CB, Brasil, p. 14
17 de Out de 2007
Padre quer transposição
Religioso deixa o sertão paraibano para fazer protesto no Alvorada em favor da obra do Rio São Francisco. Dom Cappio critica o colega
Renata Mariz
Da equipe do Correio
Depois da greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio, há dois anos, outro sacerdote decidiu se manifestar sobre a transposição do Rio São Francisco. Só que desta vez o protesto é a favor das obras, que ainda não começaram por causa de problemas na licitação.
Vindo da cidade de Santa Cruz, no sertão paraibano, o padre Djacy Pereira Brasileiro vai erguer, hoje, às 9 horas, uma cruz de latas em frente ao Palácio da Alvorada.
O objetivo é pedir ao governo agilidade na execução do projeto. "A cruz de latas significa toda a fome, a agonia, a miséria e principalmente a sede do povo nordestino, que precisa dessa transposição", afirma Brasileiro.
Dom Luiz Flávio Cappio, que se tornou um ícone da luta contra o maior projeto do governo Lula após ficar 11 dias sem comer como forma de protesto, discorda do padre paraibano. "Vivemos num país democrático, ele tem o direito de se manifestar. Mas deve estar muito mal informado para se posicionar a favor da transposição. Todo o povo do Vale do São Francisco está mobilizado contra esse projeto", diz Cappio. Brasileiro, porém, insiste que os nordestinos que sofrem com a seca são favoráveis à transposição. "O povo pobre, que sabe o que é sede, quer o início das obras", afirma o padre.
O racha de opinião dos dois sacerdotes em relação ao polêmico projeto, que vai consumir R$ 4,5 bilhões até 2010, representa bem a falta de consenso dentro da Igreja Católica, que tem grande poder de mobilização junto às comunidades ribeirinhas. Sem nunca se posicionar oficialmente sobre a questão, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) abriga aqueles que são favoráveis e contrários à obra.
"Na Paraíba, a Igreja Católica apóia essa iniciativa", garante Brasileiro. Dom Cappio é menos incisivo. "Isso não é assunto da Igreja, cada um tem uma opinião diferente. Há quem defenda e há quem ataque", explica.
Apesar da controvérsia em torno do tema, as obras não saíram do papel, embora o governo já tenha dado o sinal verde. O problema está na briga das empreiteiras para assumirem os trabalhos. Um grupo de empresas questionou judicialmente a licitação, que ficou suspensa desde julho passado. Há sete dias, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reabriu o processo, deferindo o pedido das empresas que tinham sido impedidas de participar da licitação por conta de mudanças nos critérios de qualificação técnica após a apresentação das propostas.
Tropas
Para não perder mais tempo, o governo federal enviou tropas do Exército ao município de Cabrobó, no sertão de Pernambuco, para começar as obras da barragem que vai dar início à transposição das águas do São Francisco.
A chegada dos oficiais, há cinco meses, acirrou os ânimos entre os movimentos sociais contrários à transposição. "O governo está impondo, de forma autoritária, com o uso do Exército, esse projeto, que só vai beneficiar os industriais da região, e ainda causar danos ao meio ambiente. Vivemos uma ditadura militar", criticou dom Cappio. O padre Brasileiro discorda. "A transposição visa incentivar o desenvolvimento agrário dos pequenos produtores", afirma o sacerdote, recebido em Brasília pelo deputado Marcondes Gadelha (PSB-PB).
"Sou um entusiasta desse projeto e estou prestando apoio ao padre. Ele quis vir, e eu o recebi", explica Gadelha. Segundo o deputado, os argumentos contrários à obra carecem de consistência. "Não são respostas convincentes, técnicas, mas puramente emocionais. O projeto já passou por avaliações ambientais internacionais, foi aperfeiçoado. Vai beneficiar, sim, o nordestino mais necessitado, que precisa da água", afirma o parlamentar. Gadelha recebeu o padre paraibano na terça-feira à noite. Ontem, providenciou o material para que Brasileiro fizesse a cruz de latas. Além de encravar o objeto na porta da casa do presidente, o padre vai protocolar uma carta para Lula, pedindo o início da obra.
Da Diocese do município de Barra, na Bahia, dom Cappio continua sua luta contra a transposição das águas do maior rio do Nordeste, que responde por 70% do abastecimento na região. Cappio mantém uma página na Internet (www.umavidapelavida.com.br) e coordena frentes de mobilização em todo o Vale do São Francisco.
Uma grande manifestação chegará a Brasília no dia 24 deste mês. Trabalhadores rurais sem terra e integrantes de centrais sindicais, entre outros movimentos da sociedade civil organizada, virão à capital protestar contra a transposição. Uma das denúncias que serão formalizadas é a contaminação do rio por algas azuis, que aparecem quando há alto nível de poluição. O problema foi detectado desde a foz do Rio das Velhas, perto de Pirapora, em Minas Gerais, até Bom Jesus da Lapa, na Bahia.
CB, 17/10/2007, Brasil, p. 14
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