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Os Zo'é não vivem numa "redoma"

Blog do Jeso - http://www.jesocarneiro.com.br/
Autor: Jeso Carneiro
05 de dez de 2010

Da indigenista e comunicóloga Rosa Cartagenes, sobre o post (e comentários) Funai abandona índios Zo'e, denuncia TV:

Caro Jeso,

Decidi me pronunciar unicamente porque citada, assim como o AMAZOÉ -Apoio Mobilizado ao Povo Zo'é e Outras Etnias - associação civil a qual coordeno - de modo descontextualizado e desinformado aqui em sua "esfera", em postagens anteriores.

No entanto, reitero que minhas considerações são pessoais, enquanto cidadã e indigenista, não representando eventuais posições da FUNAI - órgão oficial com o qual colaboro, mas do qual não faço parte.

Reportando-me à informação oficial, esclareço que o número de membros do povo Zo'é que estiveram recentemente nos Campos Gerais do Erepecurú foi 96 indivíduos, e não 139 - este último "dado", divulgado pelos referidos "castanheiros" envolvidos.

Gostaria de colocar como premissa inicial o fato, antropologicamente bastante estudado, que as sociedades Tupi são por natureza "sociedades andarilhas" - prática social que alguns chamam de "nomadismo", "perambulação", "deambulação" entre vários outros rótulos (rotular é uma obsessão da nossa sociedade). Tal caminhar constante apresenta vários contextos: sociais, econômicos, cosmológicos, mas certamente relacionados ao perfil de auto-sustentação dos povos chamados "caçadores-coletores".

E os Zo'é são caçadores-coletores-agricultores, de cultura Tupi-Guaraní. Desnecessário discorrer aqui sobre a importância desta auto-sustentação, já que a autonomia produtivo-econômica de qualquer grupamento humano é a base de sua independência em muitos aspectos. Quem conhece ao vivo a eficiência, a tecnologia primorosa e a justiça ecológica de um arco e flecha Tupi jamais questionaria o desnecessário e danoso de uma arma-de-fogo "civilizada" num contexto de vida coletiva auto-sustentável.

Afirmo, alicerçada num convívio de muitos anos, que os Zo'é sempre foram livres em suas andanças, e mesmo estimulados a estas: isto tem sido fator primordial na recomposição de sua de vitalidade cultural e retomada de suas áreas de ocupação geográfica tradicionais.

É em seu livre caminhar e abrir novos caminhos que ocorre a plenitude da vida Zo'é - caçadas, pescarias, namoros, casamentos, alianças , evitações, vida cerimonial. Ao contrário, na época imediatamente após o "contato" promovido pela MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil, anos 80), os Zo'é foram progressivamente sedentarizados no entorno da base da referida Missão, atraídos pelas benesses materiais imediatas ali disponibilizadas - roupas, panelas , facas e objetos afins - justamente para mantê-los agregados à influência missionária. Não é uma dedução: é histórico comprovável, e tratava-se de prática política usual de todas as "agências" (inclusive governamentais) que objetivavam o "contato" com etnias em isolamento.

Sedentarizados e congregados, "coisa" totalmente fora de seus padrões tradicionais de ocupação e dispersão territorial, ocorreu a concentração de incidência malárica, tornando-a endêmica. Não se trata de uma acusação: é comportamento epidemiológico cientificamente estabelecido e comprovado em relação à malária e outras endemias. Concentração demográfica é um dos fatores preponderantes para o ciclo de infecção-contágio-propagação de patologias. Adensamento de contato físico e contigüidade geográfica promovem difusão de doenças. Em doenças transmitidas por vetores (no caso, o carapanã), concentração populacional também atrai concentração vetorial: gente= fonte alimentar do transmissor. E soluções dependem de boas práticas em vigilância sanitária, rigorosas e eficazes, bastante dificultadas num contexto de aldeia e floresta.

O discurso dos Zo'é como "prisioneiros" tem sido tendenciosamente baseado em perspectivas proselitistas - à medida que religiosos (de quaisquer credos) são impedidos formalmente pela FUNAI de adentrar a territórios indígenas de povos ou frações consideradas isoladas ou de recente contato. Missionários repetem exaustivamente na mídia que os Zo'é foram "expostos ao mundo" e "isolados do acesso ao evangelho". E esse eterno rótulo de "isolados" para os Zo'é é de uma improcedência sociológica abissal: como se alguma sociedade humana ficasse cristalizada em tempos ou geografias.

No início de 2010, a FUNAI redimensionou a CGIIRC - Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, reiterando o reconhecimento público de que as sociedades indígenas, como todas as sociedades humanas, estão sempre e em constante movimento, e as transições e transformações em curso no seio delas não cabem meramente num rótulo de "Isolados".

Há vários anos os Zo'é são reconhecidos juridicamente como "sociedade indígena de contato recente". E isto é uma superação jurídica fantástica, pois antes da Constituição atual, a única legislação a respeito - o Estatuto do Índio - só "permitia" 03 categorizações para os "índios" ("índio" também é um rótulo, e inventado por nós): "isolados", "em vias de integração" e "integrados".

Qualquer pessoa com mínima sensibilidade social sabe que no Brasil não existe nenhum povo indígena realmente "integrado", mas existem muitíssimos povos e indivíduos indígenas em processo de franca desintegração! "Integração à comunhão nacional" foi um sonho positivista dos tempos do General Rondon, baseado numa perspectiva evolucionista que, pedagogicamente, povos "selvagens" iriam se "civilizando" até tornarem-se bons e pacatos trabalhadores brasileiros.

Numa sociedade discriminatória e espoliadora, a única possibilidade de integração efetiva do índio é padronizá-lo nos moldes ocidentais de tal forma que destrua toda sua essência cultural e humana diversa. E entregá-lo às camadas mais desvalidas e vilipendiadas da população, aquelas que as estatísticas estabelecem como "abaixo da linha da pobreza". Um exemplo cabal são os povos Guaraní (de mesma família lingüístico-cultural que os Zo'é), os quais, mesmo após 500 anos de relacionamento com a sociedade nacional, mesmo vestidos, alfabetizados, "educados" e supostamente "integrados ao mercado de trabalho", continuam massacrados pela jagunçada do latifúndio, escravizados e sob uma violência de direitos tamanha que têm sido classificados pela Comissão de Direitos Humanos da ONU como "sob ameaça permanente de genocídio"*.

Há comunidades Guarani com até 10 igrejas de "seitas evangélicas" diferentes, além da igreja católica, loteando a influência religiosa em meio a sua miséria. É o mais alto índice de suicídio proporcional entre todas as populações do planeta - e os suicídios acontecem majoritariamente entre adolescentes e jovens.

Certamente os Zo'é nunca foram impedidos de saírem de seu território: são homens livres! Lembremos, inclusive, que quem inventou que "seu território" dispõe dos limites físicos ora estabelecidos - no interflúvio dos rios Cuminapanema, Erepecurú e Urucuriana, municípios de Óbidos e Alenquer- também fomos "nós", ocidentais, e não eles. Pelo menos desde o séc.XVIII há registros etnográficos de intenso trânsito indígena nos chamados Campos Gerais do Erepecurú. Os "brancos" se estabeleceram por lá bem depois disto.

O conceito geográfico-cosmológico dos Zo'é a respeito de limites físicos é muito interessante: o mundo tem "bordas", mas estas bordas se ampliam na medida em que forem conhecidas...É um belíssimo conceito de "universo em expansão" que seria admirado por qualquer físico e astrônomo pensante! As sociedades Tupí trazem em si esta maravilhosa concepção humana de desejo e amplitude permanente de conhecimento.

Na última década, sobretudo em função da acelerada ocupação e expansão de modelos econômicos predatórios no noroeste do Pará (principalmente monocultura da soja e agropecuária extensiva), os Zo'é têm sido, solidariamente, aconselhados a não ultrapassarem as "bordas fixas" que inventamos para eles. O motivo é evidente: fora de "seu território", ficam muito mais expostos a inúmeros riscos - do contágio de doenças graves para as quais ainda não desenvolveram imunidade, à exploração de mercenários e aventureiros que costumam integrar as frentes de expansão em território amazônico: garimpeiros, madeireiros, "gateiros", extrativistas ilegais, traficantes e, inclusive, fanáticos religiosos - alguns dos quais capazes de qualquer tipo de estratégia ou aliança escusa para propagarem sua "fé".

Tradicionalmente afáveis e cordiais, os Zo'é "normalmente" (mas isto está mudando) conseguem ser simpáticos com qualquer pessoa que lhes apareça no caminho.

O evento recente dos Zo'é nos Campos Gerais assume um triste contorno não pela distância percorrida ou pelo inusitado quantitativo - sabemos de indivíduos e grupos que já "andaram" bem mais longe. Mas por ser resultante de mais um incidente de manipulação direta da credulidade e "ansiedades" de um povo pelos interesses anti-indígenas na região.

Missionários jamais virão a público dizê-lo, mas desde sua expulsão da T.I. têm patrocinado e efetivado diversas invasões ao território Zo'é, sempre com o intuito de aliciá-los e atraí-los para "fora" - onde supostamente poderiam, à margem da lei, "evangelizá-los" à vontade. Para invadirem a T.I., utilizam exploradores regionais envolvidos com todo tipo de ilicitude na região.

Nos últimos anos, têm manipulado como pontas-de-lança indígenas cristianizados de outras etnias do entorno, como os Wai-Wai e os Tiryió, para adentrarem furtivamente aos aldeamentos Zo'é, levando "presentes" (os de sempre: roupas usadas, panelas, plásticos, "comida de branco", espingardas.. e inclusive algumas epidemias) e sempre os convidando "para fora". Várias denúncias e documentos comprovatórios a respeito foram ao longo dos últimos anos arrolados junto ao MPF/Procuradoria Geral da República, justamente porque tais "visitas", totalmente manipuladas, têm trazido aos Zo'é doenças, desequilíbrios políticos internos, estresse social, insegurança e até mesmo mortes. Há muitos anos o MPF acompanha o trabalho junto aos Zo'é, e vários procuradores da República se fazem presentes, avaliando e avalizando a positiva ação governamental ali desenvolvida.

Infelizmente, tudo o que temos é a palavra dos Zo'é contando sua versão do evento como "prova testemunhal". Mas basta assistir aquelas imagens - uma turba de homens, mulheres e crianças famintos, estropiados, assustados, "travestidos" com andrajos de última hora "gentilmente" doados pelos "castanheiros cineastas", claramente induzidos à repetição do remoque "Funai não dá...João não dá"... Quanta manipulação e desrespeito com um povo. Nada da beleza, da serenidade e da vitalidade do dia a dia. "De quebra", a mediocridade da reportagem da TV Atalaia (retransmissora da Record, claro) repetindo que os Zo'é eram índios "aculturados" porque vestidos. Deplorável. E sabe-se que pelo menos um dos referidos "trabalhadores da castanha" ali presentes é relacionado desde os anos 80 com missionários envolvidos no "contato" dos Zo'é, e já foi processado pelo MPF como invasor de terra indígena e aliciador.

A história e a sobrevivência da sociedade Zo'é são questões muito complexas para se resumirem em espaços midiáticos de blogsferas ou do sensacionalismo de TVs. A atuação, inédita, que a FUNAI e sua equipe têm desenvolvido ali não é referenciada em "antropólogos de meia-tigela" ou "jardins antropológicos" de "índios pobres": os Zo'é são, ainda, uma sociedade da fartura, da saúde, sem órfãos, sem caciques, sem patrões. Colocar os Zo'é como índios oprimidos, com ou sem roupa, revela total desconhecimento de sua cultura, seu cotidiano e do trabalho árduo e dedicado de mais de uma década que devolveu aos Zo'é sua saúde, sua integridade cultural, seu território tradicional, sua vida em plenitude.

Como diz "A Palavra": a boa árvore se conhece por seus bons frutos..pelos frutos os conhecereis. Dispor dos índices de saúde apresentados pelo Dr.Erik e atestados por todos os profissionais que ali já estiveram (médicos, sanitaristas, advogados, jornalistas, ambientalistas, documentaristas; "turistas", nunca) só demonstra um caminho muito positivo de esperança para um povo que poderia estar condenado ao genocídio (como tantos outros) desde seu virtual "contato". Os Zo'é não têm um quadro excelente de saúde apenas por disporem de atendimento médico exemplar, mas sobretudo porque têm respeitados seu modo de ser e de viver, seus parâmetros sociais, seu pensamento cosmológico e seu conhecimento ancestral, sua diversidade cultural e humana. E temos muito a aprender com eles.

Como toda sociedade humana e diversa, os Zo'é têm seus próprios ritmos, desejos, questionamentos, interpretações e possibilidades. Atualmente, mais de 75% de sua população tem menos de 25 anos - massa explosiva e "hormonal", com a ânsia legítima de tudo ver, tudo conhecer, tudo querer. As pressões externas e internas têm sido muitas e crescentes, precipitando mudanças, crises e indecisões coletivas. Isto é previsível, histórico e faz parte das relações humanas e político-sociais.

Não existe "redoma", e os Zo'é estão, e sempre estiveram, em constante transformação. Evidentemente o órgão indigenista oficial e todos os agentes sociais envolvidos têm de repensar, reelaborar e inovar permanentemente em suas ações para relacionamentos interétnicos mais justos e profícuos. Este é um processo constante, e como tudo que é humano, dinâmico.

Certamente, muito há a se refletir, analisar e redimensionar. E muito há, ainda, a se proteger. Não se trata de discutir crenças ou reportar acusações, o que é contraproducente. Trata-se da salvaguarda, inclusive física, de uma minoria étnica em clara situação de desvantagem e vulnerabilidade diante da fagocitose de amplos segmentos que ambicionam seus corpos físicos, terras, recursos naturais, patrimônio cultural e até mesmo suas "almas".

Aos Zo'é, o pleno direito de serem Zo'é, e o amparo legal do Estado para que este povo construa seu futuro em segurança, com um tempo necessário para o desenvolver de sua própria criticidade e seus caminhos possíveis, sem terem de se transmutar em "mais um" na vala comum dos párias sociais.

Que a sociedade paraense reflita e se informe um pouco mais sobre as graves ameaças aos últimos povos livres da face da Terra, e ao menos remotamente perceba o privilégio de abrigar (e defender) em seu seio um povo único, belo, e ainda não canibalizado pela padronização global.

Atenciosamente,
Rosa Cartagenes**

*Sobre o genocídio Guaraní: http://assets.survival-international.org/documents/208/Survival_Guarani… . Sugiro também o ótimo e premiado filme "Terra Vermelha" (La Terra Degli Uomini Rossi/Birdwatchers) para reflexão a respeito - até na videolocadora Fox em Santarém, tem.

**Indigenista, inspetora sanitária (SES-DF) e comunicóloga (UFRJ). Sou colaboradora voluntária junto aos Zo'é desde 1998. Coordeno a associação civil AMAZOÉ, que é tão somente um pequeno grupo de profissionais e amigos que conhecem, respeitam e admiram o povo Zo'é, igualmente comprometidos com o apoio integral a este povo. Enquanto comunicadora, dedico-me à difusão das questões relacionadas à sobrevivência dos últimos povos indígenas autônomos no planeta: http://www.amazoe.org.br/noticiasgerais1.html

Para saber mais sobre os Zo'é:

http://www.amazoe.org.br/textoreferencia/os_zoe_e_a_nova_marcha_para_o_…

http://www.amazoe.org.br/textoreferencia/ensaio_livro_tupi.pdf

Permaneço disponível para informações adicionais em: amazoe@amazoe.org.br

http://www.jesocarneiro.com.br/oeste-do-para/os-zo%E2%80%99e-nao-vivem-…

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