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Para medir impacto de desmate, fazenda tem área queimada

OESP, Metrópole, p. A22
18 de Set de 2016

Para medir impacto de desmate, fazenda tem área queimada
No meio do arco do desmatamento, em Mato Grosso, local permite entender o que acontece com troca de floresta por pasto ou soja

Giovana Girardi
ENVIADA ESPECIAL / QUERÊNCIA,

Cadê a anta que estava aqui? Tá no mato espalhando semente. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? Tá na mão do cientista. Cadê o cientista? Tá coletando amostra de água. Cadê a água? Tá debaixo do campo de soja. Cadê a soja? Tá onde antes era a floresta. Cadê a floresta? A anta está tentando replantar...
Em uma adaptação da brincadeira infantil, assim poderia ser resumido o trabalho que um grupo internacional de pesquisadores vem fazendo na fazenda Tanguro, no nordeste de Mato Grosso. O objetivo é entender como as mudanças no uso do solo causam impactos no clima local - além do global - e afetam até mesmo a agricultura plantada onde antes havia floresta.
Em meio ao arco do desmatamento - faixa por onde ocorreu a expansão da fronteira agrícola, a partir dos anos 1970 -, e nas proximidades do Parque Indígena do Xingu, a fazenda Tanguro, do grupo Amaggi (da família do ministro da Agricultura, Blairo Maggi), funciona como um microcosmo do que aconteceu em toda aquela região. Só nos anos 2000 a área teve 85 mil quilômetros quadrados queimados e registrou um aumento de 17 dias na estação seca.
A fazenda passou por várias etapas de desmatamento até 1992, primeiramente para a colocação de pasto e depois de soja, mas manteve 50% da área como Reserva Legal.
O projeto científico foi iniciado em 2004 após uma parceria da Amaggi com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O trabalho, que ficou famoso por colocar fogo na floresta, a fim de entender quanto ela é resiliente ao fogo, também investiga o que acontece na temperatura, na umidade do ar, no fluxo de água e de gases de efeito estufa, no regime de chuvas e na biodiversidade com as mudanças na paisagem.
Os estudos mostram que todos esses fatores estão conectados (veja infográfico acima). "A mudança do uso da terra altera os ciclos de carbono e de água, provoca impactos na saúde das florestas, que se tornam mais vulneráveis ao fogo. Uma floresta menos saudável muda completamente a dinâmica dos córregos da região", afirma o ecólogo Paulo Brando, coordenador dos estudos na Tanguro e pesquisador do Centro de Pesquisa Woods Hole e do Ipam.
Um dos resultados mais significativos constatou que a floresta funciona como o ar-condicionado para os campos de soja. "Quando a floresta é convertida para a soja, ocorre um aumento na temperatura da superfície de até 5oC. Isso está ligado a uma redução na evapotranspiração - que é a quantidade de água que volta para a atmosfera na forma de vapor, que vira nuvens e, depois, chuva - de 30% nos campos de soja", explica o ecólogo Divino Vicente Silvério.
Do fogo à anta. Outra ponta do trabalho é ver como essa paisagem pode se recuperar a fim de voltar a prestar os serviços ambientais. Parte dessa solução, acreditam os pesquisadores, passa pelas antas. Como grandes herbívoros, elas se alimentam de frutas. Acabam fazendo cocô por todo lado, espalhando sementes que podem ajudar a restaurar a mata.
Os cientistas investigam quão eficiente é este papel em regiões danificadas de propósito nos experimentos de fogo e que tiveram um efeito dramático com as secas históricas de 2005 e 2010. "Ocorreu um empobrecimento florestal profundo. Mais de 50% das árvores morreram na fase de colapso. Na borda foi quase 100%. Mesmo as árvores que sobreviveram ao fogo caíram quando houve uma tempestade de vento forte", conta Brando.
Por meio de armadilhas fotográficas e visualização em campo, o biólogo Rogério Liberio Pereira investiga se as antas circulam pelas áreas degradadas pelo fogo. Mas o mais importante é saber o que elas comem. Para isso, ele coleta as fezes dos indivíduos e procura sementes para saber se ajudam na regeneração. Até agora, já foram identificadas mais de 57 mil sementes, de 24 espécies.

OESP, 18/09/2016, Metrópole, p. A22

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