O Globo, Economia Verde, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
07 de Fev de 2013
Os custos ocultos
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Há dois anos, a Puma, multinacional de material esportivo, solicitou à consultoria Trucost um estudo que mostrasse o impacto nas suas contas do uso de recursos naturais. Itens como água, uso do solo e outros serviços ambientais pelos quais a empresa e seus clientes jamais pagaram qualquer coisa. Uma linha sempre oculta nos balanços das companhias, e que os teóricos resolveram chamar de "externalidades".
O resultado foi surpreendente. No ano em que foi feito este trabalho, 2010, a Puma registrou faturamento de 2,7 bilhões de euros e teve um resultado líquido de 220 milhões de euros. A empresa tem quase dez mil funcionários e atua em 120 países. Se fossem contabilizadas, as tais "externalidades" teriam custado à empresa 145 milhões de euros. A consultoria estimou os custos ocultos de apenas cinco áreas: emissão de gases de efeito estufa, uso da água, utilização do solo, poluentes locais e produção de lixo.
Algumas pessoas devem estar se perguntando: "Como é possível uma empresa multinacional não pagar pelas contas de água e lixo?". Essa é uma dúvida muito comum. Quando uma empresa ou uma família paga a conta de água, ela está pagando pelo tratamento daquela água e pelo transporte até a torneira da sua casa. Incluindo os investimentos nas tubulações, as obras físicas e os impostos. Mas ela não paga pelo uso daquela água e nem pelos eventuais impactos ambientais. São coisas diferentes.
O mesmo acontece com o lixo. Pagamos para que ele seja recolhido e levado para algum lugar. De preferência para um local adequado. Mas não entram na conta o gás metano que ele pode emitir, a contaminação do solo e a sujeira nos rios. Foi isso que a Puma, corajosamente, resolveu considerar e divulgar. É claro que não dá para pegar o resultado líquido da empresa, reduzir as "externalidades" e achar que o lucro correto seria de 75 milhões de euros.
Em primeiro lugar, porque o estudo considerou toda a cadeia de valor da multinacional, incluindo centenas ou milhares de fornecedores em todo o planeta.
Além disso, se um dia os impactos ambientais forem incluídos na contabilidade da Puma ou de qualquer outra empresa, eles certamente serão repassados para o cliente final. O que seria uma decisão coerente com as leis de mercado.
A definição de preço dos produtos sempre considerou os recursos naturais como infinitos. Os efeitos que o homem causa no ar, na água e no solo, por exemplo, nunca foram levados em conta. Só que, há algum tempo, isso não é mais verdade. De acordo com a Unesco, 884 milhões de pessoas vivem sem água potável e 2,5 bilhões não têm acesso a saneamento básico. O que, na prática, representa mais gente doente, rios e lagos contaminados.
Até 2025, 1,8 bilhão de pessoas estará vivendo em regiões com absoluta escassez de água. E se um produto é escasso, o preço sobe. Isso vale para a camiseta da moda ou para a água que bebemos. Essa será uma das grandes discussões econômicas dos próximos anos. Como incluir nos preços os custos nem tão ocultos assim dos impactos ambientais. A outra é a substituição do PIB por um indicador que represente melhor o aumento do bem-estar das populações.
A inclusão das "externalidades" ambientais nos preços pode ser feita de várias maneiras. Uma delas seria através das próprias empresas, que fariam o cálculo da sua "pegada ambiental". O que é improvável, até porque poderia representar um desequilíbrio na concorrência. Outra maneira simples e talvez mais eficaz é a cobrança de uma taxa ou imposto. Empresas poluidoras pagariam por emissão de carbono, sujeira na água ou produção de lixo.
Uma terceira forma mais simpática às empresas é a premiação das companhias que poluem menos. As que tivessem os melhores indicadores pagariam menos impostos. Pode servir de exemplo e de incentivo para as demais. Também é possível investir mais em prevenção, o que obviamente reduz o dano e a eventual punição. Garantir a preservação das nascentes dos rios e dos seus cursos é infinitamente mais barato do que tratar a água poluída. Mesmo que se pague uma mesada ou uma "bolsa água limpa" para as populações ribeirinhas fazerem o serviço.
No relatório divulgado pelo Puma, uma frase deixava clara a situação: "Embora paguemos impostos para as autoridades locais por serviços como o tratamento e a oferta de água ou a disposição do lixo, os verdadeiros custos de nossos impactos ambientais ainda não entram nas contas". Não dá mais para ser assim. O mundo mudou e, mais cedo ou mais tarde, dois mais dois precisam voltar a ser quatro.
O Globo, 07/02/2013, Economia Verde, p. 28
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