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Para não jogar fora a nossa vantagem

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
10 de mar de 2007

Para não jogar fora a nossa vantagem

Washington Novaes

No mesmo dia em que se noticiava a intenção do governo brasileiro de levar à Organização Mundial de Comércio (OMC) suas queixas contra a taxação, nos EUA, de importações do etanol brasileiro, jornais de outros países antecipavam a divulgação de novos estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, com mais algumas dramáticas advertências: 20% a 30% de todas as espécies enfrentarão "alto risco de extinção" se a temperatura subir mais de 1,5 grau Celsius sobre o nível de 1990; os mangues (berço da vida no mar) poderão desaparecer; florestas tropicais poderão savanizar-se; centenas de milhões de pessoas estarão ameaçadas pela elevação do nível do mar; a capacidade dos oceanos de absorver carbono se esgotará; 1 bilhão de pessoas que vivem em áreas que dependem da presença de gelo nas montanhas para seu abastecimento de água poderão ter seu suprimento cortado. Na véspera, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo nos jornais, advertira que "nada é mais ameaçador para a humanidade do que o efeito estufa". Depois de lembrar que "continuamos a derrubar nossas florestas", chegou ele a sugerir a convocação de uma Cúpula Mundial do Clima.

Alguns dias antes, ao serem divulgados oito estudos sobre o futuro do clima no Brasil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, dissera que "o processo que se avizinha é avassalador" e que os estudos serão a base para um plano nacional nessa área (Estado, 28/2). Seguiu-se a divulgação, por este jornal, de estudo segundo o qual a temperatura média no Estado de São Paulo subiu 2 graus Celsius em 80 anos; na capital, 2,6 graus.

Tudo isso sugere extremo cuidado com o planejamento das nossas ações. Mas, a julgar pelo que se lê, não é o que está acontecendo. As questões "ambientais" continuam a ser responsabilizadas por "travar o desenvolvimento". O Ministério do Meio Ambiente continua a ter seus recursos cortados; o corte mais recente (Estado, 16/2) foi de R$ 212,7 milhões, ou 32,7% no orçamento para este ano, que caiu de R$ 651,2 milhões para R$ 438,5 milhões, pouco mais do que caberá ao Ministério do Turismo (R$ 400 milhões), menos do que terá o Esporte (R$ 643,9 milhões).

Advertências sobre o que isso pode significar estão em muitos lugares. Mas vale a pena citar as de um paper do diretor de Economia e Meio Ambiente do próprio Ministério do Meio Ambiente, Gerson Tavares, no qual se menciona a falta de preocupação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) com as questões "ambientais". Adverte-se ali, principalmente, quanto ao que poderá acontecer na região amazônica com os investimentos previstos para a rodovia BR-163, Transamazônica, BR-319 e BR-317, que poderão "consolidar a Amazônia como a última fronteira do agronegócio brasileiro: não nos surpreendamos com um possível 'upgrade' do arco para circunferência do desmatamento".

Para tanto poderão concorrer não apenas a expansão do agronegócio, mas os programas de energias alternativas derivadas da biomassa, se não forem cercados de cuidados e medidas preventivas. A cana-de-açúcar está chegando ao Acre, com sua primeira usina, e poderá gerar conflitos como em outras áreas. O biodiesel a partir da soja poderá dar forte contribuição ao desmatamento na área amazônica - além de perder a oportunidade de, associado à agricultura familiar (se esta for contemplada também com usinas de esmagamento em cooperativas, e não apenas com o fornecimento de matérias-primas para megausinas), contribuir para avanços na área social.

A cultura de grãos na Amazônia passou de 7 milhões de hectares em 1999/2000 para 10,8 milhões de hectares em 2005/2006; a pecuária cresceu 11% ao ano e o rebanho, entre 2000 e 2005, passou de 47,5 milhões de cabeças para 82,2 milhões (segundo Gerson Tavares; há números um pouco menores). Outros estudos apontam os dois setores como responsáveis por cerca de 80% do desmatamento no período. Só no primeiro período da atual Presidência (2002/2006) foram desmatados mais de 84 mil quilômetros quadrados, mais do que em qualquer quatriênio anterior. Com eles a área total desmatada já está em torno de 700 mil km2, cerca de 20% do bioma. E continua aumentando, pois em Mato Grosso, Estado que mais desmata, só em setembro de 2006 foram desmatados 1.120 km2, dos quais 88% ilegalmente (Imazon, 18/11/2006).

É preciso cuidado para não transformar solução em problema. Segundo a Friends of the Earth, 87% do desmatamento de florestas tropicais na Malásia entre 1985 e 2000 se deveu à implantação de culturas de palmas para produção de biodiesel. Estudos preliminares do WWF Brasil sobre as culturas de cana-de-açúcar chamam a atenção para os níveis de erosão, contaminação dos solos por fertilizantes e pesticidas, perda de matas ciliares, poluição do ar por queimadas. Outros estudos lembram a necessidade de retomar a avaliação dos efeitos dos aldeídos liberados na queima, que costumam provocar chuva ácida. Outros ainda advertem para a necessidade de evitar que nessa nova expansão da cana se repitam problemas gerados com a implantação do Proálcool, na década de 1970, no Estado de São Paulo (expulsão das culturas de alimentos, encarecimento dos produtos alimentares, desemprego). Problemas semelhantes já estariam ocorrendo agora, também em regiões de Minas Gerais.

É fundamental rever nossas posturas. A China acaba de decidir baixar suas taxas de crescimento econômico também para reduzir danos ambientais. Mudanças climáticas já estão acontecendo e não se pode correr o risco de agravá-las por falta de responsabilidade. Desprezando inclusive a vantagem estratégica - que será cada vez mais importante - de ter um patrimônio único no mundo de recursos e serviços naturais, exatamente o fator escasso no planeta. E comprometendo o futuro das novas gerações.

Washington Novaes é jornalista E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

OESP, 10/03/2007, Espaço Aberto, p. A2

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