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Ouça o ‘Vozes do Clima’! Novo episódio analisa os resultados da Conferência de Santa Marta

Instituto Socioambiental
Autor: Leonor Costa - Jornalista do ISA
19 de Jun de 2026

O Instituto Socioambiental (ISA) lançou nesta quinta-feira (18/06) o novo episódio do "Vozes do Clima", boletim de áudio que conecta povos indígenas, quilombolas e povos tradicionais com o debate climático. Desta vez, o programa traz as vozes de especialistas, lideranças e ativistas socioambientais sobre a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, de 24 a 29 de abril.

Conhecido como Conferência de Santa Marta, o evento reuniu representações oficiais de 57 países, além de cientistas, representantes da sociedade civil e de organizações de povos e comunidades tradicionais. Um dos principais objetivos foi debater formas de implementar a decisão da COP28, realizada em 2023, em Dubai, de eliminar gradualmente o petróleo, o carvão e o gás fóssil. Desde então, as Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas têm avançado lentamente nas estratégias práticas para que esse objetivo seja alcançado.

A realização da Conferência de Santa Marta foi um dos principais encaminhamentos da COP 30, realizada em Belém, no final de 2025. O atual presidente da COP, embaixador André Corrêa do Lago, havia se comprometido a convocar a Conferência, em parceria com os governos da Colômbia e dos Países Baixos, para dar continuidade ao debate sobre o tema, que não teve tantos avanços na capital paraense.

O novo episódio do "Vozes do Clima" tem apresentação de Leonor Costa, jornalista do ISA, e traz as percepções de Luene Karipuna, coordenadora Executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP); de Mariana Belmont, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra; de Cláudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima; e de Ciro Brito, analista de política climáticas do Instituto Socioambiental (ISA).

Ouça o episódio na íntegra abaixo:

 

Enfrentar desigualdades para uma transição energética justa

Na cidade colombiana, a participação da sociedade civil foi um dos pontos mais importantes da Conferência, e organizações brasileiras apontaram alguns avanços.

"Santa Marta representou uma mudança de tática e de foco fundamental. O grande acerto estratégico no encontro foi operar fora do modelo tradicional engessado da ONU, isolando os combustíveis fósseis dos bloqueios diplomáticos liderados pelos grandes produtores de petróleo. Então isso permitiu o avanço de uma coalizão de países e movimentos dispostos a agir sem precisar esperar por um consenso global, que é muito moroso", afirmou Ciro Brito, que representou o ISA no evento internacional.

Segundo ele, os debates giraram em torno de pensar estratégias sobre como a redução da emissão de gases de efeito estufa deve acontecer. "Pela primeira vez o centro das discussões de um fórum internacional deixou de ser a redução de emissões, que é o efeito, e passou a apontar diretamente para a produção de combustíveis fósseis, que é a origem. O debate superou a barreira de discutir se o petróleo, o gás e o carvão devem ser eliminados, focando em desenhar as estratégias práticas de como isso deve acontecer", explicou.

Mariana Belmont, do Geledés, destacou a importância da participação da sociedade civil nos resultados obtidos em Santa Marta. Para ela, não é possível falar em transição energética justa sem enfrentar desigualdades - como o racismo ambiental - produzidas pelo modelo de dependência global dos combustíveis fósseis.

"A gente vem construindo para que esse caminho da menção ao racismo ambiental também seja uma prioridade em documentos e discussões nacionais e internacionais. Com um olhar de denúncia, de reparação, de produção de política, que olhe para as pessoas mais impactadas, protegendo essas pessoas. Acho que a maioria dos documentos trouxe essa perspectiva e isso é muito importante. E a gente precisa que isso esteja não só no setor de afrodescendente e de povos indígenas e comunidades tradicionais, mas ampliado em outras discussões da sociedade civil e de governos no modo geral", defendeu.

Fim da exploração em territórios indígenas

Dados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) apontam que em toda a Bacia Amazônica mais de 320 mil km² de terras indígenas já são diretamente afetados por 567 blocos petrolíferos ativos, sendo 189 deles em terras brasileiras.

Luene Karipuna contou em entrevista ao "Vozes do Clima" que durante a Conferência de Santa Marta, povos indígenas brasileiros exigiram o bloqueio de novas frentes exploratórias e o reconhecimento dos seus territórios como zonas de exclusão para atividades fósseis.

"Nós, povos indígenas do Brasil, levamos o mapa do caminho para a transição energética construída pelos povos e também efetivada dentro do nosso Acampamento Terra Livre deste ano, que foi não só cobrar uma transição energética, mas mostrar o caminho que é necessário considerar os territórios como zonas de vida, zonas de proteção e zonas essenciais para poder proteger a vida. O nosso posicionamento é superar a dependência econômica dos combustíveis fósseis e garantir essas zonas de exclusão dos nossos territórios", defendeu.

Desafios do Brasil

Já quase ao final da Conferência, o Ministério de Minas e Energia apresentou uma proposta de Plano Nacional de Transição Energética que, no entanto, prevê a manutenção de petróleo, gás e carvão mineral na matriz brasileira até 2055. Mas a proposta não foi reconhecida por parte da sociedade civil como o mapa do caminho brasileiro.

Ativistas defendem que este documento deve propor uma transição energética real, e não a manutenção da produção, exportação e consumo de combustíveis fósseis ainda por tantos anos.

No entanto, na avaliação de Cláudio Ângelo, o Brasil ainda tem questões a enfrentar no desenvolvimento de um mapa do caminho, mas lida com um contexto mais favorável que muitos países do mundo. O desafio, segundo ele, é superar a dependência econômica.

"As dificuldades do Brasil em resolver o seu problema de combustíveis fósseis dentro de casa são muito menores do que em vários outros países em desenvolvimento e em vários países desenvolvidos também. O que a gente precisa é lidar com o fato de que o Brasil é um grande exportador de petróleo, é o item número um da nossa pauta de exportações e a gente depende da receita de combustível fóssil. Então, é essa dependência fiscal, essa dependência econômica que a gente precisa lidar", analisou.

O que é o "Vozes do Clima"?

O boletim de áudio "Vozes do Clima" é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF), e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática.

A identidade visual foi concebida pelas designers e ilustradoras indígenas Kath Matos e Wanessa Ribeiro. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.

Leia também ISA lança "Vozes do Clima", boletim de áudio com informações sobre a pauta climática para povos e comunidades tradicionais

Este é o nono episódio da segunda temporada do "Vozes do Clima", que contará com um total de 12 edições e abordará os diversos debates sobre clima e a pauta socioambiental.

https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/ouca-o-vozes-do…

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