O Globo, Ciência, p. 22
12 de Mar de 2007
Pandemia de fome e sede
Relatório do clima prevê danos à agricultura, falta de água e expansão de doenças
O planeta atravessa um período de aquecimento global que já afeta a vida de cada ser vivo. Esse será o destaque do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), que será apresentado em abril, em Bruxelas. Parte do relatório, que trata dos efeitos das mudanças climáticas, foi revelada ontem pela agência de notícias Associated Press e traça um cenário de fome, sede, desastre e doença.
Entre seus destaques está o fato de que dezenas de milhões de latino-americanos e centenas de milhões de africanos sofrerão com falta de água em 2020. Em 2050, a escassez afetará um bilhão de asiáticos. Malária, dengue, diarréia e outras doenças associadas à contaminação da água e ao calor matarão cada vez mais nos próximos anos. A fome aumentará. Por volta de 2080, 600 milhões passarão fome.
Os países frios do Hemisfério Norte serão beneficiados pelo aumento de áreas propícias à agricultura devido a temperaturas amenas. Já no Sul ocorrerá o contrário: áreas agricultáveis encolherão. Plantações de soja e canadeaçúcar poderão ser prejudicadas na América Latina, com efeitos visíveis já nos próximos dois ou três anos.
As previsões, baseadas em estudos revisados, são consideradas conservadoras. Tudo o que não foi comprovado ficou de fora. Segundo o IPCC, a Europa perderá as geleiras menores e os lagos encolherão até 2050. No fim do século, metade das espécies de plantas européias estará extinta ou ameaçada. Ursos polares e outros animais serão levados à extinção.
O IPCC - composto por cerca de dois mil cientistas de todo o mundo - prevê que em 2080 a elevação do nível do mar provocará enchentes que afetarão cem milhões de pessoas por ano. O relatório traça um cenário de agravamento da poluição por ozônio nas grandes cidades.
- Tudo está acontecendo muito mais depressa do que esperávamos - disse Patricia Romero Lankao, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA e integrante do IPCC.
No Brasil, mais chuva e invernos quentes
Cientistas alertam sobre urgência de entender melhor como Amazônia influencia clima
Simone Mousse
Cientistas passaram o domingo discutindo o impacto das mudanças climáticas no Brasil. O papel da Amazônia para o aquecimento global e a transformação do clima no país estavam entre os temas do 1oSimpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais, que começou ontem no Rio.
José Marengo, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), mostrou, com números e gráficos, que as temperaturas no Brasil hoje são cerca de cinco graus Celsius mais altas.
- A tendência é que os invernos sejam mais quentes. Também está comprovado o aumento da freqüência de chuvas extremas, que devem crescer ainda mais 5% a 10%, principalmente nas regiões Sul e Norte. No Nordeste, a seca se agravará.
Pedro Leite Dias, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo, destacou a importância de pesquisar o sistema climático da Amazônia, que influencia não só a América do Sul, mas também Europa e Ásia.
- Há atualmente reconhecimento do papel fundamental da Amazônia na regulação do clima. Precisamos entender melhor como esse sistema funciona - disse Dias.
Outro ponto debatido foi a falta de comprometimento dos países ricos com a redução das emissões de gases ligados ao aquecimento global.
Luiz Pinguelli Rosa, presidente do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, ressaltou que os países desenvolvidos não conseguem reduzir seus índices de emissão, sequer para cumprir as metas do Acordo de Kioto, consideradas insuficientes.
Filme de Al Gore hoje no GLOBO
"Uma verdade inconveniente", o documentário sobre o aquecimento global que rendeu um Oscar a Al Gore, será exibido hoje na série Encontros O GLOBO, às 18h30m. Após o filme, haverá um debate com alguns dos maiores especialistas do país sobre o papel do homem nas mudanças climáticas e como seu impacto pode ser reduzido.
Os convidados são Carlos Nobre, presidente do Comitê Científico do Programa Internacional da Geosfera-Biosfera e integrante do IPCC; Sergio Besserman, presidente do Instituto Pereira Passos; Maria Gertrudes Justi, presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia; e Jefferson Simões, vice-delegado do Brasil do Comitê Internacional de Pesquisas Antárticas. A mediação será da jornalista Ana Lucia Azevedo. O auditório fica na Rua Irineu Marinho 35, 4o andar.
O Globo, 12/03/2007, Ciência, p. 22
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