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Os realizadores indigenas, da aldeia para o mundo

O Globo, Prosa e Verso, p.2
06 de Mar de 2004

OS REALIZADORES INDÍGENAS, DA ALDEIA PARA O MUNDO
Na mostra no CCBB, filmes apresentam olhar que os povos nativos têm de si própriosEra assim que os nossos avós batiam o timbó”, mostram os meninos Ikpeng no lago, alegres e extasiados com o efeito entorpecente da planta sobre os peixes. As meninas Ikpeng — povo também conhecido como Txicão, que mora no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso — também riem o tempo todo com suas brincadeiras e circulam pela aldeia para apresentá-la no vídeo Das crianças Ikpeng para o mundo”, realizado por três índios da tribo: a moça Natuyu Yuwipo Txicão e os rapazes Karané e Kumaré Txicão, que vão participar da mostra Um Olhar Indígena, que acontecerá entre 19 e 25 de abril no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio. Uma das meninas, diante da antiga rede em que dormiam seus avós, comenta: Não sei como eles agüentavam o frio”. O vídeo, que nasceu para ser uma resposta a outro realizado na Sierra Maestra com crianças cubanas apresentando sua comunidade, tornou-se uma carta aberta ao mundo: os pequenos Ikpeng, curiosos e espontâneos, pedem a outras crianças que lhes enviem vídeos sobre como brincam e passam seus dias. — Aí está a grande diferença e o aspecto mais inovador do trabalho deles: filmam em sua própria língua, dentro de sua própria aldeia, compartilhando os mesmos códigos socioculturais e históricos com os personagens” de seus filmes. É um bom exemplo do que os realizadores indígenas estão produzindo com o apoio do Vídeo nas Aldeias — conta Mari Corrêa, que trabalha com Vincent Carelli na organização não-governamental que, desde 1987, tem equipado as aldeias com câmeras. Os vídeos, muitos já realizados pelos próprios indígenas, circulam por todo o Brasil entre diferentes povos. Dessa forma, a tecnologia permite com que eles se conheçam melhor. Na mostra, serão exibidos 45 filmes, alguns dirigidos pelo próprio Vincent Carelli. Também estão sendo organizados debates, dos quais devem participar, entre outros, Jean Claude Bernadet, Ailton Krenak, Isaac Pinhanta (Ashaninka). Um dos temas será a especificidade do olhar dos índios, que se tornam autores e donos do seu destino. Outro tema será a imagem deles nos meios de comunicação, sobretudo a TV. Além disso, a mostra será um set de filmagem: os índios virão munidos de câmeras para registrar a reação dos não-índios diante de suas histórias. (Rachel Bertol)

O Globo, 06/03/2004, p. 2

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