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A PAJELANÇA NA FRONTEIRA AMAZONAS-PARÁ

Amazônia Real - http://www.amazoniareal.com.br
Autor: Renan Albuquerque
19 de Jan de 2015

Na região amazônica, onde se engendram concepções de mundo efetivadas em misturas de crenças, com trânsitos entre o humano e o animal, a pajelança é entendida como sistema religioso. Se muitas vezes assume-se que concepções espirituais moldam o universo mítico da região, a aceitação de pajés se evidencia por sofrimentos vividos no decorrer da preparação da própria pessoa xamânica em função de seu contato com não humanos.

Cultural e simbólico na prática da pajelança são marcados por complexidades que envolvem construções sociais cuja manutenção é fundamental para a perpetuação de determinada sociedade via interiorização da cultura por membros da mesma, tendo a existência remetida a diferentes formas simbólicas de interpretações sobre processos de adoecimento e cura, com sentidos espirituais, religiosos, mágicos ou míticos.

Pajés indígenas e pajés caboclos, detentores de saberes para projeções, têm importância porque há confiança essencial no poder de seus trabalhos, incutida a partir de herança dos antigos Caraíba Tupinambá. No cerne desses posicionamentos, religiosidade e saber tradicional que resistiram ao domínio e à exterminação dos povos indígenas recriaram elementos a partir da introdução de tendências religiosas, fortalecendo a pajelança cabocla.

A prática se integra em contextos de relações sincréticas, via misturas de papeis em que pajés e curadores podem ser também cristãos católicos devotos e ao mesmo tempo presidirem sessões xamânicas.

Na mesorregião do Baixo Amazonas, extremo leste do Estado do Amazonas, a procura de práticas naturais de cura simbólica é rica herança da tradição indígena, que, aliada com a dificuldade de acesso a médicos não tradicionais - recorrência em cidades do interior amazônico - tem concorrido para que procedimentos sobrevivam com a força de representantes, mesmo com o gradativo avanço de fármacos industrializados e da medicina laboratorial.

Em comunidades caboclas onde se praticam trabalhos espirituais de pajelança, há a influência da cultura mágica indígena no trato e também da cultura do negro e do branco. Inserem-se elementos conjuminados da afrodescendência e do marco judaico-cristão às atividades dos xamãs indígenas, que dão vida também à pajelança cabocla.

Presume-se que após cinco séculos de presença do cristianismo e influências do continente africano no cotidiano, a pajelança indígena passou por angulações que naturalmente geraram diversidade de práticas na pajelança cabocla. Poderes sobrenaturais são exercitados em comunidades rurais e ribeirinhas da Amazônia, com adornos de santos combinados com velhos espíritos da selva.

É na pajelança, tanto indígena quanto cabocla, que se buscam respostas sobre vida e morte. É por meio delas que ocorrem vinculações da medicina com a magia. Essas pajelanças, hoje, conservam costumes e fomentam respeito e confiança em tradições - sendo que a força bélica do colonialismo e a pressão da igreja contra os ritos endossaram em certa medida os fazeres míticos, sobretudo a partir do momento em que padres católicos entenderam que o sincretismo os ajudaria a fixar a fé cristã entre povos étnicos no Baixo Amazonas.

* Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios waimiri-atroari, sateré-mawé, hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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