Diário do Amazonas-Manaus-AM
Autor: José Ribamar Bessa
19 de Jan de 2005
Numa partida de futebol, quando um jogador está muito ruim em campo, o estádio todo grita: "Pede pra fazer cocô e sai". Dessa forma, o torcedor demonstra sua insatisfação com o rendimento de um atleta, mas dá a ele a oportunidade de sair de fininho, por iniciativa própria, evitando o constrangimento de ser trocado, por decisão do técnico, no meio da partida. Aceitando a sugestão, ele pode fingir uma dor de barriga e sair numa boa, não porque é 'perna-de-pau', mas porque tem de atender a uma urgente necessidade fisiológica. O seu lugar será ocupado por outro melhor que ele e - espera-se - sem diarréia.
O presidente Lula, com muita freqüência, compara sua equipe ministerial a um time de futebol. A vantagem desse tipo de metáfora é que ela é didática, todo mundo entende. Por isso, a imagem futebolística pode esclarecer o leitor sobre uma das reivindicações dos índios que ocupam, de forma pacífica, a sede regional da FUNAI em Manaus, desde o dia 3 de janeiro. Eles estão gritando, como os torcedores : "Rangel, pede pra fazer cocô e sai".
CAI FORA, RANGEL
Quem é Rangel? Benedito Rangel de Morais é o administrador regional da FUNAI. Contra ele pesam acusações graves feitas pelos índios, que merecem ser investigadas: patrocínio de farras e bebedeiras em Autazes; uso de carros oficiais para atividades particulares; falta de transparência nos gastos; negligência na apuração de casos de assédio sexual nas aldeias; não aproveitamento, como estagiários da FUNAI, de estudantes indígenas qualificados; favorecimento de cargos e de benefícios para parentes e amigos. Ou seja, as cagadas que está fazendo já começam a feder. Pode muito bem sair de fininho do seu cargo, que a torcida penhorada agradece.
É isso o que estão exigindo mais de 120 índios de 17 etnias, que ocupam a sede regional da FUNAI. Porém, eles não querem transformar Rangel em bode expiatório. Por isso, exigem também rápida demarcação das terras dos Mura e urgente definição de uma política indigenista para o país. A FUNAI de Brasília reuniu com os índios na semana passada e deu força para Rangel, que bateu o pé dizendo: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira". Os índios procuraram, então, o Ministério da Justiça, que ficou de dar uma resposta anteontem, segunda-feira. Até o momento em que escrevíamos essas linhas, o impasse continuava.
Chamar a Polícia Federal e ingressar na Justiça com uma ação de reintegração de posse, como fez a FUNAI, é confessar a falência múltipla do órgão, transformando a questão indígena num caso de Polícia. A ação de reintegração de posse que a FUNAI devia estar patrocinando era contra os ocupantes das terras indígenas e não contra os índios. Com eles, é preciso conversar, dialogar, negociar, e não bater, prender, censurar, como vem sendo feito há 500 anos.
Os líderes indígenas têm consciência que a troca de jogador pode até fazer com que o time jogue um pouquinho melhor, mas não será suficiente para mudar o placar. No banco de reserva da FUNAI existem funcionários competentes, comprometidos com a defesa dos direitos indígenas. Existem índios capazes de assumir a administração do órgão. No entanto, se acontecer apenas a troca de jogador, mas o esquema tático de jogo permanecer o mesmo, o time vai continuar perdendo. O que precisa mudar é a própria política indigenista.
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.