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Os vilões brasileiros do efeito estufa

OESP, Geral, p. A10-A11
20 de jun de 2004

Os vilões brasileiros do efeito estufa
Desmatamentos e queimadas poluem mais do que a queima de combustíveis fósseis

Herton Escobar

Quando se fala em efeito estufa e aquecimento global, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é o escapamento de um ônibus ou a chaminé de uma indústria soltando fumaça. Para a maior parte do mundo industrializado, essa é a visão correta. Nos países em desenvolvimento, entretanto, pode não passar de uma ilusão. No Brasil, especificamente, o mais correto seria pensar em uma floresta em chamas ou num pasto de gado. Segundo dados preliminares do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), as mudanças no uso da terra no País - incluindo queimadas e desmatamentos - lançam muito mais dióxido de carbono na atmosfera (75%) do que a queima de combustíveis fósseis (25%).
Só os desmatamentos na Amazônia são responsáveis por mais de 60% da emissões nacionais, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma organização não-governamental (ONG). "A Amazônia pode ser encarada como um grande estoque de carbono estável que, se cortado e queimado, contribuirá significativamente para o efeito estufa", diz o pesquisador Paulo Moutinho, do Ipam. "Para se ter uma idéia, o estoque de carbono retido na floresta equivale a dez anos de emissões antrópicas - aquelas que resultam de atividades humanas - no mundo."
Pelos índices atuais de desmatamento - 23.750 quilômetros quadrados só no ano passado -, a floresta destruída lança cerca de 200 milhões de toneladas de carbono anualmente na atmosfera. Por outro lado, as emissões anuais por queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral) somam "apenas" 80 milhões de toneladas, segundo Moutinho. "Não podemos deixar de reforçar que a chaminé e o escapamento também são responsáveis pelo problema", diz o pesquisador. "Mas, sem atacarmos a questão do desmatamento tropical, o Brasil continuará emitindo muito gás de efeito estufa, apesar de seus esforços em seqüestrar carbono por meio de plantação de florestas."
Ao crescer, os vegetais absorvem gás carbônico da atmosfera e incorporam parte desse carbono, que fica estocado na planta até ela morrer e se decompor. Quando uma floresta é desmatada e queimada, esse carbono é liberado novamente para a atmosfera e acaba contribuindo para o aumento do efeito estufa - a não ser que haja um novo crescimento vegetal para reabsorvê-lo. Enquanto houver mais desmatamento do que reflorestamento, portanto, a contribuição das florestas para a manutenção do clima do planeta será negativa.
Fogo - Em termos globais, os combustíveis fósseis ainda são, de longe, os grandes vilões do aquecimento global, responsáveis por cerca de 75% das emissões - o contrário do cenário brasileiro.
Comparativamente, entretanto, o impacto da perda de cobertura vegetal chega a ser assustador. Pelos cálculos do pesquisador João Andrade de Carvalho Júnior, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Guaratinguetá, cada quilômetro quadrado de floresta tropical queimada equivale, em média, a 6.820 automóveis queimando gasolina por um ano. Os 23.750 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia no ano passado, portanto, equivalem às emissões de 162 milhões de automóveis (Veja quadro).
Carvalho Júnior é coordenador do Projeto Combustão de Biomassa Amazônica, que há sete anos estuda a dinâmica do fogo e das emissões de gases na floresta. O trabalho é realizado em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além de pesquisadores americanos. Os cientistas utilizam pequenas áreas de vegetação nativa no norte de Mato Grosso para reproduzir as técnicas de queimada usadas pelos fazendeiros e ver como o fogo e a vegetação se comportam nessa situação.
Uma característica curiosa da Amazônia é que ela quase nunca queima de pé, porque a umidade presente na vegetação é muito grande. Para botar fogo na floresta, portanto, é preciso derrubá-la primeiro. Normalmente, os fazendeiros cortam as árvores em março e fazem a queimada em agosto, quando a vegetação já teve tempo de secar. O primeiro fogo, segundo os pesquisadores, normalmente consome cerca de 50% da biomassa, que é transformada em gases para a atmosfera. Já os troncos que permanecem no terreno podem continuar queimando - e emitindo gases - por mais de um mês, mesmo com a chegada das chuvas. "É como se fosse um charuto de madeira, soltando fumaça constantemente", diz o pesquisador Carlos Gurgel, da UnB.
A temperatura do solo embaixo do tronco pode passar dos 300C, suficiente para tostar sementes e microorganismos. "O fogo passa rapidamente e não afeta tanto o solo. Mas onde o tronco queima fica um rastro de morte", afirma Gurgel. "Você acha que o incêndio acabou, mas o processo continua vivo."
Agropecuária - Outras fontes importantes que contribuem para o efeito estufa no mundo são a agricultura e a pecuária. No Brasil, com uma das maiores áreas agrícolas do mundo e um boi ou vaca para cada um dos seus 170 milhões de habitantes, não poderia ser diferente. A digestão dos bovinos produz gás metano, com 23 vezes mais poder de aquecimento na atmosfera do que o CO2. E cada cabeça, pelos cálculos do MCT, libera 60 quilos de metano por ano.
Na agricultura, as emissões ocorrem pelo processo de aragem, quando o agricultor revolve o solo em preparação para o plantio. Segundo o especialista Carlos Cerri, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, o solo fica oxigenado e há um aumento da atividade microbiológica de decomposição, o que resulta em emissões elevadas de dióxido de carbono. Nas plantações de arroz alagado, o problema é o metano, liberado também por microrganismos na ausência de oxigênio. Já os fertilizantes em geral decompõem o nitrogênio orgânico do solo e liberam óxido nitroso, 295 vezes mais nocivo que o dióxido de carbono.
A atividade, segundo Cerri, causa um acúmulo anual de 3,2 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Sem contar os eventuais desmatamentos que tenham ocorrido para abrir a área de plantio. "A agricultura sempre foi vista como um grande emissor. Mas, com o uso de tecnologias modernas, podemos fazer o inverso ou, no mínimo, emitir menos." A principal delas é o plantio direto, pelo qual o agricultor não revolve o solo. Segundo Cerri, a técnica já é praticada em quase 20 milhões de hectares no Brasil (65% da área de produção de grãos) e proporciona o seqüestro de 0,5 tonelada de carbono por hectare/ano.

País concluirá inventário de emissões no mês que vem
Falta apenas um capítulo, sobre desmatamento, no trabalho iniciado em 1996

Os números completos sobre gases do efeito estufa no Brasil só deverão estar prontos no fim de julho, quando o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) espera concluir o último capítulo do inventário nacional de emissões. O trabalho, iniciado em 1996, é um dos compromissos assumidos pelo Brasil como signatário da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que mais tarde deu origem ao Protocolo de Kyoto. Falta apenas mais um relatório, justamente sobre as emissões do desmatamento, que são as mais difíceis de calcular.
"Não é uma coisa trivial. Tivemos de estabelecer metodologias para todos os setores", explica o secretário-executivo da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, José Miguez. Isso significa saber o nível de atividade de cada setor da economia e estabelecer um fator de emissão para cada um - desde a quantidade de metano produzida no intestino de um boi até o montante de CO2 emitido pela fornalha de uma pizzaria ou de uma indústria.
"O caso do Brasil é extremamente complicado porque temos praticamente todo tipo de atividade humana, mas não um sistema de informações tão desenvolvido quanto no Primeiro Mundo", observa Miguez. "Não sabemos nem o tamanho da frota de veículos do País. É um caos. Tivemos de criar informações para quase tudo."
No caso dos desmatamentos, a quantidade de gases emitidos depende da densidade e do tipo de vegetação. Os números divulgados até agora, segundo Miguez, são baseados em extrapolações de medições localizadas. Mesmo dentro da Amazônia, a cobertura vegetal varia muito de uma região a outra. As emissões para um hectare desmatado de floresta densa são diferentes das de um hectare de floresta de transição, assim como as de uma fábrica de papel são diferentes das de uma de tecidos. E as de um campo de soja são diferentes das de um campo de arroz alagado.
Outro fator complicador: a Convenção do Clima determina que toda árvore cortada deve ser computada como carbono emitido. Para Miguez, porém, é preciso levar em conta o destino da madeira - se vira lenha, papel, móvel ou alvenaria. Afinal, o carbono só é realmente liberado quando o material é queimado ou se deteriora. "No Brasil, 85% do desmatamento vira carbono e só 15% é queimado", diz. "Se você considera que tudo o que foi desmatado foi imediatamente emitido, terá um número superestimado."
Mesmo no inventário final, admite Miguez, os números não serão exatos. "A idéia é obter ordens de grandeza", afirma. "O importante é que estabelecemos metodologias que permitirão fazer medições mais aproximadas daqui para frente." Também não será possível dizer quanto o Brasil emite por um único número. Em vez disso, o inventário trará o total de emissões para cada gás individualmente: dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, CFCs, etc. "Não dá para somar pêras com maçãs."
A contribuição anual do Brasil é estimada em 3% do total de gases do efeito estufa lançados na atmosfera. Historicamente, entretanto, essa participação é de apenas 1%, afirma Miguez. "O problema para o clima não são as emissões anuais, mas o acúmulo dessas emissões ao longo do tempo." As moléculas do efeito estufa podem ficar centenas ou até milhares de anos na atmosfera. Por isso só os países mais industrializados - que poluem há muito mais tempo - teriam de reduzir suas emissões pelo Protocolo de Kyoto. "Nossa contribuição é pequena, porque é muito recente. Mesmo se encerrássemos nossas emissões, isso só resolveria 1% do problema."
Os maiores poluidores do mundo são os Estados Unidos, responsáveis por mais de 30% das emissões de gases na atmosfera, em especial pela queima de combustíveis fósseis. (H.E.)

Acúmulo histórico de gases. Eis o problema
A questão é que eles estão sendo lançados na atmosfera em quantidade maior do que a sustentável

Os gases do efeito estufa - dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), principalmente, - ocorrem naturalmente e são essenciais para a manutenção da vida na Terra. Sem eles, toda a radiação solar que chega ao planeta seria refletida de volta ao espaço e a temperatura média global seria de gélidos 18 C negativos, em vez dos confortáveis 15 C, segundo o professor Carlos Cerri, da Universidade de São Paulo.
O efeito estufa funciona como um cobertor que envolve a Terra e mantém parte do calor do Sol aprisionado na atmosfera. O problema com o aquecimento global é que esse cobertor está ficando grosso demais e esquentando mais do que deveria. O homem, no fim das contas, está lançando mais gases na atmosfera do que a Terra é capaz de reciclar. Dos cerca de 7 bilhões de toneladas de gás carbônico emitidos anualmente por atividades humanas, 3,2 bilhões permanecem na atmosfera, segundo Cerri.
O CO2 é o mais preocupante porque ocorre em maior quantidade, apesar de o CH4 e o N2O, molécula por molécula, absorverem muito mais calor.
Se nada for feito para reduzir as emissões, a previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é de que a temperatura média da Terra subirá entre 1,4 C e 5,8 C até 2100 - suficiente para derreter as calotas polares e alterar radicalmente o clima do planeta.
Na tentativa de reverter essa tendência, foi assinada em 1992 a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e a partir dela, em 1997, o Protocolo de Kyoto. O acordo determina que os países mais industrializados deverão reduzir suas emissões em cerca de 5% até 2012, tendo como base os índices registrados em 1990. Países em desenvolvimento, como Brasil e China, também são signatários, mas não têm obrigação de cortar emissões.
Para entrar em vigor, entretanto, o protocolo precisa da ratificação de 55 países que, somados, representem pelo menos 55% das emissões mundiais. Para isso, falta a adesão da Rússia. (H.E.)

OESP, 20/06/2004, p. A10-A11

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