VOLTAR

Parques têm excesso de metais pesados; Buenos Aires é o pior

OESP, Vida, p. A30
16 de Mai de 2009

Parques têm excesso de metais pesados; Buenos Aires é o pior
Concentração de chumbo em área verde de Higienópolis foi 2,2 vezes maior que parâmetro da Cetesb

Fernanda Aranda

A poluição dos carros ultrapassou a escassa barreira verde da cidade e contaminou os redutos paulistanos considerados imunes. Um estudo divulgado neste mês detectou que solos de parques, em especial os que ficam no centro, estão contaminados por metais pesados, como chumbo, arsênio, cobre e bário, em concentrações que extrapolam, em alguns casos, até duas vezes os padrões seguros estabelecidos pelo governo paulista para não prejudicar a saúde.

A longo prazo, a contaminação por metais pode resultar em vômitos, diarreias, tonturas e, em casos extremos, até câncer. A análise foi feita com amostras colhidas de playgrounds e pistas de corrida de 14 parques de São Paulo. Todos apresentaram pelo menos um dado de metal em desacordo.

"Os piores índices estão nos parques mais próximos ao centro, onde há tráfego intenso de veículos, os grandes responsáveis pela concentração de metais", afirma a autora do estudo, Ana Maria Graciano Figueiredo, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares, que fez a análise com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Um dos piores cenários está no Parque Buenos Aires, em Higienópolis, zona oeste. A concentração de chumbo foi de 400 mg/kg, sendo que o parâmetro da Cetesb é de 180 mg/kg (2,2 vezes mais). Parques do Ibirapuera, Aclimação, da Luz e Trianon também estão em alerta com chumbo, arsênico e cromo.

As crianças e os cachorros são mais suscetíveis ao problema, explica o coordenador de pós-graduação do Departamento de Microbiologia da USP, Mario Julio Ávila-Campos, por causa do contato mais próximo ao solo. "Mas o risco para quem vai aos parques, ainda que diariamente, é difícil de ser mensurado", diz. "Quando o organismo fica saturado de metais, responde com tontura, desequilíbrio, diarreias, sintomas que as pessoas dificilmente vão relacionar à contaminação por chumbo, arsênio ou outro (metal)."

PESQUISAS

Especialistas dizem que não há motivo para pânico, mas é preciso alerta das autoridades públicas. "No Brasil ainda é muito recente essa preocupação com os metais. Para contato esporádico ainda faltam pesquisas que comprovem os perigos", opina Luiz Roberto Guilherme, pesquisador do Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal de Lavras.

Se ainda existem dúvidas sobre o alcance da contaminação, já há certeza de que os carros são os "vilões" do acúmulo dessas substâncias, até mesmo nos solos dos parques. "A dispersão desses materiais é por meio do escapamento, tanto que, quanto mais perto das vias públicas, maiores são os índices", diz a engenheira florestal do Laboratório de Poluição da USP Ana Paula Martins, que encontrou os materiais em excesso até nas cascas de árvores de cinco parques da cidade.

Gasolina pode ter contribuído

O professor Mario Julio Ávila-Campos, coordenador de pós-graduação do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da USP, lembra que a alta concentração de chumbo nos solos paulistanos pode ser "herança maldita" da antiga gasolina utilizada nos veículos, quando ainda era permitido usar a substância nos combustíveis. O professor cita ainda mais uma. prova de que os carros são os grandes responsáveis pela dispersão dos metais. "As baterias dos carros são feitas com metais pesados, o que pode justificar a dispersão."
Segundo ele, unia outra sequela provocada pelo excesso é a resistência ao tratamento. "Os micro-organismos que ganham resistência aos metais são os mesmos que ficam resistentes aos antibióticos. Esses metais costumam ser usados em pesticidas e germicidas e podem chegar ao homem", explica.
A pesquisadora do ICB Viviane Nakano lembra que os metais também estão presentes em excesso nos celulares, pilhas, baterias e tintas de cabelo. F.A.

OESP, 16/05/2009, Vida, p. A30

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.