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Papo de índio: Com apoio de forças espirituais da floresta, os Yawanawá lutam pela revisão de limites da Terra Indígena Rio Gregório

Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Joaquim Luiz Yawanawá
29 de Jan de 2006

Peço licença para reabrir o papo neste novo ano de 2006, contando para vocês que acabo de retornar de uma longa viagem às aldeias Yawanawá do rio Gregório. Uma viagem de muita inspiração e renovação espiritual, que me fez refletir muito sobre o mundo em que vivemos e os propósitos do Criador ao nos colocar na vida.

Passei quase dois meses entre os meus parentes, inclusive o natal e o ano novo, junto com minha esposa Laura e duas filhas, em um grande mariri e em um forró a céu aberto no terreiro da aldeia Nova Esperança. Para aqueles que pensam que a vida na aldeia é monótona e que "programa de índio" é muito chato, só posso dizer que estão redondamente enganados. Nas nossas aldeias pulsam, sim, muita alegria e muita vida!

O que mais me marcou nessa viagem, foi justamente acompanhar um pequeno grupo de homens e mulheres Yawanawá, que se isolou na floresta da antiga moradia de nosso povo chamada may raka, que significa, literalmente, "o lugar onde a terra dorme". No início do século passado, os seringueiros brancos batizaram aquele nosso lugar de seringal Caxinauá, imaginando que ali habitassem os Kaxinawá, ou Huni Kuin.

Fazia 15 anos que eu não visitava aquele lugar sagrado para o nosso povo. Fiquei muito emocionado ao voltar à terra onde nasci. Conheço todos aqueles cantos e, até hoje, eles fazem parte dos meus sonhos. Revivi momentos de minha infância. Fechei meus olhos e os vi passar como as águas do rio. Foi uma emoção imensa visitar um lugar que é considerado uma importante referência de nossas antigas tradições. Ouvir meu pai, Raimundo Luis, contar a história daquele lugar foi ainda mais emocionante.

Rare e jibóia: seres sagrados da floresta

Logo na minha chegada, vieram me dizer que o cacique Biraci Brasil Nixiwaka, junto com um pequeno grupo de homens e mulheres Yawanawá, já estavam me esperando naquele lugar sagrado. Todos eles faziam a dieta de "rare" (uma planta sagrada do nosso povo). Atravessei o rio e fui direto onde eles já estavam me aguardando. Chegando lá, todos estavam de cabeça baixa e em silêncio profnndo. Com uma voz serena e tranqüila, Nixiwaka disse: - "Mã yuveki nukuare" ("encontramos o pajé, que já está aqui nos esperando"). Olhei do seu lado direito e, para minha surpresa, vi uma grande jibóia de terra firme ("runuwã") enrolada num arbusto. Nessa hora, meu pai chegou junto com nossos dois pajés, Tatá e Yawarani. Com aquele seu sorriso largo, que lhe é peculiar, foi logo dizendo: - "ah, logo hoje que mataram uma anta, porque não amanhã?" Disse isso em tom de brincadeira, porque a jibóia, na nossa tradição, é um pajé muito poderoso e representa o espírito da sabedoria e da ciência do Uni (Ayahuasca). Quando a gente se encontra com uma jibóia, temos que passar um dia inteiro sem comer e sem tomar água.

Nixiwaka queria saber se o grupo que ia fazer o "juramento ao rare" poderiam também fazer o "juramento à jibóia". Nossos pajés Tatá e Yawarani responderam-lhe que não, porque "a dieta seria muito restrita e eles poderiam não suportar". No entanto, todos que estavam presente naquele círculo poderiam fazer "ruwa waki" ("uma promessa à jibóia"). Explicaram ainda que eles pedissem qualquer coisa que gostariam de realizar na vida. No entanto, alertaram sobre a dieta que teriam de fazer, que basicamente consiste em "não comer nada doce, não comer carne de caça grande e não manter relações sexuais durante um mês inteiro". Isso é para demonstrar respeito à jibóia, um dos poderosos seres da floresta. Cumprindo bem essa dieta, a resposta dos nossos pedidos viria através de um sonho com a jibóia.

O sonho da jibóia

O meu sonho, que mais me pareceu uma miração, descrevo a seguir. No dia 3 de janeiro de 2006, sonhei com a força do runuwã (jibóia). Sonhei que estava em algum lugar, que parecia uma casa de cura. De repente chegou uma pessoa que todos pareciam estar esperando. Chegou um homem negro, de altura mediana, de aparência serena, vestido com uma bata branca. Ele se aproximou para fazer uma limpeza na minha casa. Isso mesmo, eu estava em casa! De repente, meus valores e idéias sobre crenças espirituais resistiam e rejeitavam suas curas. Queria antes saber sobre sua verdadeira identidade. Lutei muito para saber quem era realmente essa pessoa. Pude olhar em seus olhos e ver a sua cara. Meu sexto sentido dizia que ele era um espírito muito forte que foi enviado pela jibóia, ou então pelo "rare", não pude saber ao certo. No entanto, minha falta de fé e meus valores religiosos sobre essa entidade, fizeram-me lutar com ela. Aquele homem negro tinha vindo em paz. Logo se transformou numa grande cobra e me disse: - "não duvide de mim, não brinque comigo, por que me chamou se não acredita em mim?" Despertei com um grande grito, que acordou toda a vizinhança. Até os cachorros latiram assustados com o meu grito.

Depois desse sonho, fui me ajuntar ao grupo que, desde início de dezembro de 2005, havia iniciado a reclusão espiritual no antigo seringal Caxinauá. Queria acompanhar de perto o tratamento da minha filha, que também estava isolada na mata, nas proximidades da sepultura do meu avô, o famoso tuxaua e pajé Antonio Luis.

Depois de fazer minha promessa ao "runuwã" (jibóia), aquela tarde para mim tornou-se serena e tranqüila. Só ouvia o canto da nambu galinha, cortando o silêncio da floresta.

Descoberta do pé de rare

Até aquele momento, nunca tinha visto um pé de "rare", a planta mais sagrada e poderosa da floresta para nosso povo. Crianças e mulheres não podem tocá-la nem passar por perto. Ela é tão sagrada que ninguém fala nada, apenas observa para aprender. Quando o meu pai, Raimundo Luis, o Nixiwaka e os dois pajés me convidaram para conhecê-la, foi uma emoção muito grande, pois até então não tinha tido oportunidade de apreciá-la assim tão de perto. Nixiwaka apenas apontou com o dedo, falando bem baixinho: - "rare é aquela planta ali, ela é a ciência maior da espiritualidade de nosso povo; daqui não podemos passar, é o limite até onde podemos chegar perto; aquela plantinha é como se fosse o nosso Deus".

Bom, não vou relatar tudo agora para vocês, porque não tenho espaço suficiente neste papo. Apenas adiantei alguns aspectos sobre o shamanismo Yawanawá, que será aprofundado em novo filme que estou produzindo sobre esse importante costume de nosso povo. Aguardem!

Demarcação dos novos limites da TI Rio Gregório: prioridade do povo Yawanawá para 2006

Depois de quase dois meses no Gregório, participando de rituais com a minha comunidade e dando prosseguimento às atividades dos projetos da organização Yawanawá, elaboramos um cronograma de ação para o novo ano de 2006. Nele, nossa prioridade é a agilização do processo de revisão de limites da TI Rio Gregório, hoje em curso na Funai. A retomada das cabeceiras do rio Gregório é a questão que hoje mais preocupa os 620 Yawanawá, pois ali estão importantes recursos naturais e cemitérios tradicionais, que foram deixados de fora quando da demarcação da nossa terra em 1984.

Caçador Moderno

Como um bom caçador moderno, ao invés de usar arco e flecha para matar caça, tenho procurado utilizar o computador e o poder da palavra, para comunicar e articular as demandas dos Yawanawá a uma ampla rede de aliados e simpatizantes de nosso povo, hoje espalhada pelo mundo. Assim, voltei à cidade com a missão de novamente erguer a bandeira de luta do povo Yawanawá pelos quatros cantos da terra, em defesa da revisão de limites de nossa terra. Meu avô costumava dizer "Quem quer, vai. Quem não quer, manda". Como o interessado no caso somos nós, vamos publicamente divulgar nossas demandas, indo até às últimas conseqüências para ver a nossa terra revisada.

Nesta semana, enviamos ao presidente da Funai uma carta solicitando providências para agilizar o processo da revisão dos limites de nossa terra. A carta está abaixo. Junto, segue um mapa dos novos limites de nosso território, mapa este que foi produzido pelo GT da Funai que realizou os trabalhos de campo para fundamentar essa revisão.

Os Yawanawá e o Governo da Floresta

Para finalizar, gostaria ainda de comunicar que os Yawanawá estão muito contentes com o apoio que têm recebido do governador Jorge Viana. Ele tem honrado seus compromissos com nosso povo. Numa reunião realizada no dia 26 de janeiro de 2006, ele reafirmou o seu compromisso de apoiar não somente o povo Yawanawá, mas também as famílias de não-índios que vivem nos trechos de florestas por nós reivindicados como parte de nosso território tradicional. Assim, poderemos firmar uma verdadeira aliança dos povos da floresta, que funcione efetivamente naquela região, por meio da qual índios e brancos se ajudem mutuamente. Por meio de uma parceria com o governo, estamos estudando formas de reassentar essas famílias de branco, criando condições para que elas continuem vivendo perto de nossos limites, preservando, assim, alianças antigas que temos com elas, mas cada qual estando em seu lugar. Além disso, ouvimos que o governo levará as nossas demandas à FUNAI e à empresa TINDERACRE, de forma a encontrar meios de concretizar, de uma vez por todas, a sonhada revisão de limites de nossa terra.

Carta da Organização Yawanawá solicita urgência na revisão da TI Rio Gregório

Terra Indígena do Rio Gregório

Aldeia Nova Esperança, 22.01.2006

Ao: Senhor Presidente da FUNAI
C. c: Diretor da DAF (Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai)

Pela presente carta, nós da Organização de Agricultores e Extrativistas Yawanawá do Rio Gregório (OAEYRG), organização que representa o povo Yawanawá, reivindicamos urgência no encaminhamento dos procedimentos administrativos para a revisão de limites da Terra Indígena Rio Gregório (TIRG), cujo relatório foi encaminhado para análise à Coordenação Geral de Identificação e Delimitação no mês de setembro de 2005.

Sr. Presidente, nos trabalhos anteriores dedicados à regularização fundiária da TIRG, quando aqui estiveram os antropólogos Alceu Cotia Mariz, em 1977, e Arthur Nobre Mendes, em 1982, cada qual a seu tempo constataram a presença dos Yawanawá nas cabeceiras do rio Gregório: como o último afirma "o alto rio Gregório constitui, portanto, região de posse imemorial de diversos clãs nawas, entre os quais os Yawanawá" (Proc. FUNAI/BSB/2613/82, fl. 141).

Contudo, o momento histórico em que se deram tais estudos, quando ainda era incipiente a política indigenista no estado do Acre [final da década de 70 e início de 80], quando o órgão indigenista desconhecia a história específica dos povos, pois ainda não tinha mantido qualquer relação com os grupos Yawanawá e Katukina; alem de pressões da PARANACRE, grupo econômico que se dizia "proprietário" de nossas terras imemoriais e exigia a diminuição da área reconhecida, levaram a consolidar por pouco mais de duas décadas uma área bem menor que aquela que seria de direito dos povos Yawanawá e Katukina, não incluindo nos limites reconhecidos a cabeceira do Rio Gregório, imprescindível para a garantia e manutenção da qualidade ambiental de nossa terra; além de deixar de fora locais históricos importantes, inclusive cemitérios de parentes antepassados.

Com o objetivo de reparar esta situação e buscando nossos direitos, solicitamos a revisão de limites. Cumprindo com suas obrigações legais, a FUNAI constituiu um Grupo Técnico, através das Portarias 1358/PRES/FUNAI e 1372/PRES/FUNAI, para revisar o limite da Terra Indígena Rio Gregório. Tal GT realizou pesquisa de campo ao longo de 45 dias no ano de 2004, finalizando os trabalhos com a entrega do relatório em setembro de 2005.

No entanto o andamento do processo não teve continuidade, continuidade esta que se faz urgente, pois as demandas ambientais, demográficas e sócio-econômicas reais de nosso povo exigem isso. Atualmente vários processos demandam que se siga a regularização fundiária de nossa terra. No centro destes processos estão os asfaltamentos da BR-364, que irão impactar diretamente nossas terras, como demonstra os estudos de impacto ambiental desta rodovia e a aquisição de antigas terras da PARANACRE por novos grupos econômicos.

Além dessa agenda negativa, o governo do estado do Acre está promovendo a constituição de instrumentos de gestão ambiental de nossa terra indígena, fazendo o etnozoneamento completo da TIRG, a ser iniciado agora no mês de fevereiro. Para isso, a definição dos reais limites é uma exigência, pois dará segurança tanto a nós Yawanawá e aos nossos parentes Katukina, com quem compartilhamos a terra, quanto também aos ocupantes do entorno.

A definição da área se faz necessária para que não haja conflitos entre as partes envolvidas, aliás, como já ocorreu com parentes Katukina que foram brutalmente agredidos, sendo um assassinado em novembro do ano passado, quando houve também uma morte de branco devido a questões relacionadas com a terra.

Posto isto, nós do povo Yawanawá, neste momento em que a política indigenista territorial está sendo contestada, voltando à tona o argumento de antigos inimigos da causa indigenista: "muita terra para pouco índio", quando o número de assassinatos de índios cresce por questões territoriais, gostaríamos de reafirmar que a TIRG é um território tradicional e imemorial Yawanawá, território este reconhecido por todos na região, sendo direito e dever nosso ocupá-lo, pois é a garantia de nossa autonomia social e econômica.

Também é dever da FUNAI, que representa o indigenismo estatal, compor as condições para que esta ocupação seja reconhecida. Por isso o que nós queremos, com apoio de lideranças políticas do nosso estado do Acre, é apenas que sejam cumpridos satisfatoriamente os princípios constitucionais. Solicitamos a continuidade ao procedimento administrativo, com a publicação do resumo do relatório e do mapa no Diário Oficial da União e do Estado do Acre, para que se abra o prazo do contraditório e possamos reafirmar nossa posição de defesa de nosso território para desta forma, ambos, Estado nacional e povos indígenas, garantam os deveres e os direitos presentes na Constituição Federal de 1988, que por meio do seu Capítulo VIII, Artigo no 231, assinala que aos índios serão reconhecidos (...) os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Não tendo mais nada para o momento, despedimo-nos cordialmente no aguardo de uma resposta breve e imediata.

Atenciosamente,

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