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Perigo real

Brasil Norte-Boa Vista-RR
14 de Jan de 2004

Flamarion teme que possa haver violência nas aldeias

A morte do índio Conrado, ocorrida no sábado, pode ser usada como elemento de acusação para responsabilizar o presidente Lula por um suposto acirramento na disputa na questão da demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol.
O Ministério da Justiça anunciou na sexta-feira que manterá a homologação da reserva em área contínua, o que significa retirar todas as fazendas, vilas, cidades e não-índios do território.
O próprio governador Flamarion reconheceu ontem, em entrevista na TV Roraima, que o clima entre os índios em Roraima chegou a um estágio que poderia ter sido evitado.
Se ao menos o governo federal tivesse apresentado soluções alternativas para os problemas que possam vir a ocorrer com a demarcação, talvez os índios estivessem mais calmos.
Apesar das investigações apontarem que a causa do crime é resultado de uma bebedeira entre índios, portanto sem motivação ideológica diante do impasse na homologação de Raposa, a posição do governo de Roraima é transmitir o ocorrido ao governo federal e demonstrar a total preocupação com esse tipo de violência, que pode ganhar proporções maiores.
Por outro lado, lideranças macuxis, reunidas durante dois dias na maloca do Contão, anunciaram realizarão marcha até Brasília para levar ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, um abaixo-assinado, a fim de demonstrar que a maioria absoluta dos moradores do Estado é contrária à homologação.
O derramamento de sangue na área da Raposa/Serra do Sol motivado pela decisão do governo em atender menos de 10% da população indígena do estado contra a vontade da maioria, é uma possibilidade real. Logo as autoridades têm que ter o devido cuidado de monitorar a situação e evitar o pior.

Saída negociada
Apesar da indigesta conversa com Thomaz Bastos, na semana passada, o governador Flamarion continua acreditando numa saída negociada.
Ele acha que a homologação só será efetivamente decretada depois de esgotadas todas as vias.
"Ainda acho possível que nossos pleitos sejam atendidos", disse.
Dose cavalar
Já para o vice-governador Salomão Cruz e o senador Mozarildo, o remédio deve ser mesmo jurídico.
Os dois são do entendimento de que na Justiça há elementos suficientes para barra a criação da reserva contínua.
"Não temos mais como manter a relação diplomática com o governo. Até hoje só tivemos decepções", disse Mozarildo.

Arsenal
A Funai de Boa Vista está adquirindo, por meio de compra direta, mais de duas dezenas de armas e um verdadeiro paiol de munição.
São espingardas e rifles que atenderão seus funcionários e comunidades indígenas.
O que impressiona é que na ordem de compra constam a exigência de pelo menos 10 mil cartuchos de calibres variados.

Conotação política
Uma entidade indígena, a Alicidir (Aliança de Desenvolvimento e Integração das Comunidades Indígenas) emitiu nota em que atribui a conotação política o assassinato do índio José Conrado de Lima ocorrida.
Contradiz assim o comunicado da Polícia Civil, para quem uma bebedeira teria causado a briga que resultou na morte do indígena.
Segundo a nota da Alicidir, o clima na região é de tensão permanente os conflitos são inevitáveis.

Dois lados
O índio Conrado tinha ligações com os grupos que fazem oposição à homologação de Raposa em área contínua.
E a discussão que resultou em sua morte, segundo a Alicidir, decorreu exatamente dessa disputa ideológica.
Já o assassino é integrante do CIR, braço radical das entidades que defendem a demarcação em um bloco só.

Maioria
Segundo o líder Jonas Marcolino, há cerca de 12 mil macuxis na Raposa Serra do Sol. Nós, que somos contra a demarcação em área contínua, representamos 70%.
"Estamos integrados, usamos energia elétrica, automóveis, ônibus e temos aldeias produtivas. Queremos ter acesso a esses instrumentos, queremos progredir".
O problema, segundo Jonas, é que acham que os índios tem que viver na idade da pedra lascada.
- Acham que a gente tem que sobreviver de caça e pesca.

Ora vejam...
O juiz Helder Girão Barreto já se pronunciou sobre o procedimento ideal para resolver a questão de Raposa e, assim, evitar mais tragédias.
Um plebiscito seria, segundo ele, a medida mais coerente e justa. Se a maioria quer continua ou não que se pronuncie.
Eis que aparece a advogada Ana Paula Souto Maior para pregar a discórdia, tirando dos brasileiros índios o direito de decidir. Que coisa mais incoerente e sem sabedoria.

Em curso
Quem pensa que os acontecimentos correlacionados com a questão indígena ofuscaram o prosseguimento da operação Praga do Egito engana-se.
Os procuradores continuam investigando o "caso gafanhoto" e prometem novidades para em breve.
No momento está havendo o recolhimento de provas e investigações para que os acusados sejam denunciados.

Ampliação
As investigações vão ser ampliadas e outras pessoas poderão ser indiciadas, conforme informou procurador federal Darlan Airton Dias.
O procurador estima que cerca de 5,5 mil funcionários fantasmas estavam envolvidos no escândalo.
Mas o processo ainda vai demorar a ser julgado, devido sua complexidade.

Resistência
Paulo César Quartiero, maior produtor de arroz irrigado de Roraima, promete resistir.
Prega até a desobediência e ameaça, mesmo com a homologação da reserva Raposa Serra do Sol, não deixar a terra.
Ele é dono de uma área de nove mil hectares dentro da reserva.

No páreo
Além de Garibaldi Alves (RN) e Hélio Costa (MG), candidatos deles mesmos, o senador Jucá também continua esperando ser chamado para o ministério de Lula.
É o escolhido do líder Renan Calheiros.

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