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Para o Ipea, produtor de soja nao destroi a Amazonia

GM, Rede Gazeta do Brasil, p.B13
08 de mar de 2005

Para o Ipea, produtor de soja não destrói a Amazônia
Segundo técnicos do Ipam, o Ipea não leva em conta o desmatamento indireto com a ocupação de áreas de pastagens. Um documento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) está provocando uma grande polêmica, principalmente entre pesquisadores e ambientalistas da Amazônia. O trabalho, assinado por Antonio Salazar Pessoa Brandão, Gervásio de Castro Rezende e Roberta Wanderley da Costa Marques, afirma basicamente que os plantios de grãos, com destaque para a soja, não têm relação direta com os desmatamentos no cerrado e na floresta amazônica. Ao contrário, os técnicos do Ipea sugerem que a expansão da soja não deve ser vista como antagônica à política ambiental, especialmente no que se refere à proteção da floresta amazônica.
E mais: eles defendem o asfaltamento, "o mais rápido possível", da rodovia BR-163, a estrada Santarém-Cuiabá, "já que, independentemente do efeito benéfico, via redução de custo de transporte que esse asfaltamento trará, essa melhoria de infra-estrutura viária viabilizará o plantio de soja no entorno dessa estrada e permitirá que a política de preservação ambiental do governo seja mais eficiente do que é hoje".
Em contraponto, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), com sede em Belém, por exemplo, afirma no trabalho "Desmatamento na Amazônia - indo além da emergência crônica", que o plantio da soja na Amazônia tem influência indireta sobre o desmatamento na região. A expansão da cultura, segundo os pesquisadores do Ipam, tem acontecido fundamentalmente em pastagens já formadas, onde o custo de implantação da atividade é menor. No entanto, ao ocupar pastagens, a soja acaba por pressionar a expansão da atividade pecuária para área com floresta.
O pesquisador da Embrapa, Alfredo Homma, um estudioso das questões amazônicas, acrescenta que esse desmatamento indireto ocorre também pelo deslocamento dos pequenos produtores, principalmente na região de Santarém. "O que acontece é que naquela área a entrada da soja provocou uma compra de áreas de pequenos produtores. Tanto que as áreas plantadas com soja não têm uma área quadrangular ou retangular, como normalmente ocorre em outras regiões. Elas acompanham as áreas desmatadas de pequenos produtores. São sinais claros de que houve a pequena agricultura naquelas áreas. E esses pequenos agricultores estão saindo e comprando outras áreas adiante. Então isso acaba por provocar um desmatamento indireto", afirma o pesquisador Homma.
Sem ameaça
Ao discutir a maneira como a agricultura conseguiu expandir a área cultivada no Brasil no período, os técnicos do Ipea analisam de maneira crítica o receio existente de que a expansão de soja venha, eventualmente, a ameaçar a própria floresta amazônica. É com base nesse receio - dizem eles - que tem havido tanta resistência contra a melhoria de infra-estrutura de acesso a áreas envolvendo a floresta amazônica e outras regiões sensíveis do ponto de vista ambiental. Tal é o caso do asfaltamento da BR-163. "Como se sabe, essa medida, independentemente do efeito positivo sobre a atividade econômica no entorno da estrada, terá um impacto muito positivo sobre as regiões do Centro-Oeste (especialmente Mato Grosso) que hoje produzem soja e têm de transportá-la até os portos de Santos e Paranaguá. Além disso, a Zona Franca de Manaus se beneficiaria graças à redução do custo de transporte de sua produção comercializada no Centro-Sul e o próprio Nordeste ganharia também, já que poderia comprar alimentos do Centro-Oeste a custo menor", afirmam no documento.
"A razão para não se temer o asfaltamento dessa rodovia é que, muito ao contrário do que se pensa, a viabilização da soja nessa região permitirá que a política de preservação ambiental se torne mais eficiente na consecução de seus objetivos. Com efeito, a viabilização econômica da produção de soja nessa região, graças à redução do custo de transporte, causará um aumento no preço da terra, tornando assim antieconômicas as atuais atividades predominantes na região, e que são responsáveis pelo atual uso predatório da floresta: a) a agricultura itinerante, de baixo nível tecnológico e usuária do fogo para abertura de área; b) a extração irracional de madeira; e c) a atividade pecuária de baixo nível técnico e destruidora dos recursos naturais", afirmam.
De acordo com os pesquisadores do Ipea, a expansão da área com soja na região ocorreu, preponderantemente, pela conversão de pastagens, e não através de incorporação - no mesmo período - de áreas virgens, seja de cerrado, seja de floresta amazônica. E o trabalho mostra que as possibilidades de expansão da produção de soja no Brasil são muito amplas.
Mudanças
Alfredo Homma esteve no final do ano passado na região de Santarém, no trecho da BR-163 onde a soja já ocupa uma área estimada em 40 mil hectares. Segundo ele, o desmatamento direto realmente não está ocorrendo, porque não compensa. "É impossível plantar soja numa área de floresta densa desmatada. Os produtores de soja têm interesse em comprar áreas já desmatadas, onde houve uma ação antrópica", diz Homma.
Outro fenômeno constatado pelo pesquisador é que muitos produtores que estão vindo do Mato Grosso, principalmente paranaenses, por causa da Medida Provisória 2166, que obriga a preservação de 80% da área, estão comprando áreas de mata em lugares distantes como forma de compensar as áreas que adquirem na região de Santarém. "Tem produtor que está plantando 260 hectares de soja e comprou outra área, praticamente a 100 quilômetros de distância, de floresta densa, para justificar o que determina a MP. Então, a longo prazo isso pode provocar um efeito de desmatamento, criando uma nova fronteira lá adiante", ressalta ele.
O terceiro fenômeno apontado por Alfredo Homma é que está havendo um processo de expulsão dos produtores de Mato Grosso. "São pequenos produtores de soja, talvez menos eficientes, que estão sentindo que na Amazônia tem terras mais baratas. Portanto, não é só grande expulsando pequeno. Tem muita associação de pequenos produtores que vêm do sul do País. Constatei a presença de um sulista descendente de alemães numa reunião de pequenos produtores. Ele já tinha comprado três lotes de terras na região", afirma.
Perigo nas pontes
O calcanhar de Aquiles dos produtores de soja do Mato Grosso, de acordo ainda com Homma, é o escoamento da produção. A saída estratégica seria pelo porto de Santarém, com o asfaltamento da BR-163. A entrada da Cargill sinalizou isso, com a implantação ali de seu terminal graneleiro. Para ele, o asfaltamento será inevitável, mais por pressão do Estado de Mato Grosso. Homma acha inclusive que, como asfaltamento é muito caro, o mais importante e urgente seria consertar as pontes, o que poderia resolver de imediato o escoamento dessa produção. Só num trecho da rodovia, a partir do quilômetro 92, até o entroncamento com a Transamazônica, ele contou 11 pontes que precisam ser consertadas com urgência.
"Com a melhoria da estrada, logicamente que mais gente virá para a região, como já está acontecendo com o município de Trairão. Como um instrumento de desenvolvimento econômico, a gente não pode menosprezar a importância da soja. Mas é preciso fazer um certo controle quanto à sua expansão na região. Não se pode deixar simplesmente que se destrua a agricultura familiar. E esse controle não está sendo feito", afirma.
Além da mudança da paisagem, com o surgimento de extensas áreas ocupadas pelos produtores de soja, Alfredo Homma destaca que a médio e longo prazos essa mudança se dará também no sentido político. Mais tarde, esses produtores que estão chegando à região podem se tornar vereadores, prefeitos.
E podem reforçar inclusive a reivindicação regional pela criação do Estado do Tapajós. No setor do comércio, muitos estabelecimentos tradicionais, se não tomarem cuidado, poderão ser engolidos pelos que virão de fora. "Essa invasão poderá criar uma nova geração de empresários e de políticos na região", acrescenta o pesquisador.
Os pesquisadores Ane Alencar, Daniel Nepstad, David McGrath, Paulo Moutinho, Pablo Pacheco, Maria Del Carmen Vera Dias e Britaldo Soares Filho afirmam no trabalho do Ipam, que tudo indica que o plantio de soja aumentará nos próximos anos, principalmente no Mato Grosso. Segundo o instituto, só seria possível expandir o plantio de soja no Mato Grosso sem gerar mais desmatamentos, se as pastagens, agora arrendadas ou ocupadas pela agroindústria, não "migrassem" para novas áreas ainda ocupadas pela floresta. "Contudo, é muito improvável que aconteça tal desconexão entre as duas atividades, principalmente devido ao aumento do rebanho bovino que houve nos últimos anos. A expansão da soja deverá continuar gerando, indiretamente, novos desmatamentos, pois, além da área de cerrado, que há muito tem ocupado, passa agora a utilizar áreas de pastagem que também estão em expansão", afirmam.
Ane Alencar ressalta que, se na Amazônia o desmatamento ocorre de forma indireta, em Mato Grosso está ocorrendo diretamente. O Ipam aponta como exemplo da expansão da soja em áreas de floresta de transição e com topografia plana o município de Querência, no nordeste daquele estado. Nessa região o instituto diz que está prevista a incorporação de 60 mil hectares para o plantio de soja nos próximos cinco anos. E isso tem influenciado na valorização do preço do hectare da floresta na região, que saltou de R$ 125 no final de 2001 para R$ 550 no início de 2003, uma valorização de 340%.
"Atualmente, 33% da soja produzida no estado são provenientes de municípios cujo ecossistema principal é representado pelas florestas de transição. Com capital disponível e infra-estrutura regional adequada, a expansão da soja em áreas de floresta pode ser muito rápida no norte de Mato Grosso nos próximos anos", dizem os pesquisadores do Ipam.
Para Ane Alencar, o trabalho divulgado no início do ano pelo Ipea peca por não dar ênfase à relação indireta entre a soja e o desmatamento. Ela acha que os plantadores de soja podem utilizar esse trabalho para tentar se redimir da culpa que têm pelos prejuízos causa-dos ao meio ambiente.
kicker: Produtores migram do Mato Grosso para plantar grãos em Santarém
kicker2: Ação política dos novos produtores pode resultar no Estado do Tapajós

GM, 08/03/2005, p. B13

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