VOLTAR

Pequenos tornam-se lucrativos com agricultura organica

OESP, Agricola, p.G6
29 de Set de 2004

Pequenos tornam-se lucrativos com agricultura orgânica
Em propriedades de 5 ou de 100 hectares, palavra de ordem é diversificar e produzir sem impactos ambientais. Assim produtos são valorizados e permitem que agricultor viva exclusivamente da terra
Niza Souza
Diversidade de culturas e trabalho integrado com o ambiente.
Na agricultura orgânica, essas são práticas básicas - e fundamentais -, segundo os próprios produtores, para tornar uma pequena propriedade viável financeiramente. "No ano passado tive uma experiência ruim. Perdi toda a produção de batata porque choveu muito e deu podridão. Não tive prejuízo graças aos outros produtos, que compensaram essa perda", conta o produtor orgânico Joaquim Geraldo Baldini, de Botucatu (SP).
Assim como Baldini, muitos pequenos produtores orgânicos apostam na diversificação para manter bons rendimentos. Alguns são incisivos. "Não acredito na viabilidade de uma pequena propriedade agrícola que não seja orgânica", diz Ricardo Schiavinato, de Serra Negra (SP), que já foi produtor convencional e há sete anos converteu sua propriedade, de 100 hectares, em orgânica. "Antes não conseguia ver lucro. Hoje, vivo só com a renda do sítio", garante. Além de produzir hortaliças e frutas, Schiavinato mantém uma miniusina de produtos lácteos, entre eles iogurte, doce-de-leite, manteiga, ricota, requeijão e queijo, tudo orgânico, é claro. O faturamento bruto anual do produtor, só com a agricultura, é de cerca de R$ 180 mil por ano. Com o laticínio, ele diz que consegue faturar pelo menos o dobro, e com menores riscos.
Certificado como orgânico há apenas dois anos, pelo Instituto Biodinâmico de Botucatu (IBD), Baldini, de Botucatu, garante que o segredo da agricultura orgânica, para pequenos como ele, é a diversificação. Quando era convencional, diz, plantava poucas variedades. Hoje, como orgânico, em seu sítio de 5 hectares, ele planta cerca de 20 itens diferentes de hortaliças.
Este ano, também plantou morango, 10 mil pés. Tudo orgânico. E quer diversificar mais. "Vou plantar nêspera e ameixa, que ainda servirão de quebra-vento para a horta."
Na agricultura orgânica, é proibido o uso de qualquer produto químico (fetrtilizante, agrotóxico, etc.), o que dificulta o trabalho de controle de pragas e doenças. Por isso, também, a importância da diversificação, que ajuda a reduzir o aparecimento de pragas. "Quanto mais diversidade, menos doenças aparecem. Antes, a cada ano aparecia uma doença diferente e estava usando produtos perigosos e caros no morango", afirma o produtor. Além disso, diz, se ocorrer algum problema com determinado produto, há outro, ou outros, para compensar. "Hoje, por exemplo, a couve-flor está produzindo pouco, por causa do calor, então, a cenoura e a beterraba compensam. É por aí."
Adaptação[/INTERTITULO] - A produtora orgânica Adriana Ribeiro Guimarães de Luca, de Jarinu (SP), também acredita que a diversidade de culturas é o caminho para tornar viável a pequena propriedade. Adriana, que também é engenheira agrônoma, diz ainda que o produtor precisa plantar algo que seja rentável. "É importante estudar a região, saber as culturas que mais se adaptam e, principalmente, saber se vai conseguir mercado", ressalta.
No sítio, Adriana e o marido, José Dahir Porto de Luca, o Zuca de Luca, plantam hortaliças e frutas. "Temos uma grande diversidade, dependendo da época do ano", explica. "Plantamos alface, cenoura, beterraba, couve-flor, brócolis, pimentão, berinjela, tomate, ervilha, vagem, mandioca, milho, caqui, morango, tangerina, laranja e limão." O importante, acredita, é ter variedade de produção e produtos adaptados à necessidade da região. "Isso é fundamental para garantir uma boa renda." A comercialização é feita, basicamente, em duas feiras orgânicas, uma em São Paulo, promovida pela AAO, e outra em Campinas. Além disso, diz, faz entrega diretamente para clientes em Jundiaí e em algumas pequenas lojas. "Assim conseguimos vender por um preço melhor para o consumidor."
Simplicidade[/INTERTITULO] - Para Schiavinato, diversificar é mais que uma prática, é fundamental para a pequena propriedade. "A gente não tem escala de produção, por isso fica muito difícil investir em tecnologia.
O custo seria altíssimo, por isso defendo a diversificação", diz. Mas essas práticas não garantem que a propriedade vá ficar livre de pragas. "Tive problema com uma doença no tomate. Perdi toda a produção. Daí, plantei outra cultura no local."
Outra prática comum entre os produtores orgânicos é a construção de armadilhas caseiras e iscas para alguns insetos. "A agricultura é um trabalho de conhecimento. O produtor convencional, geralmente, é mal-acostumado", acredita ele. "A agricultura orgânica, em compensação, estimula o produtor a diversificar e a utilizar recursos do próprio ambiente." Para proteger as hortas do vento, por exemplo, Schiavinato faz barreira natural com capim-elefante. "Isso protege as folhas contra os ventos e ainda reduz a necessidade de irrigação."
O escoamento da produção agrícola é outro obstáculo na viabilidade do pequeno agricultor, seja orgânico ou convencional. O orgânico tem uma vantagem, seu produto já tem um valor agregado só pelo fato de ele ser orgânico. A gerente da AAO, Araci Kamiyama, acredita que a saída para o pequeno produtor é se organizar, em grupos ou cooperativas. "Desta forma, ganha-se maior poder de barganha", diz. Em grupos, ressalta Araci, os produtores também podem agregar valor, industrializando ou processando os produtos.
Ela cita o caso de um grupo de pequenos produtores orgânicos, de Ibiúna (SP), formado por sete famílias. "Eles se uniram, formaram um bom mix de produtos e conseguiram encontrar outras formas de comercialização, além dos grandes distribuidores", conta. A experiência, segundo ela, está animando os produtores. "Eles estão ganhando mais e conseguindo, inclusive, fazer com que o produto chegue mais barato ao consumidor."

OESP, 29/09/2004, p.G6

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.