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Os desafios políticos da Rodovia Transoceânica

CB, Opinião, p. 23
Autor: SALOMÃO, João Francisco
07 de Out de 2008

Os desafios políticos da Rodovia Transoceânica

João Francisco Salomão
Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Acre

A Rodovia Transoceânica, estrada de 2,6 mil quilômetros ao longo da Floresta Amazônica e dos Andes, que ligará o Brasil ao Oceano Pacífico, significará alternativa importante para as nossas exportações aos crescentes mercados da Ásia, responsáveis por mais de 15% de nossas vendas externas. Serão 6 mil quilômetros a menos que os produtos nacionais terão de percorrer até chegar aos consumidores chineses, japoneses, indianos, coreanos e de outras nações da região. Convertida em dólares, essa expressiva distância menor significará sensível redução de custo dos fretes, agregando mais um diferencial competitivo aos manufaturados e commodities brasileiros no comércio exterior.
Além desse grande benefício econômico para todo o Brasil, a rodovia representará inegável fator de desenvolvimento regional, não apenas no Acre, como nos estados vizinhos e vasta área do território do Peru. Estudo da Federação das Indústrias do Estado Acre (Fieac) estima que o vasto mercado a ser aberto pela estrada envolveria 7 milhões de consumidores em Madre de Dios, Cusco, Puno, Arequipa, Apurímac, Ayacucho, Ica, Tacna, Moquegua, Loreto, San Martin, Ucayali, Huanuco e adjacências.
Será estabelecido um novo pólo de fomento comercial e intercâmbio na América do Sul, com impactos positivos na indústria, comércio, hotelaria e turismo em geral.
Por tudo isso, justifica-se plenamente a construção da estrada, uma das mais ousadas obras de engenharia de todos os tempos. Sua conclusão, prevista para o fim de 2010 ou início de 2011, representará uma vitória do talento humano ante dificuldades geográficas imensas. O traçado parte de Rio Branco, no Acre, e segue por 344km em território brasileiro. Cruza a fronteira com o Peru, percorrendo mais 2.256 quilômetros, cortando a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes, até chegar a três portos do país vizinho: Ilo, Matarani e San Juan de Marcona. É um empreendimento de US$ 1,8 bilhão, envolvendo os governos das duas nações e a participação privada.
O avanço da engenharia está viabilizando a superação de formidáveis obstáculos naturais, ou seja, a maior floresta tropical do mundo e a Cordilheira dos Andes.
Há trechos da estrada a 3.500m acima do nível do mar e um segmento a 4.870m de altitude. A obra é um exemplo da capacidade brasileira e latino-americana de solucionar o déficit de infra-estrutura, um dos mais graves e preocupantes gargalos da economia regional, em especial o setor de transportes, ainda muito aquém dos desafios da logística.
Contudo, o sucesso desse grande empreendimento transnacional, principalmente quanto aos resultados que pode produzir em termos de fomento, redução dos custos dos fretes à Ásia e geração de riquezas e empregos, ainda depende da vitória sobre empecilhos não geográficos, mas políticos e relacionados à diplomacia econômica. Há alguns pontos sensíveis a serem superados para a consolidação da Rodovia Transoceânica como pólo de desenvolvimento.
A primeira medida a ser adotada refere-se a esforços para a consolidação de uma linha aérea regular acessível e o fim dos entraves ao transporte de passageiros em ônibus e microônibus. Também é fundamental a simplificação das relações aduaneiras, com a implantação de um modelo de preferências tarifárias e facilitação do câmbio. Na fronteira peruano-brasileira (Assis Brasil - Iñapari) é preciso que prospere, pelo menos até a conclusão da estrada, uma área de livre comércio, eliminando-se as restrições alfandegárias e não-alfandegárias que limitam o comércio bilateral. Uma boa medida seria a implantação de um sistema de utilização das moedas locais, a exemplo do adotado a partir de outubro no intercâmbio entre Brasil e Argentina.
É preciso encarar com otimismo as possibilidades de avanços em todas essas negociações, dada a inegável importância da Rodovia Transoceânica. Afinal, seria uma inadmissível ironia, depois de vencer a Floresta Amazônica e os Andes, limitar os impactos econômicos positivos desse fabuloso empreendimento em decorrência de meras idiossincrasias.

CB, 07/10/2008, Opinião, p. 23

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