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Os desafios de uma potência ambiental

O Globo, Economia, Eco Verde, p. 31
Autor: VIEIRA, Agostinho
11 de Nov de 2010

Os desafios de uma potência ambiental

Agostinho Vieira

Existem pelo menos três boas razões para que o novo governo que toma posse em janeiro ponha o Brasil, de uma vez por todas, no caminho do desenvolvimento sustentável. A primeira delas é ética. Tem a ver com deixar de fazer as coisas de uma certa maneira para fazer da maneira certa.

Considerando a escala de tempo, somos apenas visitas num planeta que tem mais de 3,5 bilhões de anos. Portanto, já está mais do que na hora de parar de botar os pés em cima da mesa e sujar a casa.

O segundo argumento está relacionado com o instinto de sobrevivência que todos nós temos ou deveríamos ter. Se nada for feito, alertam nove em cada dez cientistas, podemos ser incluídos na triste lista dos animais ameaçados de extinção. A diferença é que os outros são irracionais. O terceiro motivo, menos nobre que o primeiro e menos assustador que o segundo, é porque, simplesmente, pode ser um ótimo negócio.

A expressão "potência ambiental tropical" foi criada pelo cientista Carlos Nobre, do INPE, inspirado no embaixador Rubens Ricupero, e mostra o tamanho da oportunidade que o Brasil tem pela frente nos próximos dez anos. Nobre vai além e diz que podemos ser o país "mais economicamente limpo do mundo". A nossa matriz energética já tem 46% de fontes renováveis, mas não podemos nos acomodar com o binômio etanol e energia hídrica. Ele defende a criação de uma meta para que em 2020 o Brasil tenha 55% de energia limpa.

- A China tem 92% de energia fóssil (poluente), mas investe muito mais em alternativas do que o Brasil. Eles estão chegando a uma produção de 30 GW de energia eólica, o que é quase metade de toda a energia produzida por nós, que gira em torno de 75 GW. Enquanto isso, após o leilão de 2009, estamos próximos de produzir 1,8 GW de eólica.
Fábio Barbosa, presidente do Grupo Santander Brasil, acha que é preciso acabar com a ideia de que um país para ser sustentável precisa abrir mão do desenvolvimento econômico. Ele cita o exemplo da indústria da cana, e empresas como a Natura, que ganharam o mercado internacional levando a bandeira da sustentabilidade. Mas o executivo defende também a eficiência como parte fundamental nesse caminho em direção a uma potência ambiental.

- O Brasil hoje cria um boi por hectare, o que é um completo absurdo. Temos uma oportunidade enorme de ganho de produtividade na agricultura, nos transportes, na geração de energia. Sem derrubar florestas, mas aproveitando melhor o solo, a água e o sol abundante que temos.

Mas na opinião de Carlos Nobre, o grande potencial brasileiro está na indústria da biodiversidade, que a Ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, chamou de o novo pré-sal. O cientista acha que o potencial é maior do que o pré-sal e não considera exageradas as estimativas que falam em US$ 4 trilhões.

- Uma potência tem que ser capaz de criar soluções inovadoras. Um país grande é um país industrializado. Portanto, precisamos criar indústrias de biodiversidade em todas as regiões e não só no Sudeste. Hoje usamos apenas 0,1% do potencial que a biodiversidade tem no Brasil. Existem mercados na indústria química, farmacêutica etc. Precisamos aproveitá-los, mas com um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável.

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O Globo, 11/12/2010, Economia, Eco Verde, p. 31

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