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"Os problemas da Amazônia são globais" diz cientista alemão

CB, Mundo, p. 27
Autor: DUTSCHKE, Michael
13 de Nov de 2007

"Os problemas da Amazônia são globais" diz cientista alemão

Entrevista: Michael Dutschke

Rodrigo Craveiro

A convite do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o cientista alemão Michael Dutschke falará às 14h de hoje na Subcomissão Permanente de Mudanças Climáticas do Senado. Um dos autores do quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Dutschke vai propor aos parlamentares uma parceria entre Brasil e Alemanha. A cooperação visa um trabalho conjunto entre a União Européia e o G-77. Ele vai sugerir um intercâmbio para estudos sobre adaptação e mitigação do aquecimento global. Em entrevista ao Correio, Dutschke defendeu a internacionalização da Amazônia e afirmou que o Brasil precisa ser mais ativo em relação ao aquecimento global.

Abrir a Amazônia para pesquisas mundiais seria uma saída para mitigar o aquecimento global?

O tema da internacionalização da floresta amazônica é recorrente no Brasil e sempre cria uma grade polêmica. Não vejo problema na internacionalização ou na perda de soberania. Poucos países no mundo querem ter responsabilidade sobre a Amazônia, que é algo muito grande. Qualquer tratado internacional traz consigo um troco, uma certa perda de soberania. Não existe soberania absoluta num mundo interligado. Os problemas da Amazônia também são internacionais, globais. Por isso, uma cooperação em matéria de pesquisa e o fortalecimento da institucionalidade não é algo que atinja a governança brasileira. O maior problema da Amazônia é o desmatamento ilegal. Vejo aí a questão da institucionalidade e da eficiência das instituições, além da aplicação das leis. Não existe soberania interna na Amazônia ainda.

E de que maneira a floresta deve ser manejada?

Muita polêmica emerge quando se fala da conservação ambiental. Concordo que, sendo parte do Brasil, a floresta precisa ser parte do desenvolvimento econômico. Você não vai fazer da Amazônia um parque. É preciso um manejo sustentável e uma proteção de áreas críticas para a biodiversidade, dentro do próprio interesse do Brasil.

Como tratamos a Amazônia?

No âmbito da Convenção Climática, vejo uma participação ativa do Brasil. Nem sempre eficiente, porque parte muito das próprias circunstâncias nacionais. Se você está desenhando um regime internacional não pode olhar somente para um país. Você não pode achar uma solução que caiba apenas para o Brasil e não se encaixe para o Congo. O motivo do desmatamento e da degradação é diferente na Indonésia, no Brasil, na África. O Brasil precisa tomar uma posição mais efetiva em relação ao aquecimento global.

O mercado de crédito de carbono é uma saída para reduzir as emissões de gases do efeito estufa?

O Brasil está se opondo à inclusão dos créditos de carbono do desmatamento evitado no mercado internacional. Vejo o mercado como um mecanismo muito eficiente, mas a demanda tem sido pouca nesta primeira fase de compromissos. As reduções nos países do anexo 1 do Protocolo de Kyoto são mínimas. Para a inclusão dos créditos do desmatamento evitado, será preciso um compromisso sólido, com a expectiva de reduzir 50% das emissões até 2099. Faz sentido ter um mercado de carbono.

Que previsões o novo relatório deve trazer?

A Antártida deverá ter um aumento de temperatura de sete graus até 2100. Os efeitos serão altíssimos no derretimento das geleiras. O que me preocupa são as mudanças abruptas, que ainda não somos capazes de prever. Há um certo risco de a corrente marítima do Golfo do México se reverter, produzindo grandes furacões e uma era glacial na Europa. Se isso ocorrer, a adaptação vai ser muito mais penosa.

CB, 13/11/2007, Mundo, p. 27

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