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País retorna para o epicentro ambiental

OESP, Ciência, p. A19
09 de dez de 2004

País retorna para o epicentro ambiental
Para especialistas, o Brasil deverá assumir posições mais ativas após a divulgação do relatório nacional de emissões

Cristina Amorim
Free-Lance para a Folha

A divulgação ontem pelo governo federal do inventário brasileiro de emissões de gases-estufa posiciona o país novamente no centro das discussões sobre mudanças climáticas, contudo com uma responsabilidade maior do que antes, disseram especialistas ouvidos pela Folha.
O relatório, concluído pelo MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia) há dois anos, mostra que o desmatamento é a grande fonte de emissão no país. As chamadas mudanças no uso da terra respondem por 776 milhões de toneladas de CO2, ou 212 milhões de toneladas de carbono.
Para o climatologista Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o documento deve ser considerado uma base, já que as taxas de desmatamento cresceram desde o fim do estudo, em 1994. Na época, a taxa de desflorestamento da Amazônia era de 14.896 km2. Entre 2002 e 2003, o índice bateu os 23.750 km2. Ontem, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, admitiu que as taxas 2003/2004 permanecerão no mesmo patamar, segundo dados preliminares.
O Brasil foi um dos atores mais ativos durante as discussões sobre o Protocolo de Kyoto, acordo global que prevê a redução das emissões de gases poluentes. A delegação brasileira propôs o embrião do MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), que fornece a países pobres meios de inclusão no protocolo, como a comercialização de créditos de carbono.
"Desde 1997, a participação brasileira ficou em branco", afirma o secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, José Goldemberg. "A divulgação do relatório é positiva e tira o esqueleto do armário", diz, "porém, ela precisa neste momento ser acompanhada por uma posição pró-ativa na mesa de negociações, uma vez que o país agora se coloca como um dos maiores emissores [de gases-estufa] do mundo".
O coordenador de campanhas da ONG Greenpeace, Marcelo Furtado, concorda que o Brasil perdeu liderança nas discussões internacionais sobre o clima. "Se o país quiser fazer parte do jogo novamente, é importante sinalizar que há projetos para mudar a tendência de emissão", afirma.
Porém, Furtado acredita que as estratégias existentes atualmente -como o Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica) e o Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia- não passam de soluções paliativas. "De que adiantam planos se não são colocados em prática?", questiona Furtado. Para reverter a posição negativa do Brasil, ele crê que a delegação brasileira na COP-10 (Décima Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU), que acontece em Buenos Aires, precisa mostrar "senso de responsabilidade e comprometimento" para tentar evitar as mudanças climáticas.
Apesar de ter ratificado o Protocolo de Kyoto, o Brasil não faz parte do chamado Anexo 1, o grupo de nações industrializadas que precisa reduzir as emissões de gases-estufa num primeiro momento. Contudo, a divulgação do inventário pavimenta o país entre as nações em desenvolvimento que mais serão pressionadas até 2013, quando deveria entrar em vigor um segundo período de reduções previsto no acordo ambiental.
O país dividirá atenções com duas outras nações em desenvolvimento, Índia e China -que apresentará seu próprio inventário de emissões para a comunidade internacional durante a COP-10 amanhã, ao lado do Brasil.

Conferência coloca pobres e ricos em conflito
As discussões sobre a adaptação dos países à mudança climática ontem, no terceiro dia da COP-10 (Décima Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU), em Buenos Aires, opuseram nações ricas e pobres, acentuando uma divisão que tem sido constante na conferência.
Ao apresentar um estudo sobre o uso de modelos regionais de avaliação de impacto de mudanças climáticas, a pesquisadora norte-americana Linda Mearns questionou a eficácia dos trabalhos feitos por países em desenvolvimento, citando a região da América do Sul.
"Ainda que haja muitos exemplos de estudos regionais de mudança climática, não está claro o real valor disso", disse a pesquisadora. Mearns diz que os modelos regionais têm grande "margem de incerteza", pois emulam um modelo global sem adaptar outros aspectos além da escala espacial. "O que é crítico é que a escala espacial é só uma das incertezas", disse.
O representante do Sudão replicou o questionamento da pesquisadora norte-americana colocando em dúvida a própria ferramenta científica à qual Mearns se dedica. "A meu ver, uma pesquisa sobre o impacto obedece ao objetivo de nos orientar sobre como nos adaptar. Ocorre que os países mais vulneráveis não podem esperar por esses modelos nem precisam que lhes digam que já estão sofrendo impacto", afirmou o sudanês, para concluir que "as pesquisas sobre adaptação são bem mais necessárias do que os estudos de impacto".
O pesquisador Richard Klein afirmou que há "um quebra-cabeças que não se encaixa" entre o conhecimento produzido sobre a mudança climática global e as decisões locais.
A conclusão de Klein é que é preciso encontrar formas atrativas de oferecer informações aos que estão em posição de decidir. O cientista diz que são os fatores sociais que determinam a vulnerabilidade ao impacto da mudança climática.
Klein usou o exemplo da seca que atingiu no mesmo ano a França e a Índia, para justificar sua afirmação de que "ter informações sobre o clima é importante, mas sua análise mostra que os fatores sociais é que determinam o impacto".

FSP, 09/12/2004, Ciência, p. A19

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