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Paulistanos reclamam de rodízio de água disfarçado; governo nega

O Globo, País, p. 9
06 de Ago de 2014

Paulistanos reclamam de rodízio de água disfarçado; governo nega
Defesa do Consumidor recebeu, por dia, 14 queixas de desabastecimento

Tiago Dantas

SÃO PAULO - Embora o governo de São Paulo afirme que o abastecimento de água na Região Metropolitana está garantido até março de 2015, cada vez mais paulistanos reclamam que as torneiras de suas casas ficam vazias, principalmente durante a noite, sugerindo uma espécie de rodízio extraoficial.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) recebeu, por dia, durante o mês de julho, uma média de 14 reclamações de falta d'água em São Paulo. Em 73% dos relatos, o problema aconteceu todos os dias. As denúncias foram enviadas para o site do Idec, que lançou uma campanha chamada "Tô sem Água", cujos resultados foram encaminhados para o governo.
- É evidente que o racionamento está ocorrendo. Vamos manter este canal aberto até que a população seja formalmente comunicada sobre a falta d'água - afirma Claudia Almeida, advogada do instituto, que continua recebendo reclamações em seu site.
Desde abril, moradores da capital paulista vêm alertando sobre cortes esporádicos no abastecimento. A Sabesp tem explicado que os problemas podem estar relacionados a manobras feitas no sistema de distribuição de água ou à redução na pressão da água à noite.
Nas últimas semanas, houve relatos de falta d'água em áreas mais centrais e até na Vila Madalena, reduto de bares da cidade. Com o abastecimento comprometido, as casas não tinham como cozinhar, lavar a louça e limpar os banheiros no fim da noite.
Segundo frequentadores, os bares que não fecharam mais cedo entregaram copos plásticos aos clientes e abasteceram os banheiros com álcool em gel. Gerente do bar Patriarca, Gilson Silva diz que contratou um caminhão-pipa para não ter que fechar o estabelecimento na última quarta-feira:
- Foram cinco mil litros para encher a caixa d'água e deixar a casa aberta. Outros bares até queriam dividir, mas acabamos usando tudo.
O gerente do restaurante Alternativa Casa do Natural, Wilson Araújo, disse que não serviu almoço e jantar na quinta-feira passada:
- A água só voltou no fim da tarde. Não deu para trabalhar.
Segundo a Sabesp, só faltou água na Vila Madalena entre quarta-feira e quinta-feira, porque técnicos consertavam um vazamento. "Para a manutenção, foi necessário desligar a água em uma parte da região, a partir do meio-dia do dia 30, voltando a ser ligada às 3h de quinta-feira", disse a companhia, em nota.
Funcionários de bares ouvidos pelo GLOBO dizem que a falta d'água continua e que os efeitos não são maiores porque as caixas d'água são suficientes para atender à demanda menor no começo da semana.
ALCKMIN DIZ QUE INVESTIU PARA GARANTIR FORNECIMENTO
A crise no abastecimento de água enfrentada pelo estado de São Paulo promete ser um dos principais temas da eleição para governador. Sexta-feira, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT) divulgou um plano de R$ 13 bilhões para combater a falta d'água. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, reagiu ontem às provocações de Padilha, que prometera fazer em quatro anos o que o governo tucano não fez em 20.
- São Paulo está trabalhando. É a maior crise, a maior seca dos últimos 84 anos. Nós não temos racionamento em São Paulo. A Sabesp trabalhou bem, investimentos vultosos foram feitos. E quero destacar aqui: fomos o único governo no Brasil que deu um bônus. Nenhuma prefeitura, nenhum estado e nem o governo federal (deu) - disse o governador paulista, referindo-se a descontos por economia de água.
Hoje termina o prazo para que a Sabesp e o governo paulista expliquem ao Ministério Público Federal (MPF) por que um racionamento de água oficial ainda não foi adotado. Os procuradores recomendaram o início da medida como forma de proteger o sistema Cantareira, principal reserva de água do estado.
O governo sustenta que adotar um rodízio pode danificar a rede de distribuição e trazer prejuízos aos consumidores. Segundo a Sabesp, as medidas adotadas nos últimos quatro meses resultaram em economia semelhante à de um rodízio que deixasse as casas abastecidas por 36 horas e sem água por três dias.
Entre as providências tomadas pela Sabesp estão a interligação dos sistemas produtores de água, o desconto dado na conta de água para quem conseguir economizar e a redução da pressão da água na rede de distribuição durante a noite. Como a pressão com que a água é bombeada diminui, muitos bairros da cidade ficam sem água durante a noite.
A Agência Reguladora de Saneamento e Energia do estado (Arsesp) abriu uma investigação na semana passada para verificar se a redução na pressão da água à noite configura corte do serviço de distribuição em alguns bairros.

O Globo, 06/08/2014, País, p. 9

http://oglobo.globo.com/brasil/paulistanos-denunciam-rodizio-de-agua-di…

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