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Pacto das águas

O Globo, Opinião, p. 6
24 de nov de 2006

Pacto das águas

O tema ecológico, a cada dia, ganha mais importância; e, dentro deste cenário, ocupa lugar de destaque a questão da água - da sua qualidade, da sua disponibilidade. Todas as avaliações recentes sugerem que, dentro de pouco tempo, esta será uma questão crucial (e até dramática) para muitos países.

O Brasil, neste sentido, ainda tem vantagens; mas pode perdê-las se não souber administrá-las. O processo de conquista do interior aqui realizado nos últimos 50 anos é altamente positivo, lembrando a "conquista do Oeste" vivida pelos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. Mas o avanço da civilização, que foi bater na Amazônia, está causando um forte impacto sobre o meio ambiente.

Pesquisas realizadas nas bacias hidrográficas de Mato Grosso, por exemplo, mostram que essas bacias já perderam de 32% a 43% de sua cobertura vegetal original. Isso acontece num estado que já foi chamado de "o estado das águas", por incluir as nascentes de rios como o Paraguai, o Araguaia, o Tapajós, o Xingu.

E se isso acontece em Mato Grosso, é fácil imaginar a seriedade do tema em outros estados, menos ricos em cobertura vegetal. Modernamente, o único exemplo que se conhece de defesa preventiva dos mananciais é o da região de Curitiba, executado 20 anos atrás na administração Jaime Lerner. De modo geral, o que se vê é a ameaça crescente aos mananciais por ocupações predatórias do terreno onde há cobertura vegetal. No Estado do Rio, a bacia do Paraíba é quase que uma crise contínua, pressionada por fontes inumeráveis de poluição e desmatamento. Reportagem recente do GLOBO mostrou o que aconteceu, no município do Rio, aos rios Carioca, Maracanã e Rio dos Macacos, tão característicos dá nossa geografia urbana. O Carioca foi a primeira fonte de abastecimento de água da cidade, a partir de 1724 - tão importante que deu nome à nossa gente. Poucos metros abaixo da nascente, ele já sofre a pressão da Favela dos Guararapes. Apesar da obra de saneamento feita pela Cedae, a favela continua crescendo, despejando lixo e esgoto no rio. Pequeno exemplo do que significa, no mundo inteiro, a questão das águas.

O Globo, 24/11/2006, Opinião, p. 6

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