CB, Política, p. 6
28 de Ago de 2008
Os filhos esquecidos da Veracel
Com a chegada da fábrica de celulose, o povoado de Barrolândia, no interior baiano, ganhou obras de saneamento e serviços de saúde, mas ficou com herança cruel: o abandono de crianças de ex-funcionários
Lúcio Vaz
Enviado especial
Belmonte (BA) - Distante apenas 18km da fábrica de celulose Veracel, o povoado de Barrolândia sentiu os maiores impactos desse empreendimento, tanto nos aspectos positivos como negativos. A vila miserável ganhou ruas calçadas, saneamento básico, hospital, ambulância, mas sofreu as conseqüências da invasão de cerca de 4 mil operários no período de construção da fábrica. Houve o aumento da prostituição e da incidência de doenças sexualmente transmissíveis. Muitos dos operários tiveram relacionamentos com as jovens locais. Com o fim da obra, foram embora e deixaram para trás meninos sem pai e, muitas vezes, sem sobrenome. São conhecidos na vila como os "filhos da Veracel".
Barrolândia já havia sofrido com o ciclo das serrarias, que destruíram grande parte dos remanescentes de Mata Atlântica nas décadas de 1970 e 1980. No povoado chegaram a funcionar nove serrarias. Ali havia cerca de quatro mil habitantes quando começou a construção da fábrica, em 2003. Uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes) revelou dados alarmantes. Cerca de 50% da população vivia em situação de miséria absoluta, com renda familiar de menos de um salário mínimo. A outra metade vivia em situação de pobreza. Os detentores de renda não moravam ali. O índice de desemprego beirava os 38%, contra uma média nacional de 9,4%. A vila tinha ainda um dos maiores índices de hanseníase do país.
A notícia da implantação da fábrica trouxe otimismo e muitos forasteiros. "Houve uma corrida para cá. Barrolândia era um novo 'Eldorado'. Criou-se uma expectativa muito grande de geração de empregos. Mas o povoado não tinha estrutura para receber essa demanda. Não houve planejamento", relata o atual administrador da vila, Eráclito Lima Santos, funcionário da Prefeitura de Belmonte. "No período de implantação da fábrica, tivemos aqui cerca de 4 mil homens alojados, que eram da construção civil da fábrica. Isso nos gerou problemas, como as doenças sexualmente transmissíveis."
Sem registro
Ele conta as conseqüências dessa invasão: "Com a vinda desse volume de pessoas para cá, todas do sexo masculino, houve uma situação que é natural. Muitas meninas acabaram arranjando namorado, outras se prostituíram em conseqüência da falta de emprego. Em função disso, ficaram muitas crianças. Alguns trabalhadores já deviam ter família. Vieram e constituíram família aqui também. No final do serviço, foram embora e ficaram os 'filhos da Veracel'". Eráclito afirmou que, "vendo essa situação, a Veracel chegou à conclusão de que era necessária uma creche, para essas crianças e também os outros meninos do povoado".
R.B.S. hoje com 25 anos, namorou um operário da Veracel. Ela conta como tudo aconteceu: "Ele veio logo no começo, para construir o alojamento. A gente namorou uns oito meses, e fiquei grávida. Ele foi embora, mas assumiu o filho até os oito meses. Ajudou com o berço, o enxoval. Veio registrar o menino, mas o cartório estava fechado. Depois, não apareceu mais. O meu filho não é registrado." Ela sustenta o filho com a renda de um bar, cerca de R$ 500 por mês. Só vende bebidas alcoólicas.
A amiga C.J.S. também namorou um funcionário que morava no alojamento. Tinha 21 anos então. Terminada a obra, o namorado foi embora, como ela relata. "Falei para ele por telefone que tive o filho. Ele estava em Paulo Afonso (BA). Ele disse que viria, mas nunca veio. O meu filho está registrado só com o meu nome". Ela também vende bebidas num boteco.
Eráclito afirma que não houve diálogo com a empresa durante a construção da fábrica, mas que agora a Veracel tem sido "parceira" do município de Belmonte, principalmente nos últimos quatro anos. "A implantação do esgotamento sanitário é uma realidade em Barrolândia. Temos 80% da sua sede com esgoto tratado. Temos um hospital que funciona, uma ambulância. O povoado tinha um índice altíssimo de hanseníase. Hoje esse índice é aceitável. Na questão de educação, temos uma creche em parceria com a Veracel", registra.
O presidente da Veracel, Antonio Sergio Alipio, afirma que o alojamento da empresa em Barrolândia abrigava 1,5 mil operários. Ele nega que a creche tenha sido construída especificamente para abrigar os meninos sem pais. "O que é creche era uma escola. A demanda da comunidade era que tivesse uma creche. A decisão de transformar escola em creche foi da comunidade. Mas, atrás da creche, temos quatro salas para cursos de corte e costura, informática". Ele acrescentou que o prédio usado como alojamento está sendo utilizado como um centro de serviço social.
Investimento de R$ 14 mi
A Veracel informa no seu Relatório Anual de Sustentabilidade que fez um investimento social de R$ 14,7 milhões no ano passado. O programa Território de Proteção da Criança e do Adolescente, em parceria com o Unicef, atende crianças de até 6 anos. Um dos focos é o desenvolvimento de políticas públicas de combate à exploração e ao abuso sexual.
Uma das metas é apoiar 3,6 mil famílias indígenas. Ainda em 2007, foi viabilizado o consumo de água tratada para 450 famílias pataxós de Mata Medonha, Aldeia Velha e Corroa Vermelha. Também foram capacitadas 317 famílias em temas de higiene pessoal, saúde, organização social e cuidados com o meio ambiente. O programa também capacitou 50 representantes de instâncias de controle social e qualificou 40 profissionais para trabalhar na garantia dos direitos da criança e do adolescente na região.
O programa de Apoio à Educação, dirigido a gestores, professores e alunos, beneficia 10.727 pessoas. Foi implantado inicialmente em 10 escolas municipais, estaduais e particulares de Eunápolis e Porto Seguro. No ano passado, foi ampliado para mais sete comunidades: Belmonte, Guaratinga, Itagimirim. Itapebi, Mascote, Ponto Central e Barrolândia.
Renda
Na área de geração de renda, a empresa criou o Projeto Apicultura, fornecendo um kit de instrumentos apícolas aos 100 participantes do programa. O programa Ser Voluntário estimula a integração entre os colaboradores e a comunidade local. A Oficina de Responsabilidade Social promoveu aulas de economia pessoal para 110 alunos, além de campanha para doação de material escolar para 528 crianças. Outros resultados do programa foram a entrega de 580 kits para alunos de escolas municipais, arrecadação de agasalho para 120 pessoas, plantio de 59 árvores em Barrolândia, entrega de 800 livros para bibliotecas. A campanha Natal Solidário atendeu pedidos de 242 alunos.
Entre os programas, estão o Fórum com as ONGs Ambientais do Sul da Bahia e o de Percepção de Odor. O programa Uso Múltiplo de Madeira visa a fortalecer negócios vinculados à cadeia de valor da madeira. A empresa diz ainda que existem 400 empregos indiretos gerados a partir da fábrica.
CB, 28/08/2008, Política, p. 6
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