O Globo, Opinião, p. 17
Autor: AZEVEDO, Tasso
09 de Jan de 2013
Pela contramão
Tasso Azevedo
Acena é chocante. De qualquer ponto um pouco mais alto nas grandes cidades brasileiras se observa, especialmente nos períodos de inversão térmica no inverno, uma densa camada cinzenta flutuando sobre a área urbana. Só em São Paulo o Laboratório de Poluição Atmosférica e Saúde da Faculdade de Medicina da USP estima que 4 mil pessoas morrem por consequências desta poluição causada essencialmente pela circulação de veículos na cidade.
Além de comprometer a saúde, os veículos representam mais da metade das emissões de gases de efeito estufa da cidade.
A poluição dos veículos está relacionada de forma simplificada a quatro fatores: o tamanho da frota de veículos, o tipo de combustível utilizado, a intensidade de uso dos veículos e a eficiência e regulagem dos motores.
Hoje vivemos um sistema perverso: insuficiência e ineficiência do transporte público associadas aos incentivos econômicos para veículos particulares (crédito fácil, subsídios etc) favorecem o aumento da frota em circulação, que trava o trânsito e aumenta a intensidade de uso dos veículos, inclusive os de transporte público. Para complicar ainda mais o subsídio a gasolina diminui o consumo de álcool (menos poluente). O resultado é aumento de emissão de poluentes.
Nos últimos anos um dos fatores que têm amenizado os impactos deste quadro em São Paulo é o programa de inspeção veicular obrigatória, que controla a regulagem dos motores.
De uma forma simples trata-se de verificar anualmente se os veículos estão respeitando os limites de emissão para cada modelo. Quando é reprovado o veículo deve ser regulado e refazer o teste. Em 2011, 25% dos veículos foram reprovados na primeira inspeção, em 2012 este percentual caiu para 20%. Ao contrario do que se imagina, veículos novos também são afetados. Em 2011, 8% dos veículos com até 5 anos foram reprovados. Cerca de 500 mortes foram evitadas em SP em decorrência das regulagens de motor provocadas pela inspeção veicular.
Diante deste quadro seria razoável que o novo prefeito de São Paulo ao assumir buscasse fortalecer o programa de inspeção veicular para reduzir a absurda alta taxa de 20% dos veículos reprovados. Em vez disso, o prefeito Fernando Haddad ao assumir propôs como uma das primeiras medidas rever o programa tornando-o bianual, subsidiado pela prefeitura e isentando os carros com até 5 anos. Em suma, enfraquece o controle de poluição e aumenta o subsídio ao transporte individual às custas dos cofres públicos.
O uso transporte individual beneficia basicamente os seus usuários diretos, mas os custos de seus impactos decorrentes no trânsito, manutenção de vias, saúde, entre outros, recaem sobre toda a sociedade.
Ainda é tempo de o novo prefeito esquecer este infeliz início e focar nas políticas de mobilidade urbana para ampliar a oferta, qualidade e eficiência e estimular o uso do transporte público e restringir, limitar e desestimular o transporte motorizado individual. Enfim, sair da contramão.
Tasso Azevedo é engenheiro florestal
O Globo, 09/01/2013, Opinião, p. 17
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