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Pés no chão

O Globo, Opinião, p. 6
26 de Fev de 2006

Pés no chão

O pacote de oito decretos que criou o primeiro Distrito Florestal Sustentável no Oeste do Pará, ao longo da BR-163, um ano depois do assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu, assinala o início da aplicação do programa de gestão de florestas públicas.
O projeto custou a entrar em vigor: anunciado pelo governo em 2004, teve sua aprovação final no Congresso somente no início deste mês. Mas toda essa demora pode ter valido a pena se o texto, por sinal aplaudido pelo World Wildlife Fund Brasil e pelo Greenpeace, for posto em prática com a devida competência administrativa.
A idéia é simples: permitir a exploração de madeira pela iniciativa privada, por meio de concessões em terras devolutas que não fazem parte de unidades de conservação, nem de terras indígenas. Representa, acima de tudo, a percepção por parte do governo de que a política de proteção ambiental a qualquer preço nunca deu resultados. Pelo contrário, enquanto a retórica oficial era que a grilagem e o desmatamento seria combatido com toda a severidade, a devastação da Amazônia só fez prosseguir, e aceleradamente, ganhando dimensões crescentes ano a ano.
Ficou claro que tentar manter a floresta intocada é um equívoco, e que a política inteligente seria permitir a exploração de recursos naturais dentro de limites rigorosos, sob monitoração de órgãos do Estado e com previsão de reflorestamento. É também, naturalmente, uma maneira de permitir ao país explorar seu maior patrimônio natural sem permitir sua deterioração - o oposto do que aconteceu até agora.
É certo que também proliferam como árvores na Amazônia os órgãos públicos: foram criados o Serviço Florestal Brasileiro, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal e o Conselho Gestor de Florestas Públicas, este aliás composto por diversos ministérios. Espera-se que a eficácia do projeto não seja comprometida por essa e outras formas de burocratização ganhas em emendas no Senado e aprovadas na Câmara.
Porque só assim poderá começar para a Região Amazônica a fase de recuperação proporcionada pelo realismo que até hoje nunca conseguiu se sobrepor à retórica ambientalista radical.

O Globo, 26/02/2006, Opinião, p. 6

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