VOLTAR

Peixes à beira da extinção

CB, Brasil, p. 8
21 de Mar de 2008

Peixes à beira da extinção
Práticas predatórias, poluição das águas e degradação das matas ameaçam 75 espécies

Renata Mariz
Da equipe do Correio

Sexta-feira santa é dia de peixe na mesa do brasileiro. Faz parte da tradição católica abdicar de carne vermelha ao relembrar a crucificação e morte de Jesus Cristo. Até os não-religiosos seguem o costume. Pela herança cultural ou simplesmente pelo sabor da iguaria. A tradição, entretanto, está cada vez mais ameaçada. Menos por questões de fé e mais por motivos ambientais. Poluição das águas, degradação de matas e práticas de extração predatórias levaram pelo menos 75 espécies de peixes à lista dos animais em processo de extinção, no Brasil.
Levantamento recém-divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra que o problema se agrava do norte para o sul do país. 0 estudo identificou a quantidade de espécies ameaçadas em cada região costeira do Brasil, levando em consideração os peixes aproveitados pela pesca artesanal, que responde por aproximadamente 52% de toda a produção nacional. No Nordeste, esse método tradicional é responsável por 88% do total de pescado desembarcado.
0 Sul aparece como a região mais preocupante, com 32% das 142 espécies que atendem a pesca artesanal ameaçadas de desaparecer. No Sudeste, o índice fica em 29%. 0 Nordeste tem taxa de 13% entre os quase 300 tipos de peixes explorados. No Norte, onde o problema ainda é bem discreto, apenas 3% das espécies correm risco de extinção. Além da poluição das águas, provocada pela urbanização desenfreada e muitas vezes pelo turismo, os métodos de pesca têm grande responsabilidade na diminuição dos estoques de peixes.
Técnica predatória
Nas regiões Sul e Sudeste, onde os índices de extinção são mais graves, a prática do arrasto é recorrente. A técnica predatória envolve grandes redes com pesos. "Elas passam arrastando peixes pequenos, movimentam o fundo do mar, quebram o equilíbrio ecológico", explica Adriane Lobo, que coordenou a elaboração do livro Nas redes da pesca artesanal, resultado do estudo do Pnud com o Ibama. Especialista em educação ambiental, Adriane observa que o terreno marítimo nessas regiões incentiva o arrasto. "São plataformas curtas, a poucos metros você já tem profundidade para passar as redes", diz.
A situação no Norte do país é totalmente diversa e explica o bom nível de estoque pesqueiro. Lá, o perfil da plataforma costeira é longo, não existe grande pressão por comercialização e o Rio Amazonas alimenta a vida no mar com o sedimento que leva. 0 Nordeste, cuja taxa é de 13% de espécies ameaçadas, respira um pouco aliviado devido à diversidade. Quando uma espécie se torna rara, os pescadores partem para outra. Mas o leque de opções nem sempre significa exploração sustentável. A lagosta é um caso emblemático.
Com alto potencial de comercialização, a pesca da lagosta teve queda de quase 50% em 2006, em relação aos anos anteriores, devido à extração irregular. A Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap), criada em 2003, chegou a identificar 6 mil embarcações explorando o crustáceo, enquanto apenas 1,2 mil estavam devidamente autorizadas para a atividade. "Conseguimos cadastrar 3 mil barcos e intensificamos a fiscalização no período do defeso (proibição temporária), que vai de três a cinco meses por ano, para tentar controlar a reprodução da lagosta", explica Karim Bacha, subsecretário da pasta.
Defeso
No ano passado, 12 mil km de redes utilizadas na pesca da lagosta foram apreendidas pela Seap. É o suficiente para percorrer uma vez e meia toda a costa marítima brasileira, que tem 8,5 mil km. Outras espécies marinhas que contam com períodos de defeso são a sardinha e o camarão-sete-barbas, imprescindíveis para o setor pesqueiro. Também com dificuldades de reprodução atualmente, pescados como a piramutaba, o bagre, o pargo e a anchova estão na lista de ameaçados de extinção.

Qualidade de vida dos pescadores desaba

Na contramão das dificuldades impostas pelo desequilíbrio ecológico, as colônias de pescadores artesanais só crescem no país. Em 1980, havia quase 250 mil trabalhadores nos estados litorâneos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje, eles passam de 500 mil. A estimativa é de que 2 milhões de pessoas no Brasil dependam desse setor para sobreviver. Mas a escassez de peixes tem feito a qualidade de vida dos pescadores tradicionais despencar.
"0 preço até subiu. Antes, cobrávamos R$ 6 por um peixe como cavala ou cioba na beira da praia. Agora vendemos facilmente por R$ 10. Mas isso não é bom. Preferimos ter vários peixes para vender, mesmo que por um preço menor, a não conseguir pescar nada", diz José Alberto de Lima Rodrigues, vice-presidente do Movimento Nacional dos Pescadores (Monape).
Além dos apetrechos predatórios, como a rede de arrastão, que mata peixes muito pequenos, há a concorrência com as grandes embarcações. "Os barcos de grande porte fazem muita pressão sobre os cardumes reduzidos", explica Rodrigues.
Karim Bacha, da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, destaca como primordial para a sustentabilidade da atividade artesanal, na concorrência com a industrial, o beneficiamento do produto. A implantação de fábricas de gelo e oferta de cursos de capacitação aos pescadores fazem parte dos projetos do governo para o setor. "Em vez de vender o peixe in natura, eles poderão comercializar o filé, por exemplo", explica Bacha.
0 turismo é outro grande obstáculo na vida dos pescadores. Com a exploração do litoral, eles acabam expulsos da costa, o custo de vida encarece, o mar não é o mesmo. Uma experiência bem-sucedida de resistência se deu na Prainha do Canto Verde, distrito de Beberibe, no Ceará. Logo que a especulação imobiliária chegou, na década de 1980, os pescadores se organizaram para preservara vila.
Em 1993, fizeram uma famosa viagem de protesto, a Jangada S.O.S. Sobrevivência, que durou 74 dias com paradas em 20 portos até chegar ao Rio de Janeiro. Quatro jangadeiros levaram uma carta denunciando a miséria vivida pelos povos do mar no litoral cearense. (RM)

Sob ameaça
Poluição, especulação imobiliária é técnicas predatórias estão acabando como estoque de peixes nas águas brasileiras, sobretudo os que atendem a pesca artesanal. Veja o nível de ameaça nas regiões costeiras do país:

Sul 32% das 142 espécies aproveitadas pela pesca artesanal estão ameaçadas
Sudeste 4% das 191 espécies aproveitadas pela pesca artesanal estão ameaçadas
Nordeste 13% das 253 espécies aproveitadas pela pesca artesanal estão ameaçadas
Norte 3% das 74 espécies aproveitadas pela pesca artesanal estão ameaçadas

Retrato do setor

A pesca artesanal emprega 2 milhões de pessoas, das quais 500 mil são pescadores, e vem crescendo nos últimos 20 anos. Em 1980, respondia por 36% da produção pesqueira nacional. Hoje corresponde a 52%
O método artesanal é predominante no Nordeste (88% de todo o pescado desembarcado) e Norte (83%). Na Região Sudeste, a contribuição desse tipo de pesca triplicou desde 1980, hoje de 34% do total. No Sul, houve queda, respondendo atualmente por 8% da extração
Só nos estados litorâneos existem cerca de 381 colônias de pescadores, das quais aproximadamente 240, ou 62%, ficam na Região Nordeste. Muitos se organizam em cooperativas, mas o circuito de comercialização ainda é grande. No Rio Grande do Norte, por exemplo, a média é de seis atravessadores, entre o pescador e o consumidor final

CB, 21/03/2008, Brasil, p. 8

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.