VOLTAR

Os parques da discórdia

OESP, Vida, p. A20
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
04 de Ago de 2005

Os parques da discórdia

Marcos Sá Corrêa

Ninguém pode duvidar das intenções do 1o Encontro dos Povos de Faxinais, que começa amanhã em Irati, no interior do Paraná. O programa abre com um "café da manhã ecológico", passa por um "almoço ecológico" e fecha o dia com um "jantar ecológico". Fora da mesa, as "oficinas temáticas" servem de tira-gostos para todos os paladares do ambientalismo, em palestras sobre agroflorestas, sementes crioulas ou ervas medicinais. Mas o prato forte da reunião é a resistência de pequenos agricultores paranaenses à prefeitura de Prudentópolis, que agora resolveu criar parques municipais numa paisagem que os proprietários sempre conservavam por apego a suas próprias tradições.
Diante de tamanha novidade, os pacatos faxinalenses reagiram. E, longe dos meios de comunicação, mas em discussões aquecidas por barracões de madeira, puseram lenha num debate quase tão acalorado quanto o das CPIs em Brasília.
Eles querem saber se o governo tem o direito de se meter com a conservação de terras privadas, se elas só despertaram o interesse da administração pública quando os turistas descobriram que, usados com certa parcimônia há mais de 100 anos, os faxinais estavam em melhor estado do que todo o cenário espalhado pela rapina econômica à sua volta. Boa pergunta. Tão boa que virou a cabeça dos ambientalistas locais. Com a política brasileira de pernas para o ar, eles se viram, de repente, na oposição a parques. Mas o resto do País tem pouco a ver com isso, mesmo porque mal sabe o que venha a ser um faxinal.
E não adianta perguntar aos dicionários. O mapa dos Estados sulinos está cheio de faxinais, com nomes que parecem cunhados por marqueteiros do turismo rural, como o Faxinal do Céu, no Paraná, ou o Faxinal do Soturno, no Rio Grande do Sul. Mas, na hora de saber o que a palavra significa, o Houaiss diz que é um "campo que avança". E o Aurélio, um pouco mais explícito, responde que se trata de "um trecho alongado de campo que penetra a floresta".
"Eu mesma tive dificuldade de entender o que era faxinal quando cheguei aqui", conta a advogada Vânia Santos. Ela admite que "no começo é difícil se acostumar com esta roça sem cercas". Mas isso foi há 17 anos, quando, contratada para fazer a regularização de um loteamento na cidade, se mudou para Prudentópolis, a 270 quilômetros de Curitiba. Hoje, é a padroeira dos faxinais. Chegou até eles por tabela, defendendo na Justiça funcionários da prefeitura e lavradores devastados por agrotóxicos. Acabou instituindo cooperativas, processando prefeitos e levando ao Ministério Público denúncias de desmatamento. Desdobrou-se numa ONG, o Instituto Guardiões da Natureza, uma rádio FM comunitária, a Cidade, e um programa social de agricultura orgânica.
Vânia define os faxinais pelo uso coletivo da terra para a subsistência, a criação de animais soltos, a ausência de cercas em propriedades particulares e o extrativismo vegetal de baixo impacto, que mantém florestas de pé para colher pinhão ou erva-mate, inquilinos naturais dos bosques de araucárias.
Prudentópolis tem a maior coleção de faxinais do País. Eles formam um sistema comunal, atado pelos velhos laços de parentesco trazidos pelos colonos de origem ucraniana para o planalto de Guarapuva em fins do século 19. E viveram preservados por sua própria modéstia, até os legisladores municipais resolverem tomar conta desse tesouro de cachoeiras cenográficas em cânions verdes, matas que sobreviveram à febre das madeireiras, igrejas bizantinas, ritos brasilianos e festas eslavas. Tudo, pelo visto, bom demais para ficar nas mãos dos autores.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco

OESP, 04/08/2003, Vida, p. A20

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.