interação entre as espécies de um ambiente e que pode ser usado para analisar os ecossistemas cavernícolas:
- Uma utilização do conceito, pode ser a permissão, ou não, da exploração de determinadas grutas ou minas. Se a complexidade biológica de um destes ambientes for alta, deve-se ter mais cuidado para explorá-lo.
Para o estudo, Lopes anotava em um mapa quantos exemplares de cada espécies havia em cada parte das cavidades.
Uma das espécies mais bonitas que encontrou é um opilião, um aracnídeo inofensivo, bem colorido e troglóxeno.
- Ele sai todo fim de tarde da caverna e só volta de manhã. Seu corpo tem cerca de 1 cm, mas cada perna tem uns 10 cm. Este opilião que encontramos solta uma secreção para espantar seus predadores - descreve.
Uma das surpresas entre as descobertas aconteceu na Gruta de Maquiné, em Minas Gerais, uma das cavernas brasileiras mais exploradas pelo turismo.
- Não esperávamos encontrar nenhuma espécie nova ali, porque sempre há muita gente na caverna e ela já foi muito estudada. Mas descobrimos um aracnídeo troglóbio, esbranquiçado e cego. É da ordem dos palpígrados, que tem animais muito pequenos, em geral com 2 mm - diz. - Se for confirmado que é uma nova espécie, daremos o nome de Eukoenenia maquinenses e será o maior palpígrado do mundo, com 3 mm.

Animais cavernícolas
Acidentais - Entram por acaso na cavidade e morrem se não conseguirem sair.
Troglóxenos - Têm adaptações ao ambiente de caverna, que é usada principalmente como abrigo. Mas não passam todo o ciclo da vida lá. Saem sobretudo para se alimentar. Um dos exemplos é o morcego.
Troglófilos - Completam todo ciclo de vida na caverna, mas não morrem se saírem. São a maioria dos animais cavernícolas, como grilos e aranhas, entre outros.
Troglóbios - Isolam-se nas cavernas e desenvolvem especializações neste sistema. Não estão preparados para a vida do lado de fora.

JB, 13/09/2004, Saude & Ciência, p. A9

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.