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Os peixes do Pantanal estão pedindo água

OESP, Vida, p. A19
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
25 de Mai de 2006

Os peixes do Pantanal estão pedindo água

Marcos Sá Correa

A moratória da pesca no Pantanal, proposta pela Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Mato Grosso do Sul, é um duro golpe na imagem do Brasil como paraíso terrestre. Dessa velha lenda, que o historiador José Murilo de Carvalho apelidou de "mito edênico", jorra a eterna fonte da prodigalidade brasileira. Ela já nos custou a mata atlântica quase toda e pelo menos um terço da floresta amazônica. Mas conserva de pé, no Hino Nacional, a estrofe sobre nossos bosques que, como se sabe, "têm mais vida".
Agora, com o desprendimento que às vezes acomete políticos em fim de mandato, quando correm por fora da campanha eleitoral, o governador José Orcírio Miranda dos Santos, ou Zeca do PT, quer suspender por quatro anos a pesca profissional em seu Estado. Com a trégua, daria aos grandes peixes migratórios uma chance de sair das malhas da economia predatória, que fez em pouco mais de duas décadas tornar raro o que parecia inesgotável no Pantanal.
Pacus, dourados, cacharas e pintados estão encolhendo a olhos vistos nos rios da região. No começo dos anos 80, a produtividade média dos pescadores pantaneiros chegava a 286,8 quilos por dia. Caiu exatamente 83,7%. No Rio Miranda, a queda bateu em 96,8%. Estima-se atualmente em 7,21 quilos por dia a produção de um pescador. Mas não ficou só na quantidade o milagre brasileiro da subtração dos peixes. Eles estão perdendo também no tamanho.
Os dourados diminuíram 58,8 para 34,7 centímetros. Os curimbatás, de 31,9 para 26 centímetros. Os dourados, 40%. E daí por diante. O projeto de moratória está lastreado numa safra recorde de estatísticas sombrias, colhidas por cerca de 160 pesquisadores e voluntários para o biólogo Thomaz Liparelli, superintendente de Pesca de Mato Grosso do Sul.
Há três anos, Liparelli inaugurou o cargo, levando para o governo um doutorado em ictiofauna. E logo bateu de frente com a miragem do Pantanal sem fim, que dez anos atrás ainda era endossada pela bióloga Emiko Kawakami de Resende, da Embrapa. Resende calculou em 1993 que, daquela imensidão inundável de 62 mil quilômetros quadrados, daria para tirar pelo menos 105 mil toneladas de peixe por ano. Ou, quem sabe, 307 mil toneladas.
Mas a produção acaba de bater em 1,4 mil tonelada anual. Enquanto a pesca caía, crescia 300% em 25 anos o credenciamento de pescadores profissionais pelo governo federal, pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e pelas associações locais de pescadores, todos competindo num torneio de assistencialismo político.
No ano passado, quando Liparelli passou as concessões em revista, conferindo nada menos que 559.872 registros de CPF, encontrou carteiras em mãos de funcionários públicos, aposentados, juízes do TRE, assessores jurídicos da própria secretaria e motoristas de táxi de Corumbá, Ladário, Três Lagoas ou Anastácio.
A "Operação Cardume" cassou, entre outras espécies exóticas, 57 agricultores assentados pelo Incra em lotes da reforma agrária. Encontrou 2.960 pescadores profissionais pendurados no cabide do seguro desemprego e 16 foragidos com mandados de prisão. Trouxe à tona curiosidades burocráticas, como a paradoxal corrida pela expedição de carteiras que ocorria em novembro, quando começa o defeso no Pantanal. Tudo porque o período de reprodução, interrompendo a pesca até fevereiro, habilita o profissional a colher na bacia das almas do assistencialismo oficial uma cesta básica e um salário mínimo por quatro meses.
Era uma bagunça. Mas uma bagunça muito bem organizada. "Grande parte dos dirigentes das colônias e em especial da Federação dos Pescadores de Mato Grosso do Sul", diz o relatório da força-tarefa que tratou da faxina, "não é nem nunca foi de pescadores profissionais".
Com o expurgo, dos 15 mil que havia sobraram 1.284 pescadores, em sete colônias. Eles já têm direito a uma cesta básica e salário mínimo no defeso. E estender a rede de proteção por oito meses, nos quatro anos de inatividade forçada, parece o melhor negócio que o País pode fazer no Pantanal. O pior ele está cansado de saber qual é.

Marcos Sá Correa Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 25/05/2006, Vida, p. A19

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