OESP, Economia, p. B4
22 de Mar de 2017
Para evitar desgaste, ministro é tirado de cena
Em meio à grave crise, ordem foi que Osmar Serraglio tivesse a mínima exposição possível; em gravação, ele chama preso pela PF de 'grande chefe'
BRASÍLIA - O ministro da Justiça, Osmar Serraglio, foi orientado a se expor o mínimo possível desde que a Operação Carne Fraca veio à tona. A ordem partiu do Palácio do Planalto. Em conversas reservadas, auxiliares do presidente Michel Temer dizem que Serraglio deve "submergir" para evitar mais desgaste e não se indispor com a Polícia Federal.
A crise envolvendo Serraglio agrava-se até mesmo no PMDB, o partido do ministro. A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) disse ontem que, quando era ministra da Agricultura, ainda no governo Dilma Rousseff, Serraglio - à época deputado federal pelo PMDB do Paraná - e Sérgio Souza (PMDB-PR) a pressionaram para manter Daniel Gonçalves Filho no cargo. Ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016, Daniel é considerado pela Polícia Federal como o chefe da "quadrilha" desbaratada pela Operação Carne Fraca.
Interceptações telefônicas da Carne Fraca capturaram conversa de Serraglio com Daniel, um dos alvos da investigação. No diálogo, o ministro - à época deputado - se referia a Daniel como "grande chefe". A PF, porém, apressou-se em dizer que ele não é investigado.
Acusação. "Esse cidadão que foi nomeado tinha processos administrativos no ministério e nunca tive notícias de uma pressão tão forte para não tirar esse bandido de lá", afirmou Kátia. "Dois deputados do meu partido insistiram que a lei não fosse cumprida a ponto de eu ter que ligar para a presidente Dilma, comunicar minha decisão de demitir e avisar que, com as consequências políticas, eu iria arcar. E ela disse: 'Demita já'", relatou a senadora, no plenário.
Serraglio rebateu ontem a senadora. Em nota, o ministro da Justiça disse que a indicação foi feita pelo então deputado Moacir Micheletto, morto em acidente de carro em 2012, e "chancelada" pela bancada do PMDB no Paraná.
Serraglio afirmou que Kátia, à época ministra da Agricultura, admitiu em discurso no plenário que só manteria o superintendente regional no cargo se ele fosse apoiado por senadores do PMDB. "Sobre a resistência em nomear, deu-se por haver divergências políticas entre ela (Kátia) e a maioria da bancada, que era a favor do processo de impeachment (de Dilma Rousseff)", escreveu o ministro.
Saída. Apesar das explicações, deputados e senadores pedem a cabeça de Serraglio. O governo avalia que houve "espetacularização" da operação da PF, com prejuízos à economia, mas orientou o ministro a não comprar briga. Se necessário, deve responder pontualmente às acusações.
A Comissão de Ética da Presidência também recebeu ontem representação assinada pelos deputados Afonso Florence (PT-BA) e Robinson Almeida (PT-BA) contra Serraglio. Os parlamentares entraram, ainda, com pedido de investigação na Procuradoria- Geral da República (PGR).
Além da apuração do esquema revelado pela Operação Carne Fraca, os petistas querem a demissão de Serraglio. O conselheiro Marcelo Figueiredo será o relator do caso na Comissão de Ética da Presidência. O colegiado tem reunião marcada para a próxima segunda-feira.
Os deputados alegam que o ministro está sob suspeição por ter interferido no processo. "Ninguém chama os outros de chefe gratuitamente", disse Almeida. / VERA ROSA, ISABELA BONFIM, JULIA LINDNER, DAIENE CARDOSO E ERIC DECAT
Fiscalização é feita pelos funcionários
André Borges ,
O Estado de S. Paulo
A maior parte dos funcionários responsáveis por fiscalizar a qualidade e o cumprimento das exigências sanitárias que envolvem a produção de carnes na BRF está ligada à própria empresa. São seus funcionários diretos. Dos 112 agentes do Serviço de Inspeção Federal (SIF) do Ministério da Agricultura que fiscalizam a unidade de Mineiros (GO), da BRF Perdigão, 104 são empregados formais da companhia, o equivalente a 93% da equipe. Os oito agentes restantes estão ligados ao Ministério da Agricultura e à prefeitura do município goiano.
As informações foram confirmadas ao Estado por Sérgio Dias Nogueira, que é agente do SIF da BRF Perdigão e funcionário direto da empresa. Nogueira atua na área de fiscalização do complexo frigorífico de Mineiros desde a sua fundação, em 2007. A contratação de fiscais pela própria empresa a ser inspecionada é permitida pelas regras brasileiras previstas no Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa). Mas isso não é permitido em países como os Estados Unidos, em razão de riscos de conflito de interesse.
Apesar do vínculo empregatício com a BRF, Nogueira afirma que nunca viveu episódio algum de pressão política ou de tentativa para que revisasse qualquer análise sanitária. "Não existe essa pressão, e nem adiantaria eles virem, porque somos um grupo muito fechado", afirma ele.
Nogueira está entre os funcionários da BRF que acompanharam a auditoria realizada na semana passada por dois técnicos do Ministério da Agricultura. Na ocasião, foram coletadas amostras de frango e de peru para passarem por avaliação, além de documentos guardados na unidade de Mineiros.
Ao todo, a unidade da Perdigão na cidade goiana conta com 2.250 funcionários diretos. A inclusão do complexo na Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, surpreendeu a toda a equipe, diz Nogueira. "Foi um susto muito grande para a gente. Até então, ninguém sabia o que estava acontecendo. Levamos esse baque na sexta-feira (17)."
O fechamento da unidade de Mineiros foi determinado pelo Ministério da Agricultura. Nas investigações da Polícia Federal, o chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal em Goiás (Sipoa-GO), Dinis Lourenço da Silva, foi flagrado em escutas telefônicas negociando com funcionários da empresa a manutenção do frigorífico. Em troca do favor, ele teria solicitado R$ 300 mil para campanha nas eleições municipais de Goiânia, capital do Estado.
Nogueira diz que não conhecia Dinis e que sua equipe não tinha contato direto com o chefe do Serviço de Inspeção. "Se isso ocorria, não chegava até nós. Seria em um nível mais alto, mas não em nosso dia a dia", afirma.
Em nota, a BRF afirma que cumpre o que foi estabelecido na legislação. "O artigo 102 do RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal) determina: 'Ficam os proprietários dos estabelecimentos obrigados a: fornecer pessoal necessário e habilitado, bem como material adequado julgado indispensável aos trabalhos de inspeção'. Todos os estabelecimentos de abate de aves no Brasil que trabalham em regime de Inspeção Federal precisam cumprir este regulamento."
OESP, 22/03/2017, Economia, p. B4
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ministro-da-justica-e-tir…
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